Sala de Situação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), no Parque de Inovação Tecnológica (PIT). Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
A projeção mais recente indica 63% de probabilidade de que o aquecimento das águas do Pacífico Equatorial ultrapasse 2°C acima da média entre o fim de 2026 e o início de 2027. Caso o cenário se confirme, o evento poderá figurar entre os mais intensos observados desde meados do século passado.
Diante dessa perspectiva, o governo federal criou uma Sala de Situação Interministerial para coordenar ações de monitoramento, prevenção e resposta aos impactos esperados em diferentes regiões do país. A estrutura permite acelerar decisões, liberar recursos emergenciais e integrar informações de instituições como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que fornecem dados técnicos continuamente.
Em entrevista ao programa Bom Dia, Ministro, produzido pelo Canal Gov, emissora da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), o ministro do MIDR, Waldez Góes, apresentou nesta quinta-feira (18) as ações de mitigação do fenômeno no Brasil. Góes destacou que a sala de situação criada unifica os esforços de 20 ministérios e demais órgãos.
Ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, em entrevista ao programa Bom Dia, Ministro, produzido pelo Canal Gov, emissora da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
“Temos um plano de contingência, um plano de enfrentamento e também todo um nivelamento a nível de governo federal e uma comunicação muito intensa e permanente com os estados e municípios. É muito frequente, às vezes, dependendo da situação, reuniões até diárias. Damos, também, um espaçamento semanal para nos reunirmos com os atores locais do território”
Waldez Góes Ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional do Brasil
A estratégia também busca fortalecer aquilo que especialistas chamam de “cultura do risco”, conceito que envolve preparação prévia da população, realização de simulados, identificação de rotas de fuga e conhecimento dos protocolos de emergência antes que os desastres aconteçam.
O alerta que pode aparecer no seu celular
Uma das principais ferramentas de prevenção atualmente é o sistema Defesa Civil Alerta. Diferentemente dos tradicionais SMS, a tecnologia utiliza o sistema de transmissão celular conhecido como Cell Broadcast. Isso permite que mensagens emergenciais apareçam automaticamente na tela dos aparelhos que estiverem em uma área de risco.
Exemplo de mensagem que será exibida em caso de evento extremo. Print via celular Joédson Alves/Agência Brasil
O aviso interrompe qualquer atividade em andamento no telefone e pode ser emitido em situações classificadas como severas ou extremas. No caso dos alertas extremos, a recomendação é imediata: deixar a área de risco e procurar abrigo seguro. A ferramenta tem sido considerada um dos principais avanços recentes na gestão de desastres no Brasil, especialmente em um cenário de aumento da frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos.
O que torna este episódio de El Niño tão preocupante?
A classificação de “Super El Niño” não é oficial, mas costuma ser utilizada quando as anomalias de temperatura da superfície do mar ultrapassam 2°C na região central do Pacífico Equatorial.
Embora o oceano seja o ponto de partida, o fenômeno só se estabelece plenamente quando a atmosfera responde a esse aquecimento. É justamente essa interação entre oceano e atmosfera que desencadeia os impactos climáticos observados em escala global.
Historicamente, episódios mais intensos costumam estar associados a secas severas em algumas regiões, excesso de chuva em outras e aumento da frequência de extremos climáticos.
O que muda no Brasil
Os efeitos do El Niño variam conforme a região do país. Na Amazônia e em parte do Nordeste, o fenômeno tende a reduzir as chuvas e favorecer períodos mais prolongados de estiagem. No Centro-Oeste, geralmente contribui para temperaturas acima da média e aumento do risco de queimadas. Já no Sul do Brasil, o comportamento costuma ser oposto.
A presença do El Niño favorece uma atmosfera mais instável, aumentando a frequência e o volume das precipitações. Isso eleva o risco de enchentes, enxurradas, alagamentos e deslizamentos de terra, especialmente durante a primavera e o verão.
É importante destacar que o fenômeno não provoca eventos extremos diretamente. Ele cria um ambiente atmosférico mais favorável para que esses episódios ocorram com maior frequência ou intensidade.
Por que Santa Catarina acompanha o El Niño de perto?
A preocupação catarinense tem explicação histórica. Os episódios de El Niño costumam aumentar significativamente o volume de chuva no Sul do Brasil. Em Santa Catarina, os principais impactos geralmente aparecem entre setembro e novembro, período em que a climatologia já favorece a ocorrência de temporais e precipitações intensas.
Defesa Civil de Santa Catarina criou uma página exclusiva sobre o El Niño. Foto: Ricardo Trida/SECOM
Por isso, a Defesa Civil de Santa Catarina já trabalha em ações preventivas antes mesmo da chegada dos impactos mais expressivos.
Nesta semana lançou uma página exclusiva dedicada ao acompanhamento do El Niño. O espaço reúne informações técnicas, orientações de segurança, planos de contingência, materiais educativos e respostas para dúvidas frequentes da população.
A iniciativa faz parte de uma estratégia maior de preparação diante das previsões que apontam fortalecimento gradual do fenômeno ao longo do segundo semestre.
Entre os conteúdos disponíveis estão orientações para situações de alagamentos, deslizamentos, temporais com ventos fortes, ressacas marítimas e ondas de calor, além de modelos de Plano Emergencial Familiar para auxiliar moradores na preparação para possíveis situações de risco.
O desafio é antecipar os impactos
A criação da Sala de Situação pelo governo federal e as ações antecipadas da Defesa Civil catarinense refletem uma mudança importante na gestão de riscos climáticos. O objetivo agora é agir antes que os impactos aconteçam. A orientação dos especialistas é que a população acompanhe os boletins meteorológicos oficiais, mantenha atualizado o cadastro para recebimento de alertas e conheça os planos de emergência de sua cidade.
Ainda não é possível afirmar quais serão os efeitos exatos deste episódio sobre cada região do país. O que já se sabe é que o El Niño está de volta, tende a ganhar força ao longo dos próximos meses e será um dos principais fatores climáticos a influenciar o Brasil até, pelo menos, o outono de 2027.
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