
Com quantas vítimas se faz um país?
Foi essa pergunta que me ocorreu após ler um artigo do cientista político Wilson Gomes sobre a crescente política da vitimização que assola o país.
A propósito, recebi o texto por e-mail, enviado pelo estupendo Canal Meio, que recomendo a todos que gostam de informação de qualidade sem viés político.
Voltando ao artigo, Gomes defende uma ideia que achei interessantíssima e que motivou este texto: parte da política brasileira virou uma disputa pelo papel de perseguido e pelo direito de apontar o opressor.
Tem vítima em todos os espectros ideológicos e para todo tipo de gosto: vítimas do patriarcado, do racismo, das Big Techs, do mercado, da mídia, do STF, do politicamente correto, das elites, das minorias, das maiorias, etc etc etc
Ou, de uma forma mais genérica, mas que os políticos adoram, vítimas “do sistema”.
A tese defendida pelo autor é que a vida pública passou a se organizar como uma disputa para decidir quem ocupa cada lado: uns reivindicam a condição de vítima e outros ocupam o incômodo lugar de privilegiado ou opressor.
Estamos vivendo, portanto, uma verdadeira guinada vitimista.
Confesso que achei a reflexão muito interessante, embora não necessariamente concorde integralmente com ela.
Mas, para tirar a prova de que o articulista está no caminho certo, basta abrir o Instagram e entrar no perfil de pré-candidatos para perceber que algo acontecendo.
Mas, ora, se todo mundo é vítima, quem é o culpado?
O culpado, ou os culpados, eu não sei. Mas sobre quem são as verdadeiras vítimas eu dei o spoiler logo de cara, lá na manchete.
O que importa para os meus leitores, especialmente os catarinenses, embora a reflexão sirva para o país inteiro, é que já sabemos qual ambiente político está sendo construído para 2026, especialmente para as eleições presidenciais.
E o pior sintoma desse ambiente nefasto, o mais devastador para o povo brasileiro, é que a política deixou de debater projetos, ideias ou visões de futuro.
Isso não importa, não viraliza e não gera corte de podcast.
É politicamente muito mais rentável ocupar o lugar de vítima.
Todo mundo parece ter encontrado um culpado para os seus problemas e para os problemas do país.
E a política da vitimização não prospera por acaso, mas porque funciona.
É muito mais fácil mobilizar alguém pelo medo ou pelo sentimento de injustiça do que convencê-lo por meio de um projeto complexo de país.
Vítimas geram engajamento e planos de governo são ignorados.
Se a esquerda se apresenta como vítima do fascismo, a direita se diz vítima da censura.
Lula é vítima das fake news e Bolsonaro é vítima do sistema.
O STF, por sua vez, é vítima dos ataques à democracia, enquanto os conservadores se apresentam como vítimas das supostas elites culturais.
As minorias são vítimas das maiorias e vice-versa.
E assim seguimos nessa lógica binária, simplificadora e medíocre, numa curiosa disputa para descobrir quem sofre mais e ganha mais pontos dentro das respectivas bolhas.
Pois a verdade é que a vítima gera empatia, mobiliza e cria pertencimento.
Os políticos vitimizados viram referências para os cidadãos-vítima, que se veem representados neles.
A lógica é simples e amplamente reproduzida: se eu sou vítima, alguém precisa ser responsabilizado.
É uma narrativa tão poderosa para quem se beneficia politicamente dela quanto perigosa para quem perde como cidadão.
Ela reduz problemas complexos a uma luta permanente entre inocentes e culpados, entre direita e esquerda, entre nós e eles, e está arrastando a vida pública brasileira para o seu nível mais baixo.
E é justamente aí que começo a pensar em 2026, porque tudo indica que teremos mais uma eleição profundamente polarizada.
Especialmente se Flávio Bolsonaro continuar no jogo, o que hoje parece o cenário mais provável, apesar dos abalos recentes em sua candidatura.
As pesquisas dificilmente darão alento a uma terceira via, à exceção de pequenos espaços ocupados por nomes como Renan Santos, que provavelmente terão uma performance eleitoral relevante, mas passarão longe da viabilidade.
A propósito, Renan tem crescido batendo justamente nessa vitimização da direita e da esquerda, embora ele e o MBL também se apresentem, com frequência, como vítimas de diversas forças do sistema político.
Resta saber, no fim das contas, para quem a vitimização funcionará melhor: para a direita ou para a esquerda.
Um dos polos será vencedor. Mas o problema é dramaticamente outro.
Enquanto os grupos políticos disputam quem sofre mais, quem acaba sofrendo de verdade é o cidadão comum, que busca soluções e não emoções.
Existe ainda um incentivo perverso para que essa dinâmica continue: a polarização recompensa quem aponta culpados e pune quem reconhece complexidades.
O candidato que diz “a culpa é deles” costuma viralizar muito mais do que aquele que admite que os problemas do país não cabem em um vídeo de trinta segundos.
Na política brasileira contemporânea sempre existe um culpado disponível, mas poucos parecem dispostos a assumir responsabilidades pelas mazelas do país.
E quanto mais culpados aparecem, menos espaço sobra para discutir soluções.
Talvez o maior risco de 2026 não seja a polarização em si, haja vista que o Brasil sempre foi um país de conflitos.
Democracias maduras convivem com divergências.
O problema surge quando a disputa eleitoral deixa de ser uma competição de projetos para se transformar numa competição de vítimas.
Porque, nesse ambiente, o objetivo deixa de ser convencer e passa a ser acusar.
No fim das contas, a vítima mais frequente dessa dinâmica não costuma ser Lula nem Bolsonaro muito menos a esquerda ou a direita.
A vítima costuma ser, e será em outubro, o eleitor.
Que assiste, impotente, a uma permanente guerra de narrativas enquanto os problemas reais do país seguem aguardando atenção.
Talvez eu esteja sendo excessivamente otimista ou até pueril para alguém que trabalha com comunicação política há mais de trinta anos.
Mas ainda prefiro uma política em que os candidatos disputem quem tem a melhor solução, e não quem tem a melhor história de sofrimento.
Porque, se chegarmos a outubro de 2026 discutindo apenas quem foi mais perseguido, provavelmente já teremos definido o maior perdedor dessa eleição.
Embora, verdade seja dita, nós, brasileiros, sejamos ao mesmo tempo vítimas dessa histeria bipolar e também culpados por alimentá-la todos os dias.
Vítimas e culpados. Talvez essa seja a sina que nos espera em outubro.




