Durante muitos anos, as mudanças climáticas foram tratadas como um problema do futuro. Um tema discutido em conferências internacionais, relatórios científicos e negociações diplomáticas, mas que parecia distante da realidade cotidiana da maior parte da população.
Os números mais recentes mostram que essa percepção mudou de forma significativa. A crise climática deixou de ser apenas uma projeção científica para se tornar uma experiência concreta na vida dos brasileiros.

Uma pesquisa realizada pelo Aurora Lab e pela More in Common revelou que 85% dos brasileiros já percebem impactos das mudanças climáticas no seu dia a dia. Mais do que isso, quase metade dos entrevistados afirma sentir esses efeitos de forma intensa.
A pesquisa Clima, Trabalho e Transição Justa publicada na última semana de Maio é a segunda lançada neste ano a revelar uma transformação importante. A população não está mais observando a crise climática como algo que acontece em outros países, em regiões polares ou em cenários futuros. Ela está percebendo seus efeitos nas contas de energia, no preço dos alimentos, na saúde, na mobilidade urbana e até na estabilidade do emprego.
A percepção mudou porque os eventos extremos ficaram mais frequentes
O aumento da temperatura média global amplia a capacidade da atmosfera de armazenar vapor d’água e energia. Na prática, isso cria condições mais favoráveis para episódios de chuva extrema, ondas de calor prolongadas, secas severas e incêndios florestais de grandes proporções. A ciência vem alertando há décadas que um planeta mais quente favorece a ocorrência de eventos climáticos extremos mais intensos e mais frequentes.
Embora nenhum evento individual possa ser atribuído exclusivamente às mudanças climáticas, existe um consenso científico de que o aquecimento global aumenta a probabilidade e a intensidade desses fenômenos.
No Brasil, os últimos anos ofereceram exemplos claros dessa realidade. As enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 provocaram centenas de milhares de deslocamentos, prejuízos bilionários e uma das maiores crises humanitárias já registradas no país. Em diferentes regiões brasileiras, incêndios florestais recordes degradaram a qualidade do ar por semanas. Nas grandes cidades, temporais e vendavais passaram a provocar interrupções frequentes no fornecimento de energia elétrica.

O clima já afeta o bolso, a saúde e a qualidade de vida
Os resultados da pesquisa do Aurora Lab ajudam a entender por que a preocupação da população aumentou de forma tão expressiva. Entre os entrevistados, 53% afirmam que as mudanças climáticas contribuíram para elevar o custo de vida. Outros 45% relatam prejuízos à saúde física. Quatro em cada dez brasileiros dizem enfrentar dificuldades de deslocamento para o trabalho em razão de eventos climáticos extremos.
Também aparecem impactos menos visíveis, mas igualmente preocupantes.
Cerca de 32% relatam consequências para a saúde mental, enquanto 17% afirmam ter perdido renda devido a situações relacionadas ao clima. Esses números demonstram que a crise climática deixou de ser uma questão exclusivamente ambiental.
Hoje ela também é um tema de saúde pública. É uma questão econômica. É um desafio para a infraestrutura urbana. E cada vez mais influencia decisões relacionadas à moradia, ao trabalho e à segurança das famílias. Essa mudança de percepção aparece de forma clara quando observamos a evolução histórica das preocupações da população brasileira.
Um em cada quatro brasileiros já precisou sair de casa
Talvez o dado mais impactante dos levantamentos recentes seja aquele que mostra a dimensão humana dos eventos extremos. Outra pesquisa publicada neste ano, em março, pelos Institutos Talanoa e Ipsos mostrou que um em cada quatro brasileiros já precisou deixar sua residência temporariamente por causa de enchentes, deslizamentos, incêndios florestais, ondas de calor ou outros eventos climáticos severos. Esse dado ajuda a explicar por que a população passou a enxergar os impactos climáticos como algo próximo da sua realidade.

O mesmo levantamento mostra que que sete em cada dez brasileiros acreditam que os eventos extremos estão se tornando mais frequentes na região onde vivem. 24% dos entrevistados relatam impactos diretos sobre suas próprias famílias, enquanto 26% afirmam perceber efeitos na cidade ou região onde vivem. O mais interessante é que a percepção da população está cada vez mais alinhada ao diagnóstico produzido pela ciência climática.
A adaptação climática se tornou tão importante quanto reduzir emissões
Durante muitos anos, grande parte do debate climático esteve concentrada na mitigação, ou seja, na redução das emissões de gases de efeito estufa. Esse esforço continua fundamental. No entanto, uma nova prioridade passou a ganhar espaço: a adaptação climática.
Em termos simples, adaptar-se significa preparar cidades, sistemas de saúde, infraestrutura, agricultura e comunidades para lidar com um clima que já está mudando.
Isso inclui obras de drenagem para reduzir alagamentos, reforço de encostas, ampliação dos sistemas de alerta meteorológico, modernização das redes elétricas, revisão dos planos diretores urbanos e investimentos em segurança hídrica.
O próprio levantamento dos Institutos Talanoa e Ipsos ficou claro que a população compreende essa necessidade. Três em cada quatro entrevistados defenderam que governos realizem obras adaptadas às mudanças climáticas, mesmo que isso represente custos mais elevados.
A população talvez não utilize expressões técnicas como resiliência climática ou adaptação baseada em ecossistemas, mas entende perfeitamente a importância de preparar cidades para enfrentar eventos extremos.
O paradoxo brasileiro: mais dinheiro para o clima, menos recursos para prevenção
Enquanto cresce a percepção da população sobre os riscos climáticos, o debate sobre investimentos públicos ganha importância. O Orçamento Climático de 2026 mostra uma situação paradoxal.
Por um lado, o principal instrumento financeiro da política climática brasileira, o Fundo Clima, terá crescimento de 60% em relação ao ano anterior. Os recursos saltaram de R$ 26,5 bilhões para R$ 42,5 bilhões. É um avanço importante.

Por outro lado, o mesmo estudo aponta redução de recursos destinados a áreas fundamentais para a adaptação e para o enfrentamento das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa. Houve diminuição nas verbas relacionadas ao combate ao desmatamento, à gestão de unidades de conservação, à bioeconomia e também em iniciativas voltadas à prevenção de desastres. A contradição é evidente.
O país amplia os recursos destinados à transição climática ao mesmo tempo em que reduz investimentos em algumas das áreas mais diretamente ligadas à proteção das populações vulneráveis. A discussão deixa de ser apenas quanto investir. Passa a ser também onde investir.
O desafio da próxima década
Em maio deste ano, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução histórica reforçando a responsabilidade dos países na proteção de suas populações diante da crise climática. A medida ocorreu poucos meses após o Tribunal Internacional de Justiça reconhecer que os Estados possuem obrigações relacionadas à proteção do clima e podem ser responsabilizados por danos decorrentes da inação.
O movimento internacional reflete uma percepção que também cresce dentro do Brasil. A crise climática não é mais apenas uma pauta ambiental. Ela está relacionada à saúde, à economia, à infraestrutura, à segurança alimentar, à gestão das cidades e à redução das desigualdades.
Os dados mais recentes mostram que a população brasileira já percebe essa mudança. A questão agora é saber se as políticas públicas conseguirão acompanhar essa nova realidade. Porque o principal debate climático dos próximos anos defintivamente não é seja mais se as mudanças climáticas estão acontecendo.
As evidências já responderam essa pergunta.
O verdadeiro desafio será determinar quão preparados estaremos para conviver com um clima cada vez mais extremo.







