
Não se ouve barulho dentro do gabinete do vereador Mateus Batista na Câmara de Vereadores de Joinville. Lá dentro, jovens assessores de cabeça baixa, com luz reduzida, olhando fixamente para uma tela de computador. Nos corredores do legislativo joinvilense o gabinete do mais jovem vereador desta legislatura é visto como uma Lan House (estabelecimento comercial onde os clientes pagam pelo tempo de uso de computadores com acesso à internet).
Gostem ou não, esta é a forma que a nova política trabalha para chegar a um eleitorado que não é o tradicional e que é visto como seguidor e o tapinha nas costas é trocado pelo engajamento. É a forma diferença (vamos chamar assim) de se fazer política e campanha eleitoral.
O vereador Mateus Batista está filiado ao União Brasil, mas ele faz parte de um grupo que fundou o Missão, com integrantes oriundos do Movimento Brasil Livre (MBL) que surgiu durante manifestações contra o governo de Dilma Rousseff e a corrupção. O novo partido político começa a chamar atenção como um dos poucos que podem furar a bolha da polarização entre lulistas e bolsonaristas.
O Partido Missão, com Renan Santos na disputa presidencial, ainda está em fase inicial para ter estrutura nacional, capilaridade partidária e tempo político para romper a polarização. No entanto, já não é possível tratar Renan Santos apenas como ruído de rede social. As últimas pesquisas mostram que existe ali um ponto de atenção.
Na pesquisa DataFolha na última sexta-feira, Renan aparece com 3% nos dois cenários estimulados do primeiro turno. O número frio poderia sugerir pouca relevância. Mas é preciso sair da frieza dos números e ver o movimento. Na pesquisa da AtlasIntel/Bloomberg, divulgada antes da DataFolha, Renan Santos apareceu com 5,3% em cenário com Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Estaria em terceiro lugar, à frente de Caiado e Zema, dois nomes com mandato, biografia administrativa e presença no debate nacional. Entre os eleitores de 16 a 24 anos, o desempenho foi ainda mais expressivo e lidera a disputa com incríveis 36%. Chama atenção tudo isso e esse é o ponto. Renan Santos começa a ser um candidato de nicho com capacidade de furar bolhas.
Especialista vê espaço para candidato anti-sistema e digital para furar a bolha

Na Expogestão que ocorreu na semana passada em Joinville, em uma plenária voltada para executivos, uma discussão chamou atenção para o cenário político e econômico. O diretor de estratégia da Eurasia Group, Philipe Moura, observa que o mercado ainda aguarda as definições eleitorais. Para ele, há espaço no cenário atual para um candidato com forte discurso anti-sistema, com força nas redes sociais e no digital, que poderia furar com a bolha da popularização. “Não sei se é o Renan esse nome, mas seria um perfil parecido com o Pablo Marçal que poderia surpreender”, analisa.
Para Moura está cristalino a polarização e os candidatos atuais da terceira via, seja Romeu Zema ou Ronaldo Caiado, parecem não atrair um eleitorado ávido por outra alternativa.
O MBL usa um caminho muito conhecido no mundo digital. O MBL já testou parte desse modelo ao eleger nomes por outras legendas. Agora, com partido próprio, o Missão tenta fazer algo mais ambicioso que é transformar um movimento digital em estrutura eleitoral.
Renan foi o pré-candidato que mais cresceu proporcionalmente no TikTok em abril, segundo levantamento citado pelo Poder360.
Isso explica por que o mercado começa a olhar. Não necessariamente porque acredite, hoje, numa vitória de Renan. Mas porque o mercado observa sinais. E o sinal é mais claro do que nunca. Há um eleitor jovem, digital, impaciente com a política convencional e disposto a testar personagens que falam fora do roteiro.
Santa Catarina entra no mapa do Missão

Em Santa Catarina, o Missão também tenta ocupar espaço com a pré-candidatura do empresário e ex-lutador Marcelo Brigadeiro ao governo do Estado. O nome ainda é pouco conhecido no eleitorado estadual amplo, mas cumpre uma função estratégica que é dar palanque ao partido.
Brigadeiro não entra apenas contra adversários de esquerda ou centro. Entra para disputar espaço dentro da própria direita. E essa talvez seja a principal dor de cabeça que o Missão pode provocar para o governador Jorginho Mello. Na última pesquisa da Neokemp, em um recorte por faixa de idade de 25 a 44 anos, Brigadeiro parece empatado com Gelson Merísio (PSB).
Colega aqui do portal Upiara, Marcello Natale já identificou que o pré-candidato Felipe Barcellos merece atenção. Natale escreveu que Barcellos é “um dos nomes beneficiados pelo crescimento do Missão entre o público jovem e pelo avanço de Renan Santos nas pesquisas. Compensa a incerteza de uma chapa estreante no Estado com conflito, enfrentamento e uma comunicação bastante marcada. Por enquanto, parece estar funcionando”. (leia aqui)
O recado para os partidos tradicionais
A candidatura de Renan Santos é pequena nos números da Datafolha, mas grande no alerta que emite. A política tradicional ainda pensa em tempo de TV, coligações e palanques. O Missão pensa em comunidade, algoritmo e narrativa





