Artigo de Alan Schöeninger, gestor público, sócio e Diretor de Relações Governamentais da NM80 Assessoria, especialista em gestão de convênios e captação de recursos.

A gestão pública municipal é feita de planejamento, prioridades, equipe técnica e capacidade de execução. Mas ela também é feita de articulação. Prefeito que entende isso cedo amplia as chances de transformar boas ideias em obras, serviços e entregas reais para a população. No Brasil, deputados federais e estaduais têm papel relevante na dinâmica orçamentária e na destinação de emendas parlamentares, enquanto a execução de convênios e transferências exige tramitação formal, perfis específicos e acompanhamento técnico em sistemas como o Transferegov.
Por isso, em ano eleitoral, uma reflexão precisa ser feita com seriedade pelos prefeitos e também pelas lideranças municipais: não se trata apenas de eleger deputados. Trata-se de compreender quem, no futuro próximo, terá condições de representar a região, defender pautas relevantes e manter uma relação de confiança e proximidade capaz de ajudar o município na busca por recursos e soluções.
É claro que nenhum prefeito pode terceirizar a sua responsabilidade. O dever de casa continua sendo local. Cabe ao gestor municipal ser o grande articulador político e institucional da cidade, manter presença em Brasília e em Florianópolis, cultivar diálogo com governos, acompanhar programas abertos, construir bons projetos e dar prioridade real ao setor de convênios e captação de recursos. Sem organização interna, sem equipe qualificada e sem acompanhamento técnico, até oportunidades concretas podem se perder no caminho. O próprio governo federal exige cadastro, perfis específicos e etapas formais para apresentação e tramitação de propostas em transferências e convênios.
Dito isso, também é preciso reconhecer uma evidência da vida pública: quando um prefeito conta com um deputado estadual ou federal de sua região, ou com um parlamentar com quem tenha relação política e pessoal de confiança, ele passa a ter um aliado importante. Não um atalho. Não uma garantia automática. Mas um aliado. Alguém que conhece a realidade local, entende as urgências do município, ajuda a abrir portas, acompanha pleitos, articula agendas, defende prioridades e, muitas vezes, contribui para transformar uma demanda administrativa em pauta política relevante.
Esse apoio importa porque a disputa por atenção institucional é real. Municípios competem por espaço, por prioridade e por presença nas agendas estadual e federal. Nesse ambiente, ter representação próxima faz diferença. Faz diferença para buscar emendas, para defender projetos estruturantes, para sensibilizar secretarias e ministérios, para manter viva uma pauta que, sem acompanhamento político, muitas vezes se perde na burocracia ou na fila das prioridades.
No caso de Santa Catarina, isso é ainda mais perceptível. A própria legislação estadual registra a existência de emendas parlamentares impositivas no orçamento catarinense, com destinação a municípios e diferentes objetos de interesse público. Isso mostra, de forma concreta, que a relação entre representação parlamentar e resultado local não é abstrata. Ela interfere no cotidiano das prefeituras.
Mas é importante fazer uma ressalva justa: reconhecer o valor da representação regional não significa desmerecer o trabalho de deputados que atuam além de suas bases geográficas. Bons parlamentares ajudam municípios de várias regiões, constroem pontes amplas e exercem mandato com visão de Estado. O ponto central, aqui, não é reduzir a política a um mapa. É afirmar que, para um prefeito, faz diferença ter por perto alguém em quem confie, alguém que atenda, acompanhe, se comprometa e esteja disposto a ajudar quando a cidade precisa.
Na prática, toda prefeitura que deseja deixar legado precisa tratar a captação de recursos como tema estratégico. Isso exige estrutura. Exige equipe de convênios compatível com a importância do setor. Exige qualificação, rotina, cobrança, método e valorização interna. Afinal, boa parte das grandes entregas de uma gestão passa justamente por esse núcleo. É ali que oportunidades são convertidas em propostas. É ali que programas são acompanhados. É ali que recursos se transformam, mais adiante, em pavimentação, equipamentos, unidades de saúde, escolas, praças, máquinas, custeio e melhoria efetiva da vida das pessoas.
Por isso, a escolha de deputados estaduais e federais também deve ser observada sob a ótica da governança municipal. Não apenas como debate ideológico ou partidário, mas como decisão que impacta a capacidade futura de articulação de cada cidade. Quem representará o município? Quem terá sensibilidade para suas pautas? Quem ajudará a abrir caminhos? Quem terá compromisso real com aquela gestão e com aquela população?
No fim, a discussão não é apenas eleitoral. É administrativa. É institucional. É estratégica. Eleger deputados não é só preencher cadeiras no Parlamento. Para muitos prefeitos, é também definir quem poderá caminhar ao lado da gestão na defesa de recursos, projetos e prioridades que, depois, se transformarão em ações concretas na vida das pessoas.
E talvez essa seja a reflexão mais importante para 2026: mais do que perguntar quem será eleito, os municípios deveriam perguntar quem, de fato, estará disposto e preparado para ajudá-los a governar melhor.





