03/04/2026

Comida de doente: a gastronomia do cuidado que atravessa gerações

Eu sei que a primeira coisa que veio à sua mente foi a canja. Esse caldo quentinho e aconchegante, feito com legumes, frango e arroz ou macarrão, é quase uma unanimidade para quem está doente. E digo isso não só no Brasil, mas em várias partes do mundo. Mas, aqui, quero explorar o universo das “comidas de doente” que vão além da canja: aquela comidinha que cada família costuma preparar e que passa de geração em geração como o remédio oficial da casa.

Dia desses, fiquei bem mal do estômago; não podia, nem queria, comer quase nada. Minha mãe preparou sua famosa sopa de batata batida no liquidificador. Desde criança, quando eu ou minha irmã ficávamos de cama e ouvíamos o som do liquidificador na cozinha, já sabíamos o que viria: uma sopa lisinha e cremosa, feita apenas com batatas cozidas, alho e cebola refogados. É essa a comida que gosto de fazer (e tomar) quando eu ou alguém próximo não está bem.

Caldo de Caridade ou Cabeça de Galo – Foto: Teresa Newman

Isso me levou a pensar nos pratos que cada família cria para cuidar dos seus. Fiz uma pesquisa em diversas redes sociais perguntando qual era a “comida de cura” de cada um. A maioria, claro, respondeu canja, mas surgiram variações regionais curiosas. Uma moradora do sertão de Pernambuco mencionou o caldo de caridade, muito popular no Nordeste, também citado como caldo de galo ou cabeça de galo. “É basicamente água com verduras picadas que, após ferver, recebe farinha de mandioca e ovos quebrados para virar tipo um mingau”, explicou. Outra versão ainda adiciona carne moída ao preparo: “fica gostoso e dá sustança”. Pode ser feito também com os ovos cozidos inteiros no caldo; cada família tem sua variação. 

Os mingaus aparecem logo após as sopas. “Minha mãe faz caribé, um mingau de farinha de mandioca com manteiga. Sempre curou minhas febres.” O caribé é de origem indígena, pode ser salgado ou doce e é tradicional no Norte e Nordeste, feito com farinha fina (cuí) ou farinha d’água. Já o “mingau de cachorro” é clássico no Nordeste (muito forte na Bahia, onde também é chamado de mingau de Santo Antônio). Ele é parecido com o caribé, mas costuma ser salgado — um pirão ralo com alho e pimenta. Em outro depoimento: “minha mãe fazia mingau de alho queimado com farinha de milho; curava tudo.” E ainda outro: “meu pai fazia mingau de angu com alho bem torradinho”.

Em resumo: se você está no Nordeste e quer algo salgado para “levantar defunto”, vai de mingau de cachorro. No Norte, para fortalecer o corpo com sustança, o caribé é a escolha. Entre respostas mais específicas, surgiram pérolas como “chá preto com biscoito Piraquê salgadinho” e “suco de maçã ralada coado no paninho pela avó”.

Pelo mundo

Açorda – Foto: Mimmo Lusito

Resolvi ir além e perguntar a conhecidos que moram fora do Brasil e também fazer minha própria pesquisa sobre o que se come quando o corpo pede trégua. Em Portugal, as variações de sopa alentejana (ou açorda alentejana) e açorda, ambas feitas com sobras de pão amanhecido, apareceram nas respostas logo após a canja. Na sopa, o pāo é partido em pedaços e colocado no fundo da tigela. Por cima, vai água fervente temperada com alho, sal, coentros (ou poejos), ovos escalfados e um fio generoso de azeite. Achei parecida com o nosso caldo de caridade brasileiro. A açorda seria uma versão mais apurada e consistente desse prato, resultando em uma mistura tipo papa. Outra resposta em Portugal: “o meu padrinho fazia uma bebida que era ponche e leite, tudo muito quente, no dia a seguir estava curado da gripe”.

Torrada com Vegemite – Foto: Sandra Palmer

Na Austrália, surgiu a torrada com Vegemite. “Tudo o que comi quando tive Covid foi torrada com Vegemite, queijo e tangerina”, contou um australiano. O Vegemite é uma marca popular de uma pasta salgada, escura e bem amarga, feita com extrato de levedura. Eu já provei (e odiei), mas é um ícone cultural no país. Há quem ame e quem odeie. 

Sopa de pastina ou penicilina italiana – Foto: Jennifer Emmilson – The Lemon Apron

Na Itália, a pastina foi unânime nas pesquisas. São aquelas massinhas bem pequenas em formatos diversos cozidas em caldo de galinha, cenoura, temperos e finalizadas com limão e queijo. A sopa com pastina também é chamada de “sopa italiana penicilina”, uma analogia em relação ao poder de cura do antibiótico. Outra versão comfort food da pastina é apenas a massinha cozida com manteiga ou molho de tomate. 

Congee – Foto: Divulgação

Na China e no Sudeste Asiático, o destaque é o congee, um mingau de arroz e água de fácil digestão, às vezes feito com gengibre para aliviar a garganta. Curiosamente, a palavra congee se assemelha a canja. Ambas derivam de kanji, termo do sul da Índia para mingau de arroz. Basicamente, são irmãos linguísticos que seguiram caminhos diferentes pelo mapa.

Imagino a infinidade de receitas de família que “curam” e estão por aí, rodando o mundo, cada uma com sua particularidade e herança. No fim das contas, a eficácia dessas receitas reside menos na combinação dos ingredientes e mais na crença de poder de cura, na sensação de aconchego que elas trazem e no afeto de quem prepara. É a confiança e a fé de que aquela comida vai nos colocar de pé que realmente opera o milagre, mesmo que seja placebo. Afinal, se um ponche com leite ou um biscoitinho Piraquê conseguem trazer conforto para um corpo doente, quem somos nós para questionar? Claro que, para as questões sérias, a gente ouve o médico e segue a bula, mas para o dengo, a gente aproveita e acredita na cozinha da vó.

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