
Santa Catarina vive um movimento silencioso, mas profundo, dentro do agronegócio. O campo ficou mais valorizado, o milho deixou de ser apenas commodity para virar ativo energético e o clima passou definitivamente a influenciar decisões econômicas, produtivas e financeiras.
O retrato dessa transformação aparece em diferentes frentes: no preço das terras agrícolas, que disparou em regiões altamente produtivas; no avanço do etanol de milho, que muda a dinâmica do cereal no Brasil; e nos alertas internacionais sobre um possível El Niño de forte intensidade já em 2026.
No meio disso tudo, o agro catarinense continua crescendo, mas pressionado por logística cara, dependência de grãos vindos de fora e necessidade cada vez maior de planejamento.
Mercado de terras agrícolas dispara em Santa Catarina com força do agronegócio
O mercado de terras agrícolas em Santa Catarina registrou forte valorização em 2025, impulsionado pelo desempenho do agronegócio estadual, pela expansão das atividades produtivas e pela crescente pressão sobre áreas estratégicas para agricultura e pecuária.
Levantamento da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina/Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Epagri/Cepa) mostra que os preços variam conforme aptidão produtiva, localização e tipo de uso das propriedades rurais.
As terras de primeira classe, consideradas de maior potencial agrícola, atingiram os maiores valores do estado. Em Campos Novos, no Meio-Oeste catarinense, o preço médio chegou a R$ 169 mil por hectare. Já as várzeas sistematizadas destinadas ao arroz irrigado alcançaram R$ 164 mil por hectare em Turvo, no Sul do estado.
Segundo a analista da Epagri/Cepa, Glaucia de Almeida Padrão, o levantamento reflete um conjunto de fatores econômicos e produtivos.
“Os dados passam por validação estatística, permitindo identificar preços mínimos, máximos e os valores mais recorrentes em cada município”, explica.
O estudo monitora os preços das terras desde 1997 e se consolidou como uma das principais referências do mercado fundiário rural catarinense. A metodologia considera exclusivamente o valor da terra nua, sem incluir benfeitorias, com informações coletadas junto a cooperativas, sindicatos, imobiliárias rurais, cartórios e agentes do setor.
Soja, arroz e pressão urbana puxam valorização das propriedades
A valorização acompanha diretamente o avanço da agropecuária catarinense. Com sistemas produtivos intensivos e alto nível tecnológico, o Valor da Produção Agropecuária (VPA) do estado foi estimado em R$ 74,9 bilhões em 2025, crescimento de 15,4% frente ao ano anterior.
A soja teve impacto direto sobre as terras de primeira e segunda classes, especialmente nas regiões altamente mecanizadas do Oeste e do Planalto Norte. Já o arroz irrigado impulsionou a valorização das várzeas sistematizadas, em um cenário em que cerca de 60% da área cultivada opera sob sistema de arrendamento.
No litoral catarinense, fatores externos ao agro também entram na conta. Expansão urbana, atividade industrial, turismo rural e presença portuária ajudaram a pressionar os preços das propriedades rurais.
Ao mesmo tempo, áreas de servidão florestal e reserva legal também registraram valorização, impulsionadas pela legislação ambiental e pela busca por ativos ligados à compensação ambiental.
Etanol de milho muda o jogo e transforma cereal em ativo estratégico
Enquanto a soja continua sendo protagonista no agro brasileiro, o milho passou a ocupar um espaço muito maior do que o de simples grão para ração ou exportação.
O avanço do etanol de milho transformou o cereal em peça estratégica da segurança energética e da cadeia de proteína animal.
Hoje, o Brasil já é o segundo maior produtor mundial de etanol de milho, atrás apenas dos Estados Unidos. A produção saltou de 2,59 bilhões de litros na safra 2020/21 para projeções próximas de 10 bilhões de litros em 2025/26.
Esse crescimento acompanha a expansão das biorrefinarias, especialmente no Centro-Oeste, mas também começa a chegar com força ao Sul do país. A Cooperativa Agroindustrial Coamo (Coamo), por exemplo, investe R$ 1,7 bilhão em uma nova usina de etanol em Campo Mourão, no Paraná, integrada à cadeia de produção de proteína animal.
Cada tonelada de milho gera cerca de 450 litros de etanol e 300 quilos de DDG, farelo rico em proteína utilizado na nutrição animal. Isso significa que o milho deixou de ser apenas matéria-prima agrícola para se transformar em energia, ração e ativo industrial.
Santa Catarina é potência em carnes, mas depende do milho de fora
O avanço do milho energético expõe uma contradição estrutural em Santa Catarina.
O estado é potência nacional em proteína animal, líder em aves e referência em suínos, mas não produz milho suficiente para abastecer a própria cadeia.
Segundo o vice-presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), Enori Barbieri, Santa Catarina precisa de aproximadamente 8,5 milhões de toneladas de milho por ano, mas produziu apenas cerca de 2,5 milhões nesta safra.
“O estado construiu uma das cadeias agroindustriais mais fortes do país a partir do milho. Hoje a demanda cresceu e a produção não acompanhou”, afirma Barbieri.
A consequência aparece no custo da proteína animal. Quando o milho sobe, a ração sobe. E, quando a ração sobe, a competitividade da carne catarinense sente imediatamente o impacto.
Ferrovia e armazenagem voltam ao centro da discussão
A dependência de milho vindo do Centro-Oeste recoloca velhos gargalos estruturais no centro do debate.
Barbieri voltou a defender uma ligação ferroviária eficiente entre Mato Grosso do Sul e o Sul do país, especialmente Santa Catarina e Rio Grande do Sul, para reduzir custos logísticos da cadeia de proteína animal.
Outro problema é a armazenagem. Regiões como Xanxerê já registraram falta de espaço para armazenar grãos diante do aumento da produtividade e da decisão de produtores de ampliar área de milho em vez de soja nesta safra.
Sem logística eficiente, o milho chega mais caro. E isso afeta toda a cadeia de carnes, cooperativas, frigoríficos e pequenas agroindústrias.
ONU vê risco à segurança alimentar com avanço do El Niño em 2026
Se a logística preocupa, o clima entrou definitivamente na conta.
A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) realizou nesta quinta-feira uma reunião de emergência para discutir os impactos do possível El Niño de 2026 sobre a segurança alimentar da América Latina.
Segundo o diretor da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Julian Báez Benítez, o fenômeno pode ser um dos mais intensos dos últimos anos, com risco de: excesso de chuvas no Sul do Brasil, secas severas no Nordeste, ondas de calor, enchentes e aumento nos custos de produção agrícola
O alerta internacional ocorre justamente quando o agro brasileiro já enfrenta pressão de combustíveis, fertilizantes e crédito mais caro.
Plenário Agro debate as mudanças tributárias no setor
A edição desta noite do Plenário Agro debate um tema que já chegou na porteira: impostos.
A jornalista Ketrin Raitz e o advogado Pedro Etchepare recebem a contadora especialista em controladoria e agronegócio, Seni Cláudia Martins Elias, para discutir as mudanças tributárias no setor e os impactos da perda de isenções para produtores, cooperativas e empresas do agro.
A live acontece às 19h, no perfil do Política e Agro. Nos vemos lá, Agroamigos!





