
O presidente Lula (PT) desembarcou na Europa defendendo o agro brasileiro e criticando o que chamou de “narrativas falsas” sobre o setor. Disse mais: que o Brasil pode se tornar a “Arábia Saudita dos biocombustíveis”.
Ao mesmo tempo, aqui dentro, o país acumula mais de 200 invasões de propriedades rurais nos últimos três anos. O contraste não poderia ser mais claro: de um lado, o Brasil tentando vender força lá fora; do outro, ainda lutando para garantir segurança básica aqui dentro.
Passado o feriado, o agro volta ao trabalho nesse cenário:
Santa Catarina resolvendo gargalos histórico, enquanto Brasília ainda discute regra, judicializando mercado e travando o próprio sistema.
E no meio disso tudo, está o produtor: produzindo, apesar de tudo.
Itapoá entra no mapa global e SC joga o jogo grande da logística
Uma parceria internacional pode reposicionar o agro do Sul no comércio global. A cooperativa Coamo e a multinacional norueguesa Yara assinaram um memorando de entendimento para estudar a operação conjunta de um novo terminal portuário em Itapoá, no litoral catarinense.
O projeto prevê:
- obras a partir de 2027
- operação em 2030
- capacidade de até 9,3 milhões de toneladas por ano
Com estrutura para:
- granéis vegetais
- fertilizantes
- combustíveis e multicargas
O presidente da Coamo, Airton Galinari, destacou a localização estratégica e a integração logística. Já Marcelo Altieri, da Yara, reforçou o interesse em ampliar a presença portuária no país.
Maçã deixa de viajar para competir e SC corta custo na raiz
Santa Catarina resolveu um problema antigo com uma decisão simples. Agora, a maçã produzida no Estado pode ser certificada e exportada diretamente pelos portos catarinenses.
Antes, o caminho era outro: enviar para o Rio Grande do Sul ou esperar a certificação no porto. Agora, a certificação é feita em São Joaquim e Fraiburgo e o embarque é direto.
O impacto é claro na redução de custo, no ganho de até 15 dias de vida útil na produção e mais competitividade internacional. Ou, como resumiu o governador Jorginho Mello (PL):
– Não fazia sentido produzir aqui e exportar por outro Estado.
E o secretário estadual de Agricultura, Admir Dalla Cort, reforçou:
– Ganhamos eficiência e qualidade.
Resolver o básico ainda é o maior diferencial.
Na Europa, o Brasil se defende e tenta vender sua própria narrativa
Na Alemanha, o presidente Lula criticou o que chamou de “narrativas falsas” sobre o agro brasileiro. Ele elevou o tom: o Brasil pode se tornar a “Arábia Saudita dos biocombustíveis”
A fala de Lula não veio por acaso. O Brasil segue pressionado internacionalmente por temas como desmatamento, sustentabilidade e acesso a mercados. Ao se posicionar, o presidente tenta reposicionar o país como líder em energia limpa e produção sustentável.
Mas há um problema: narrativa externa só se sustenta, quando a realidade interna acompanha.
Propriedade sob pressão e o Congresso reage
O avanço das invasões reacende um temor antigo e agora com números. De 2023 até abril de 2026, o Brasil já registrou 241 invasões de propriedades rurais, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Só em 2025, foram 90 ocorrências o maior número da última década. Em 2026, até meados de abril, já são 33 casos, sendo 14 apenas neste mês.
O senador Jaime Bagattoli (PL-RO) alertou:
– É um problema muito sério no Brasil, que afeta toda a produção primária.
A escalada dos números acendeu o sinal no Congresso.
A Frente Parlamentar da Agropecuária intensificou a ofensiva com um pacote de medidas para conter o avanço das ocupações, incluindo:
- criação de cadastro nacional de invasores
- endurecimento das penas para esbulho possessório
- tipificação penal específica para invasões
- restrição de acesso a crédito e políticas públicas
O tema deixou de ser pontual, virou prioridade. E, para o produtor, a conclusão é direta: segurança jurídica não pode ser exceção.
Tem que ser regra.
Moratória da soja sai do mercado e vira disputa de poder
O debate ambiental também mudou de patamar. A Moratória da Soja antes um acordo entre empresas agora entra no radar do Congresso e do Judiciário.
A audiência conjunta aprovada no Senado deve discutir impacto econômico, distorções concorrenciais e os limites legais do acordo.
O que está em jogo: quem define a regra o mercado ou o Estado.
Entre discurso e realidade, o agro segue sustentando o país
O Brasil quer liderar o discurso global do agro sustentável. Santa Catarina mostra que é possível liderar na prática.
Mas, entre uma coisa e outra, existe um país que ainda discute questões básicas, que aprendeu a conviver com a insegurança e que mais reage do que se antecipa aos problemas.
Nesse espaço, o produtor segue trabalhando. Produz, investe, sustenta – mesmo quando o ambiente não ajuda. O agro brasileiro não para. Só, muitas vezes, fica mais difícil para continuar andando.




