
Quando o benefício vale mais que o trabalho
A colheita da maçã ainda está distante do próximo verão, mas o problema já preocupa produtores de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. O setor estima precisar de cerca de 70 mil trabalhadores para a safra, mas encontra dificuldade crescente para preencher vagas temporárias. O motivo é conhecido no campo: muitos beneficiários do Bolsa Família evitam contratos formais por receio de perder o auxílio e ficar sem renda quando o trabalho sazonal termina.
O debate ganhou força após o governo federal vetar integralmente o Projeto de Lei 715/2023, conhecido como “PL dos Safristas”. A proposta permitia que trabalhadores contratados temporariamente para atividades agrícolas mantivessem o acesso aos programas sociais sem que a renda da safra fosse imediatamente considerada para o cancelamento dos benefícios.
Para produtores de maçã, uva, café, hortifrúti e outras culturas dependentes de mão de obra temporária, o veto mantém um problema antigo que afeta diretamente a produção. O campo precisa de trabalhadores e os trabalhadores precisam de renda. Mas a política pública continua tratando essas duas necessidades como se fossem incompatíveis.
O veto que uniu o agro
A decisão provocou reação imediata da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), de entidades do setor e de parlamentares ligados à produção rural.
Em nota oficial, a FPA afirmou que o veto penaliza trabalhadores, dificulta a formalização do emprego rural e ignora a realidade enfrentada por produtores que dependem de mão de obra sazonal. A entidade argumenta que o projeto não criava novos benefícios nem ampliava despesas sociais, mas apenas permitia que trabalhadores aceitassem contratos temporários sem o receio de perder imediatamente a proteção social.
A Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) também criticou a decisão e anunciou articulação junto ao Congresso Nacional para derrubar o veto. Segundo a entidade, a manutenção das regras atuais incentiva a informalidade e agrava a escassez de trabalhadores em diversas cadeias produtivas.
Em Santa Catarina, o deputado federal Rafael Pezenti (MDB-SC) foi um dos mais duros críticos da medida.
“Se ele quer briga, que se prepare. Vai cair do cavalo”, afirmou o parlamentar em vídeo divulgado nas redes sociais ao comentar a decisão do governo federal.
O veto ainda será analisado pelo Congresso Nacional, que poderá mantê-lo ou derrubá-lo.
Dumping reconhecido, tarifa suspensa
A cadeia leiteira conquistou uma vitória importante, mas ainda sem efeitos práticos imediatos.
A Câmara de Comércio Exterior (Camex) reconheceu oficialmente a existência de dumping nas importações de leite em pó da Argentina e do Uruguai e autorizou a aplicação de medidas antidumping que, em alguns casos, podem ultrapassar 100% do valor importado.
Apesar disso, a própria resolução suspendeu temporariamente a aplicação das tarifas até a conclusão de uma análise de interesse público conduzida pelo governo federal. O argumento é avaliar possíveis impactos econômicos, especialmente sobre indicadores de inflação.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) discorda dessa avaliação. Segundo a entidade, os produtos atingidos pelas medidas são destinados ao uso industrial e não possuem impacto relevante sobre os itens que compõem a cesta básica do consumidor brasileiro. A entidade afirma ainda que a investigação confirmou os prejuízos causados ao setor nacional por importações realizadas a preços artificialmente baixos.
Cooperativismo responde por mais de um quarto das exportações catarinenses
Enquanto parte do agro enfrenta dificuldades internas, o cooperativismo catarinense segue acumulando resultados históricos.
Em 2025, as cooperativas agropecuárias de Santa Catarina exportaram mais de US$ 2,18 bilhões e passaram a responder por 27,45% de todo o valor exportado pelo estado. A proteína animal liderou a pauta exportadora, seguida pelos cereais in natura.
Para o presidente do Sistema OCESC, Vanir Zanatta, os números refletem a capacidade do cooperativismo de combinar eficiência econômica e organização produtiva.
“Santa Catarina é referência internacional em produção de alimentos, e o cooperativismo tem papel fundamental na conquista deste posto. Levamos qualidade, eficiência e confiança aos mercados mais exigentes do mundo sem perder a essência colaborativa.”
O Oriente Médio, Japão, África, China e América do Norte estão entre os principais destinos das exportações cooperativistas catarinenses.
Sanidade abre mercados e Santa Catarina bate novo recorde nas carnes
Santa Catarina voltou a registrar resultados históricos nas exportações de proteína animal.
Entre janeiro e maio de 2026, o estado embarcou 883,7 mil toneladas de carnes, gerando receitas de US$ 2,01 bilhões. O desempenho representa crescimento de 7,4% em volume e de 12,1% em faturamento na comparação com o mesmo período do ano passado, consolidando o melhor resultado da série histórica para os cinco primeiros meses do ano.
O governador Jorginho Mello atribui o resultado ao patrimônio sanitário construído ao longo de décadas.
“Santa Catarina possui um patrimônio sanitário reconhecido internacionalmente, que abre portas para mercados exigentes e fortalece a competitividade das nossas carnes no exterior.”
Atualmente, a produção catarinense chega a mais de 150 mercados internacionais e mantém posição de destaque nas exportações brasileiras de carne suína e de frango.
Nova lei flexibiliza certificação e pode acelerar investimentos em armazenagem
Entrou em vigor a Lei nº 15.429/2026, que torna facultativa a adesão das unidades armazenadoras ao Sistema Público de Certificação Agropecuária.
A mudança abre espaço para certificadoras privadas atuarem no mercado e reduz exigências regulatórias que, segundo representantes do setor, elevavam custos e dificultavam novos investimentos.
A expectativa é que a medida contribua para ampliar a infraestrutura de armazenagem do país. Hoje, o Brasil possui capacidade para armazenar cerca de 60% da produção anual de grãos, acumulando déficit superior a 130 milhões de toneladas.
O governo e entidades do setor avaliam que a flexibilização poderá acelerar projetos de expansão e melhorar a logística agropecuária nos próximos anos.
Produzir continua sendo mais fácil do que contratar
A semana deixa uma contradição evidente. O agro catarinense bate recordes de exportação, amplia mercados, fortalece o cooperativismo e consolida sua reputação sanitária no mundo. Ao mesmo tempo, enfrenta dificuldades para contratar trabalhadores, convive com insegurança regulatória e ainda aguarda soluções para problemas que se repetem safra após safra.
O caso da maçã é apenas um exemplo. Enquanto o campo procura gente para trabalhar, Brasília continua debatendo se vale mais proteger o benefício ou incentivar o emprego. E essa é uma conta que, cedo ou tarde, acaba chegando à porteira e à mesa do consumidor.




