
O agro cresce e os desafios também.
Santa Catarina acaba de registrar o maior Valor da Produção Agropecuária (VPA) de sua história. Em 2025, o agro catarinense movimentou R$ 75,1 bilhões, resultado impulsionado pela recuperação climática, pela valorização dos preços e pelo aumento da produção em diversas cadeias produtivas. O crescimento real foi de 12,5%, revertendo a retração observada no ano anterior e consolidando mais um capítulo da força produtiva do campo catarinense.
Mas os números recordes convivem com desafios cada vez mais complexos. Entre eles está o avanço dos javalis e javaporcos, uma ameaça que preocupa produtores, especialistas e autoridades sanitárias. A expansão desses animais tem provocado prejuízos econômicos, danos ambientais e ampliado os riscos para uma das cadeias mais importantes do estado: a suinocultura.
Pesquisa sobre javalis é ampliada e alerta ganha força
O Ministério da Agricultura e Pecuária decidiu prorrogar até 30 de junho a pesquisa nacional que busca mapear a presença de javalis e javaporcos no Brasil. O levantamento pretende identificar a distribuição dos animais, os prejuízos registrados nas propriedades rurais e os impactos econômicos, ambientais e sanitários provocados pela espécie.
A iniciativa ganhou prazo adicional após a constatação de baixa adesão em alguns estados, especialmente no Paraná. A expectativa é construir um diagnóstico nacional mais preciso para subsidiar futuras políticas públicas de controle.
Segundo o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette, a participação dos produtores será fundamental para transformar o problema em prioridade governamental.
“É importante que os nossos produtores rurais participem respondendo ao questionário, para que possamos posteriormente cobrar políticas públicas de controle eficiente.”
Os prejuízos atribuídos aos suínos asselvajados incluem destruição de lavouras, ataques a rebanhos, degradação ambiental e risco sanitário para a cadeia produtiva da suinocultura.
Avanço dos javalis preocupa Santa Catarina
Em Santa Catarina, o debate ganhou ainda mais força com o lançamento do Censo Catarinense do Controlador de Javali, iniciativa do deputado estadual Lucas Neves (Podemos-SC).
O objetivo é identificar quem atua no controle da espécie, onde estão os controladores, quais técnicas utilizam e quais dificuldades enfrentam. A intenção é produzir informações que permitam a formulação de políticas públicas mais eficientes.
A preocupação não é apenas econômica. Especialistas alertam que os javalis podem atuar como vetores de doenças como brucelose, leptospirose, peste suína clássica e peste suína africana, enfermidades que representam ameaça direta para a produção animal e para o status sanitário brasileiro.
Os relatos da Serra Catarinense mostram que o problema já ultrapassou os limites das propriedades rurais. Vídeos recentes registraram grupos de javalis atravessando a SC-114 entre São Joaquim e Painel, aumentando o risco de acidentes e chamando a atenção para o crescimento descontrolado da população desses animais.
Agro catarinense alcança maior VPA da história
Se os javalis preocupam, os números da agricultura catarinense ajudam a explicar por que proteger a produção se tornou uma questão estratégica.
A 46ª Síntese Anual da Agricultura de Santa Catarina, divulgada pela Epagri/Cepa, mostra que o Valor da Produção Agropecuária alcançou R$ 75,1 bilhões em 2025, o maior resultado da série histórica. O crescimento nominal foi de 15,8%, enquanto o avanço real chegou a 12,5%.
Entre os destaques aparecem o milho (+50,5%), milho silagem (+46%), maçã (+34,3%), tabaco (+33%), bovinos de corte (+32,6%), soja (+24,3%) e suínos (+20,1%).
Para o secretário de Estado da Agricultura e Pecuária, Admir Dalla Cort, os números reforçam a importância do setor para a economia catarinense.
“A Síntese Anual da Agricultura traz um retrato da força e da evolução do agronegócio catarinense, evidenciando resultados históricos e fortalecendo a tomada de decisões e as políticas públicas.”
Santa Catarina também manteve protagonismo nas exportações de proteína animal e segue liderando os embarques nacionais de carne suína.
Senado aprova proposta para acelerar regularização ambiental
Outra pauta importante avançou no Senado Federal.
A Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) aprovou o Projeto de Lei 6.531/2025, de autoria do senador Sérgio Petecão (PSD-AC), com relatoria do senador Zequinha Marinho (Podemos-PA), ambos integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária.
A proposta cria regras específicas para agilizar a análise de passivos ambientais em imóveis rurais e estabelece prazos para que órgãos ambientais respondam aos pedidos de regularização.
Segundo o relator, o objetivo é reduzir a insegurança jurídica enfrentada por produtores que aguardam decisões administrativas para acessar crédito, investir ou formalizar sua situação ambiental.
“Estamos criando uma rota de regularização ambiental com regras claras, prazos definidos e respeito à legislação vigente.”
O texto segue agora para a Câmara dos Deputados.
Nova lei pode destravar investimentos em armazenagem
Também entrou em vigor a Lei nº 15.429/2026, que altera as regras de certificação das unidades armazenadoras de produtos agropecuários.
A principal mudança é tornar facultativa a adesão ao sistema de certificação, mantendo a fiscalização sanitária e os controles de qualidade já existentes. A expectativa é reduzir custos, facilitar investimentos e estimular a construção de novos armazéns.
O tema ganhou importância porque o Brasil possui capacidade para armazenar apenas entre 60% e 63% da produção anual de grãos, acumulando déficit superior a 130 milhões de toneladas.
Representantes do setor avaliam que a flexibilização pode contribuir para ampliar a infraestrutura logística e reduzir gargalos que afetam a competitividade do agronegócio.
Crescer exige proteger
Os números mostram que Santa Catarina vive um dos momentos mais fortes de sua história agropecuária. O estado produz mais, exporta mais e gera mais riqueza no campo.
Mas o avanço dos javalis, os desafios sanitários, a necessidade de regularização ambiental e os gargalos de infraestrutura lembram que crescimento não se sustenta apenas com bons resultados econômicos.
Produzir mais continua sendo fundamental e proteger o que foi construído talvez seja o próximo grande desafio.




