19/05/2026

Embrapa busca recurso privado para blindar pesquisas; fertilizantes disparam 63% e governo tenta conter diesel para a próxima safra

O agro percebeu que soberania também se faz dentro do laboratório

O Brasil aprendeu, ao longo das últimas décadas, que não existe potência agropecuária sem ciência. Foi a pesquisa que tropicalizou culturas, aumentou produtividade, transformou cerrado em área agricultável e colocou o país entre os maiores produtores de alimentos do planeta.

Agora, a própria Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) começou a alertar que o modelo atual de financiamento da ciência agrícola entrou no limite.

Depois de anos convivendo com contingenciamento, bloqueios orçamentários e incerteza fiscal, a estatal quer criar um fundo patrimonial bilionário para garantir previsibilidade às pesquisas de longo prazo. A discussão deixou de ser apenas administrativa e entrou no campo da soberania nacional.

Enquanto isso, o agro enfrenta um cenário cada vez mais pressionado por clima, fertilizantes caros, diesel elevado e margens apertadas. O produtor tenta segurar a conta da safra enquanto Brasília tenta reorganizar crédito, combustível e logística.

No meio disso tudo, a pergunta começa a mudar, já que o problema não é “apenas” produzir mais, mas sim garantir condições para continuar produzindo.

Embrapa quer criar fundo de até R$ 1 bilhão para blindar pesquisa agropecuária

A Embrapa decidiu buscar um caminho para reduzir sua dependência do orçamento público e evitar que pesquisas estratégicas fiquem reféns do humor fiscal de Brasília. A estatal articula a criação de um fundo patrimonial inspirado nos endowments das universidades americanas, com meta inicial entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão para financiar pesquisas agropecuárias de longo prazo.

A ideia ganhou força depois de anos de contingenciamento e dificuldades operacionais dentro da própria empresa. Na prática, o modelo funcionaria como um “cofrinho científico”: o principal fica aplicado, enquanto os rendimentos bancam editais, bolsas, laboratórios e projetos estratégicos.

Na gestão da presidente Silvia Massruhá, a aproximação com a iniciativa privada acelerou. As parcerias praticamente dobraram nos últimos anos, saltando de cerca de R$ 65 milhões em 2023 para aproximadamente R$ 150 milhões em 2025. Já os royalties obtidos via Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) passaram de R$ 3,7 milhões em 2024 para R$ 12,6 milhões neste ano, com meta de alcançar R$ 30 milhões em 2026.

Segundo Massruhá, a iniciativa busca garantir estabilidade à pesquisa agropecuária brasileira. “É uma questão de soberania nacional”, afirmou a presidente da estatal ao defender um modelo que permita à Embrapa financiar projetos estratégicos sem depender exclusivamente das oscilações do orçamento público.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) já sinalizou interesse em aportar cerca de R$ 100 milhões na estrutura, desde que o projeto seja formalizado.

Mas a própria Embrapa reconhece os limites do capital privado dentro da ciência. Segundo Massruhá, empresas costumam priorizar pesquisas com retorno rápido, aplicação comercial imediata e potencial de mercado. Já estudos estruturantes, que exigem décadas de desenvolvimento, continuam dependendo do Estado.

O exemplo citado pela presidente foi o da pesquisadora Mariangela Hungria, referência mundial em bioinsumos e uma das cientistas mais respeitadas do agro brasileiro. Antes de virar solução disputada pelo mercado, a tecnologia desenvolvida por ela passou décadas sendo sustentada por investimento público e pesquisa de base.

Hoje, segundo dados da própria Embrapa, cerca de 200 tecnologias avaliadas pela estatal geraram impacto econômico estimado em R$ 124 bilhões em 2025, algo próximo de 17% do Produto Interno Bruto (PIB) agrícola brasileiro.

A empresa calcula que cada R$ 1 investido nessas tecnologias retorna aproximadamente R$ 27 para a economia.

Volatilidade dos fertilizantes amplia risco para próxima safra

Enquanto a Embrapa tenta proteger a ciência, o campo tenta proteger a próxima safra.

O mercado global de fertilizantes entrou em um novo ciclo de instabilidade após a escalada do conflito no Oriente Médio e as dificuldades logísticas no Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde circulam cerca de 40% das exportações globais de fertilizantes nitrogenados.

O Brasil, maior importador mundial de fertilizantes, já sente os efeitos.

Segundo a consultoria StoneX, desde o início do conflito os preços da ureia subiram 63% no mercado brasileiro. O sulfato de amônio avançou cerca de 30% e o nitrato de amônio acumula alta próxima de 60%. Apesar de alguma desaceleração nas últimas semanas, os preços seguem muito acima do período anterior à guerra.

Para o analista Tomás Pernías, da StoneX, o mercado entrou em um ambiente de extrema cautela. “Estamos diante de uma deterioração das relações de troca, o que pressiona as margens do produtor e torna as decisões de compra mais complexas neste momento”, afirmou.

A preocupação não está apenas no custo, mas no abastecimento.

Projeções internacionais indicam que, caso o bloqueio em Ormuz se prolongue até o fim do ano, as importações brasileiras de ureia podem cair mais de 27%. Ao mesmo tempo, a Rússia mantém restrições sobre exportações de enxofre, enquanto grandes compradores globais, como Índia e China, ampliam sua disputa por matéria-prima.

O Rabobank projeta que a pressão sobre fosfatados e nitrogenados pode persistir até 2027.

Governo injeta R$ 3 bilhões para conter alta dos combustíveis

Com petróleo pressionado pela guerra e o risco de inflação avançando sobre o custo de produção, o governo federal anunciou um pacote para tentar conter os preços dos combustíveis.

A medida prevê subvenção de R$ 0,89 por litro na gasolina e suspensão de R$ 0,35 de PIS/Cofins no diesel. O impacto estimado gira em torno de R$ 3 bilhões por mês.

O biodiesel também entrou no pacote, com manutenção da desoneração tributária até o fim de maio.

Segundo o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, a estratégia busca compensar parte da arrecadação extra obtida pelo governo com a alta internacional do petróleo. Para o agro, no entanto, o impacto é direto: diesel caro significa frete caro, fertilizante caro, máquina cara e margem menor.

Subvenção da gasolina pressiona competitividade do etanol

O pacote do governo também produziu efeito colateral sobre os biocombustíveis.

Com a redução artificial do preço da gasolina, o etanol perde competitividade nas bombas justamente em um momento de aumento da oferta da safra 2026/27.

Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) mostram que o etanol hidratado já acumula queda de 22,4% nos últimos trinta dias em São Paulo.

Leite tenta trocar improviso por gestão financeira

No setor leiteiro, o movimento da semana foi de profissionalização.

O Cepea e a StoneX anunciaram três novos indicadores de preços para leite UHT, muçarela e leite em pó industrial, criando referências mais transparentes para contratos, hedge e proteção de margem.

A iniciativa surge em um momento de forte volatilidade no mercado lácteo e busca dar previsibilidade a produtores e indústrias em um setor historicamente marcado por oscilações bruscas.

Na prática, o leite brasileiro começa a incorporar ferramentas financeiras que há muito tempo fazem parte de outras cadeias do agro.

Santa Catarina amplia apoio ao arroz com sementes certificadas

Em Santa Catarina, o governo estadual lançou o Projeto Sementes Certificadas de Arroz, dentro do Programa Terra Boa, com investimento estimado em R$ 10,1 milhões para a safra 2026/27.

A proposta prevê apoio para aquisição de até 77 mil sacas de sementes certificadas, beneficiando mais de 2 mil produtores.

Segundo o secretário de Estado da Agricultura e Pecuária, Admir Dalla Cort, o programa fortalece uma cadeia estratégica para Santa Catarina e busca ampliar produtividade e segurança no campo.

O estado colheu safra recorde de 1,3 milhão de toneladas de arroz em 2024/25 e consolidou-se como o segundo maior produtor nacional do grão.

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