Artigo de Marina Simioli, Presidente da Cinemateca Catarinense

Poucas instituições culturais em Santa Catarina conseguiram atravessar quatro décadas mantendo atuação contínua, relevância política e presença efetiva no campo cultural. A Associação Cultural Cinemateca Catarinense ABD/SC chega aos 40 anos como uma dessas raras experiências de permanência — construída coletivamente por realizadoras/es, pesquisadoras/es, professoras/es, cineclubistas e agentes culturais que ajudaram a estruturar o audiovisual catarinense desde os anos 1980.
Fundada em 19 de maio de 1986 em Florianópolis, a Cinemateca Catarinense surgiu em um momento de reorganização da produção cinematográfica no Estado. A Cinemateca participou diretamente da construção das bases do setor, atuando em formação, produção, difusão cultural e articulação política.

Ao longo de sua trajetória, esteve envolvida em iniciativas fundamentais para o desenvolvimento do audiovisual catarinense, entre elas a promoção de um curso de Cinema no departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que deu origem ao Curso de Graduação em Cinema em 2003, a articulação do Funcine — Fundo Municipal de Cinema de Florianópolis, o apoio à criação de instituições como o Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina (MIS/SC), colaboração na fundação do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Audiovisual (Sintracine) e no Sindicato da Indústria Audiovisual de Santa Catarina (Santacine), e a criação junto com a Fundação Catarinense de Cultura do Edital Prêmio Catarinense de Cinema em 2001, principal recurso de fomento à realização audiovisual catarinense, que até 2012 chamava-se “Prêmio Cinemateca Catarinense”.
A história da Cinemateca acompanha a própria história recente do cinema catarinense. Projetos como a CATAVÍDEO – Mostra de Vídeos Catarinenses, o Cine Pitangueira, a revista Lado C e ações de formação audiovisual ajudaram a descentralizar o acesso ao cinema e a reflexão em torno da produção catarinense.
Entre as ações recentes, está o Qualifica SC Cine (2022), realizado através de convênio com a Fundação Catarinense de Cultura, sendo o maior programa de qualificação profissional do audiovisual já realizado em Santa Catarina, com atividades online e híbridas. A iniciativa levou oficinas gratuitas para todas as regiões do Estado, ampliando o acesso à formação técnica e fortalecendo redes locais de produção.
Também ganharam destaque as masterclasses online promovidas ao longo de 2024, reunindo profissionais do audiovisual catarinense e nacional em encontros sobre crítica, direção, memória, acessibilidade e políticas públicas para o setor.

A Cinemateca iniciou uma nova etapa de atuação em 2025 com a Casa de Acervo em Joaçaba. A associação mantém um espaço dedicado à guarda de materiais históricos ligados ao cinema catarinense, reunindo documentos, equipamentos, fotografias, filmes e outros registros da produção audiovisual do estado. Foi também parceria na criação do Memorial Rogério Sganzerla, espaço de homenagem a um dos nomes mais importantes do cinema brasileiro.
Ao completar 40 anos, a Cinemateca Catarinense reafirma o audiovisual não apenas como produção artística, mas como instrumento de preservação de memória, formação cultural, pensamento crítico e construção coletiva.
Ao longo de 2026, a entidade vem desenvolvendo ações especiais de celebração e aproximação com o público, entre elas uma campanha nas redes sociais sobre a trajetória da Cinemateca, além de parcerias com festivais, mostras e cineclubes para promover reflexões sobre memória, preservação e salvaguarda audiovisual durante o ano de 2026.
Em um contexto de fragilidade das políticas de preservação no Brasil, o fortalecimento da Cinemateca Catarinense evidencia a importância das associações culturais para a memória audiovisual brasileira.
Mobilização por apoio e preservação
Mais do que uma celebração, os 40 anos da Cinemateca Catarinense tornam-se também um chamado público à preservação da memória audiovisual catarinense.
A campanha busca mobilizar apoiadores para a continuidade das ações da entidade, incluindo a preservação e organização de acervos, realização de atividades formativas e desenvolvimento de projetos culturais ligado s ao audiovisual catarinense. A Cinemateca também busca ampliar sua rede de apoio institucional e estrutural, aproximando pessoas, empresas e organizações comprometidas com a memória e a cultura.
Além disso, a instituição segue aberta ao recebimento e identificação de materiais ligados à história do cinema e do audiovisual em Santa Catarina, como fotografias, cartazes, documentos, roteiros, filmes, fitas, equipamentos e outros itens de relevância histórica e cultural, contribuindo para a salvaguarda desse patrimônio coletivo.
Mais do que objetos, documentos ou equipamentos, cada gesto de apoio fortalece a memória audiovisual catarinense e ajuda a manter viva a história do cinema no estado.
Quem faz cinema, faz história.





