21/04/2026

A política é uma salada de ideologias e siglas

E o Merísio, que declarou voto em Bolsonaro em 2018 e agora está com Lula?

E o Jorginho Mello, que já pediu voto para Dilma, indicava cargos no DNIT em governos petistas e hoje é um dos principais nomes do bolsonarismo?

E o João Rodrigues que há poucos dias deu uma entrevista numa emissora de rádio dizendo que não queria o MDB na sua coligação e agora briga com unhas e dentes para ter os emedebistas?

Mas e o próprio Bolsonaro, que já esteve no campo de apoio ao Lula? 

E Valdemar Costa Neto? Esse é um caso a parte. Já esteve preso por corrupção no mensalão. E pior: esteve preso junto com José Dirceu, na mesma cela.

Hoje ele representa tudo o que há de mais limpinho, puro, patriota, divino e etc e tal.

Aliás, qualquer um político que for liderado por Valdemar da Costa Neto não pode arvorar-se em criticar quem quer que seja. 

E João Rodrigues, que começou no PDT de Brizola?

Esse tipo de questionamento domina as conversas políticas hoje.

Não se discute projeto, não se debate proposta, não se analisa impacto na vida das pessoas.

O foco é o passado — usado como ferramenta de desqualificação.

Por quê?

Porque uma parcela do debate foi capturada pela lógica das redes sociais, que estimula o confronto permanente e simplifica a política em rótulos morais: “certo” ou “errado”, “coerente” ou “traidor”.

Falta repertório histórico. Falta conhecer como o jogo realmente é jogado dentro das quatro linhas. Não aquelas imaginárias do Bolsonaro. 

Se houvesse, saberiam que Luiz Henrique foi eleito em 2002 com apoio do PT e, depois, governou e foi reeleito com apoio do PFL.

Que Esperidião Amin, em 2006, declarou apoio a Lula e disse que aquela aliança “era para valer”.

Saberiam também que, em 2014, Jorginho Mello, João Rodrigues, AngelaAlbino, Gelson Merísio e o MDB estavam na mesma coligação, apoiando Raimundo Colombo e Dilma Rousseff.

E que o PP de Amin só ficou de fora porque Luiz Henrique vetou JoaresPonticelli ao Senado.

Ou ainda que Angela Albino — hoje vice de Merísio — já gravou vídeo dizendo: “agora somos todos Amin”.

E isso sem entrar nas composições municipais, onde o pragmatismo costuma dissolver completamente as fronteiras ideológicas.

A política real sempre foi assim: negociação, adaptação, rearranjo.

Por isso, vale o alerta: a política é, e sempre foi, uma grande salada de ideologias e siglas.

Talvez seja hora de superar essa fase infantilizada do debate — esse enredo de “quem apoiou quem”, “quem traiu quem”.

Isso cabe melhor na poesia do Drummond: “João amava Teresa que amava Raimundo (não o Colombo)…”

Na política, o que deveria importar é outra coisa:
quais são as propostas, quais são os projetos e o que, de fato, pode mudar a vida das pessoas em Santa Catarina.

Porque o passado pode ser recontado.
Mas os problemas do presente continuam exigindo solução.

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