Aqui no Portal Upiara temos um colunista que é um craque quando o assunto é esporte: Alisson Francisco. Recentemente, porém, a Deborah Almada — outra craque da nossa equipe — usou a estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo como inspiração para falar sobre gestão de crises no ambiente corporativo.

A introdução dela, comentando o jogo antes de entrar no tema principal da coluna, ficou tão boa que eu brinquei no grupo de WhatsApp dos colunistas que ela poderia substituir o Alisson caso ele se contundisse. Deborah respondeu que, durante uma Copa do Mundo, é praticamente impossível fugir do assunto. E ela tem razão.
Como a Deborah é uma das referências aqui do Portal, senti-me desafiado a escrever uma coluna que unisse duas paixões minhas: educação e Copa do Mundo.
Na semana passada participei de uma banca de doutorado na Esag/Udesc sobre aprendizagem interdisciplinar baseada em jogos para a educação financeira no ensino fundamental. Antes que alguém imagine partidas de futebol em sala de aula, vale esclarecer que estamos falando de uma metodologia de ensino que utiliza jogos digitais e não digitais como ferramentas educacionais.
A pesquisa também abordava a gamificação, estratégia que incorpora elementos como pontos, emblemas, desafios e recompensas para aumentar o engajamento e a motivação dos estudantes.
Mas o aspecto que mais me chamou a atenção foi a interdisciplinaridade. Em termos simples, trata-se de aproximar diferentes disciplinas e conectá-las à realidade dos alunos. Em vez de cada matéria funcionar isoladamente, busca-se integrar conhecimentos para ajudar os estudantes a compreender problemas complexos do mundo real.
O que uma Copa do Mundo tem a ver com tudo isso?
Primeiro, é importante reconhecer que o modelo tradicional de ensino, no qual o professor era visto como o único detentor do conhecimento e os alunos apenas recebiam informações, já não responde adequadamente às demandas da sociedade atual. Hoje, praticamente todo o conhecimento produzido pela humanidade está disponível na palma da mão por meio de pesquisas na internet e, mais recentemente, por ferramentas de inteligência artificial.
Nesse contexto, ganham força as chamadas metodologias ativas, nas quais o estudante assume um papel mais protagonista, pesquisando, investigando, analisando informações e construindo seu próprio aprendizado. E poucas estratégias são tão eficazes quanto partir de temas que despertam o interesse genuíno dos alunos.
E convenhamos: durante a Copa do Mundo, poucos assuntos despertam mais interesse do que o futebol.
Inúmeras possibilidades pedagógicas.
Em Geografia e História, os estudantes podem pesquisar onde estão localizados os países participantes, conhecer seus símbolos nacionais, compreender seus processos históricos de formação e analisar diferentes sistemas políticos. É uma excelente oportunidade para entender melhor como o mundo se organiza.
Também é possível explorar aspectos culturais: músicas, danças, culinária, costumes e vestimentas típicas. Basta observar a riqueza cultural exibida pelas torcidas nos estádios para perceber quantas oportunidades de aprendizagem surgem naturalmente.
Na área econômica, os professores podem discutir as riquezas produzidas por cada país, suas moedas e sua inserção no comércio internacional. Até mesmo a tradicional troca de figurinhas dos álbuns da Copa pode servir para ensinar conceitos de negociação, valor, escassez e troca de bens.
A Matemática encontra um campo fértil nas tabelas da competição. Pontuação, médias, porcentagens, probabilidades e estatísticas podem transformar-se em situações reais de aprendizagem, muito mais interessantes do que exercícios descontextualizados.
Já em Ciências e Educação Física, a Copa permite abordar temas como fisiologia humana, preparação física, nutrição, saúde e regras esportivas, além de reforçar a importância da atividade física para o bem-estar físico e mental.
E há ainda um conjunto de aprendizagens que talvez seja o mais importante de todos: as chamadas competências socioemocionais. Disciplina, perseverança, resiliência, trabalho em equipe, respeito às diferenças, empatia e capacidade de lidar com vitórias e derrotas fazem parte tanto do esporte quanto da vida.
Como o leitor pode perceber, as possibilidades são praticamente ilimitadas. Seja por meio de estratégias mais tradicionais, seja por metodologias como gamificação e aprendizagem baseada em jogos, utilizar a Copa do Mundo como tema integrador pode tornar a aprendizagem mais significativa, envolvente e conectada à realidade dos estudantes.
Em tempo
Cabe lembrar que a educação não acontece apenas na escola. Pais e mães também podem aproveitar a Copa do Mundo para brincar, conversar e aprender junto com seus filhos e filhas. O futebol pode ser uma porta de entrada para ensinar valores como respeito, disciplina, cooperação, perseverança e empatia. Afinal, quando diversão e aprendizagem caminham juntas, o aprendizado se torna mais significativo e duradouro.
Professor que inspira
Quando eu era aluno do ensino fundamental na Escola Barão, em Blumenau, a Copa do Mundo de 1978 foi utilizada pelo meu querido professor de Educação Física, Artur Novaes — uma das grandes referências do voleibol da cidade e de Santa Catarina — como instrumento de aprendizagem.
As pesquisas que realizei sobre futebol e sobre os países participantes daquela Copa permanecem vivas na minha memória até hoje. De certa forma, ajudaram a moldar minha compreensão sobre o mundo e sobre a forma como os povos se relacionam.
O professor Artur já nos deixou, mas a maneira como ensinava continua inspirando minha trajetória acadêmica e minha atuação como educador. Talvez essa seja a maior prova de que bons professores conseguem transformar um simples evento esportivo em uma aprendizagem que dura a vida inteira.





