O Governo de Santa Catarina lançou na semana passada o programa Avança SC, uma estratégia de longo prazo voltada à modernização econômica, à inovação e à melhoria da qualidade de vida da população. Entre suas iniciativas destacam-se o SC + Inovação, voltado ao fortalecimento do ecossistema de inovação e empreendedorismo, e o programa Educação Empreendedora, destinado à formação de estudantes da rede estadual para os desafios do século XXI.

A proposta parte de uma premissa fundamental: educação e desenvolvimento econômico são inseparáveis. Não existe crescimento sustentável sem pessoas qualificadas, assim como uma educação de qualidade perde parte de seu potencial quando os talentos formados não encontram oportunidades para aplicar seus conhecimentos e construir projetos de vida.
Teoria do Capital Humano
Essa visão está alinhada à teoria do capital humano, segundo a qual investimentos em educação ampliam a produtividade, a renda e a capacidade de inovação das sociedades. O próprio artigo 205 da Constituição Federal estabelece que a educação deve promover o pleno desenvolvimento da pessoa, prepará-la para o exercício da cidadania e qualificá-la para o trabalho. Em outras palavras, a educação deve estar conectada aos projetos de desenvolvimento social e econômico do país e das regiões.
Durante meu período de estudos em Stanford, um dos temas recorrentes foi justamente a necessidade de integrar políticas educacionais e estratégias de desenvolvimento. A experiência internacional mostra que uma boa educação, desacompanhada de políticas de geração de emprego e renda, pode resultar em subaproveitamento do capital humano. Jovens altamente qualificados acabam migrando para outras regiões ou países em busca das oportunidades que não encontram em seus locais de origem. Por outro lado, estratégias de desenvolvimento econômico sem investimentos adequados em formação profissional tendem a enfrentar dificuldades para se sustentar no longo prazo.
Iniciativas anteriores e tendências internacionais
O Avança SC não surge do zero. Santa Catarina possui uma trajetória importante de iniciativas que ajudam a sustentar essa estratégia. Os Centros de Inovação implantados durante o governo Raimundo Colombo, os editais de Empreendedorismo Universitário da Fapesc lançados no governo Carlos Moisés e a recente Política Estadual de Educação Profissional e Tecnológica implementada pelo governo Jorginho Mello representam exemplos de políticas que aproximam educação, inovação e desenvolvimento regional.
A proposta também dialoga com tendências internacionais. Organismos como a OCDE vêm destacando a importância do desenvolvimento de competências empreendedoras, criativas e socioemocionais. No Brasil, a reforma do ensino médio incorporou conceitos como protagonismo juvenil, projeto de vida e formação empreendedora, reconhecendo que os jovens precisam estar preparados para um mercado de trabalho em rápida transformação.
Desafios para a educação
Apesar dos méritos da iniciativa, alguns desafios precisam ser considerados. O alcance inicial do programa ainda é relativamente limitado, com previsão de atendimento a cerca de 30 mil estudantes, aproximadamente 15% das matrículas do ensino médio da rede estadual. O desafio será transformar ações complementares em uma estratégia capaz de impactar toda a rede de ensino.
Campanhas de empreendedorismo, certificação de competências, produção de conteúdos e apresentação de projetos são ações importantes, mas a verdadeira transformação ocorrerá quando a cultura da inovação, da criatividade e do empreendedorismo estiver incorporada de forma transversal ao currículo de todos os estudantes. Também será fundamental articular essas iniciativas com a expansão da educação profissional e tecnológica prevista para os próximos anos, uma vez que a experiência internacional demonstra que os melhores resultados surgem quando a formação empreendedora é acompanhada por sólida preparação técnica e científica.
Santa Catarina possui ainda uma vantagem importante: o conhecimento acumulado pelas universidades do estado. Diversas metodologias e experiências desenvolvidas por meio do Programa de Empreendedorismo Universitário da Fapesc já estão disponíveis e podem ser adaptadas para a realidade das escolas de ensino médio, acelerando a disseminação da cultura empreendedora entre os jovens catarinenses.
Referência histórica
A própria história do estado oferece exemplos dessa integração entre educação e desenvolvimento. O polo de tecnologia da informação de Blumenau teve origem na iniciativa empresarial que criou a Cetil, mas consolidou-se graças à formação de talentos promovida pela FURB, responsável pela implantação do primeiro curso de processamento de dados de Santa Catarina. Esse caso demonstra que desenvolvimento econômico e desenvolvimento educacional não são caminhos paralelos, mas componentes de uma mesma estratégia de crescimento.
O Avança SC aponta na direção correta. Seu sucesso dependerá da capacidade de conectar escolas, universidades, empresas, centros de inovação e governo em torno de um projeto comum. Afinal, o desenvolvimento sustentável não nasce apenas da expansão econômica ou da melhoria da educação isoladamente, mas da articulação entre essas duas agendas.
Em memória de Fábio Zabot Holthausen
Dedico esta reflexão à memória de Fábio Zabot Holthausen, professor universitário e presidente da Fapesc entre 2019 e 2022. Fábio foi um dos grandes articuladores do ecossistema catarinense de Ciência, Tecnologia e Inovação, aproximando universidades, empresas, startups e poder público em torno de uma visão compartilhada de desenvolvimento. Entre suas contribuições, destaca-se o lançamento do Programa Empreendedorismo Universitário, iniciativa que ajudou a fortalecer a conexão entre conhecimento, inovação e desenvolvimento regional. Tive a honra de compartilhar com ele os trabalhos do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina. Sua partida precoce representou uma grande perda para o estado, mas seu legado continua presente nas políticas e ações que buscam construir um futuro mais inovador e próspero para Santa Catarina.





