Eu já perdi as contas de quantas vezes tive que justificar o meu talento ou comprovar minhas habilidades por causa da cor da minha pele. Eu sei, a colunista que vos fala não está aqui para interagir sobre si. Mas, a minha realidade é a mesma da grande maioria periférica de cor. Somos cerca de 55,5% a 56,4% dos habitantes no país, somando mais de 112 milhões de pessoas que acordam tendo a dura missão de comprovar o potencial: todos os dias e em qualquer profissão.
As comunidades também. Além de apagadas, são invalidadas como consumidores ou classe empreendedora. Aliás, no meio empresarial, uma comunidade é um grupo de pessoas unidas por interesses, objetivos ou identidades compartilhadas em torno de uma marca ou organização. Exatamente como acontece nos quilombos, nos morros e nos bairros carentes. Então, qual seria o motivo da exclusão?
A falta de visibilidade exclui o número que, embora em Santa Catarina seja um dos menores percentuais, equivale a mais de 1,7 milhão de pessoas. Quando não é a exclusão é o “embranquecimento”. Como o que houve no Egito que teve seu contexto sonegado, retratado de forma eurocêntrica na cultura ocidental. Ainda bem que hoje, pensadores renomados já comprovaram que os fundadores da civilização egípcia (originalmente chamada de Kemet, ou “terra preta”) compartilhavam origens e traços com povos da África subsaariana. Acreditem, os espaços em que se constituem as comunidades são extremamente valiosos e eu posso provar.
Olodum Sul: império faraônico

Essa introdução toda serve para iniciar um espaço de retratação em meio a renomados colunistas. Mostrar o real sentido de instituições que retiram as crianças do anonimato e do ócio para dar OPORTUNIDADE. Startups existentes em comunidades que fazem a diferença em toda uma cadeia familiar. Pessoas ou ações que transformaram estatísticas em cases de sucesso. Até porque, a única coisa que diferencia ou distancia o futuro da população branca e a população preta periférica é a falta de oportunidade.
E é onde, não à toa, o faraó na fachada do Olodum Sul, dá as boas vindas a 50 alunos quase todos os dias, no contraturno escolar. Nos 4 anos de existência, já passaram pelo Olodum mais de mil crianças e adolescentes. Um império agente de transformação com 16 projetos que acolhem jovens e idosos do entorno da região do Jardim Atlântico. Mantido exclusivamente com recursos privados, o espaço é administrado a várias mãos voluntárias mas foi idealizado por Marcos Canetta, fundador também do já consagrado Instituto Liberdade, que tem 38 anos de história.
“A Escola Olodum Sul é a ressignificação da minha vida de militante e de profissional da educação.É o lugar da transformação social e emancipação humana de crianças, jovens, adultos e idosos. Literalmente é o lugar onde me encontro e me nutro espiritualmente.”
Ele e uma pirâmide de sucesso fazem deste império um recrutamento ativo de agentes com futuro e propósito. Ana Maria, parceira de vida de Canetta é coordenadora jurídica e administrativa. Mas também, segundo meus olhos, a mulher que dedica todas as tardes para dar atenção a crianças em situação de vulnerabilidade como uma matriarca do afeto. Na mesma organização hierárquica está Karu Torres, empresário, coordenador de teatro e boxe da instituição. O “tio Karu” como é chamado pelas crianças, também sabe a história de cada integrante, as necessidades e as evoluções como um condutor de performance e desempenho, capaz de guiar e mentorar todos que passam por ali. O reflexo se sente nos sorrisos e nos abraços.
Além deles, outro grupo de voluntários se dedica como pode. Uma mãe contribui com a cozinha. Outra realiza oficina de tranças. E nessa corrente de troca de experiências ocorrem as boas práticas. Ganha todo mundo. São oficinas de costura (Eco Moda), centros de artes marciais, escritório de advocacia, brechó permanente, biblioteca, brinquedoteca, cursos técnicos, dança, estúdio de gravação, instituto de tecnologia, clínica especializada em transtornos para acompanhamentos aos alunos e auditório que as vezes são cedidos para instituições que adotaram o Olodum Sul como morada. Uma potência referência no país e sem registro de nada parecido.
As potencialidades
Foi no Olodum Sul que eu resgatei a minha história com o contraturno escolar. Sob as bênçãos dos Orixás pintados nas paredes e das negras que são minhas referências na luta antirracista é que encontrei a Helena**, que está na instituição desde o início do programa. Chegou muda e hoje sua voz ecoa durante as tardes participando das oficinas oferecidas. Seria a Helena uma futura jornalista como eu? Não sei, mas sei que com ajuda desse time, ela pode chegar onde quiser.
Essa é a realidade de uma comunidade pulsante. Os números financeiros ficam ridículos perto das vidas transformadas.É por isso que é tão impressionante ver o desinteresse público. Entre Lei Rouanet, Programa de Incentivo à Cultura (PIC) e iniciativa privada, o Olodum Sul já projetou cerca de 30 mil pessoas nestes quatro anos de existência.
Tudo isso graças a eventos inéditos como a apresentação da Escola do Teatro Bolshoi e o grupo Olodum na Beira-Mar Norte em 2022 e o Tributo a Michael Jackson em 2025. Ou a festa junina da instituição, a Cia da Dança do projeto que realiza inúmeros eventos, a já consagrada BlackFest que celebra a cultura afro-brasileira com moda e propósito. Fora as visitas internacionais que já somam mais de 70 participações, entre eles cônsules dos Estados Unidos e da Africa do Sul. Foi no Olodum que se recebeu pela primeira vez, o rei da maior etnia da Angola, Tchongolola Tchongonga Ekuikui VI, líder do Bailundo. Um espaço físico que grita ancestralidade, mas ecoa libertação. Liberdade de expressão, mas especialmente de território.
A motivação? Um futuro mais digno de um povo que ainda precisa pedir licença para se aprimorar. De acordo com Canetta, ter a possibilidade concreta e real de fazer do pan-africanismo um instrumento de inclusão, educação e emancipação das pessoas é uma riqueza.
“Não há valor que pague a minha satisfação ancestral, espiritual e física, como homem negro, periférico em movimento.”
E eu assino embaixo!







