
Existe um conselho que aparece em qualquer manual de gestão de crises. Consultores repetem em palestras e muitos assumem como verdade inquestionável.
O conselho é: posicione-se rapidamente.
A lógica parece impecável. Quem cala parece culpado. Quem demora parece estar escondendo algo. O silêncio, nessa visão, é sempre suspeito. Mas há uma confusão embutida nessa premissa e ela custa caro para quem não percebe a tempo: velocidade não é o mesmo que preparo.
Na prática, porém, o açodamento já destruiu mais reputações do que salvou.
O caso Flávio Bolsonaro – Dark Horse oferece, neste momento, um roteiro quase didático do que acontece quando alguém é surpreendido sem estar pronto para responder.
O problema não começou quando o The Intercept publicou os áudios e documentos revelando a negociação com o banqueiro Daniel Vorcaro, estimada em US$ 24 milhões, com ao menos US$ 10 milhões já transferidos. Começou muito antes, quando essa relação foi construída fora do conhecimento da equipe e, ao que tudo indica, do próprio partido.
Quando a história veio a público, o roteiro seguido foi previsível e revelou o despreparo para a situação. A negativa inicial foi seguida de uma tentativa de minimização do problema. Para desfecho, a mudança de versão.
Flávio negou o elo financeiro. Os documentos apareceram. Admitiu a captação de recursos privados. A própria produtora do filme desmentiu ter recebido qualquer valor de Vorcaro. Aliados foram mobilizados para defender e, em vez disso, ampliaram o debate que Flávio queria encerrar. Cada reação desinformada criou um novo ciclo. Cada versão que não se sustentou exigiu outra versão. A crise original virou uma crise sobre a crise.
A questão nunca foi falar rápido ou falar devagar. A questão é: o que você tem a dizer quando abre a boca? Uma resposta precipitada sem diagnóstico é uma segunda crise embutida na primeira. O tempo que parece perdido numa análise cuidadosa – quem sabe o quê?, o que já vazou?, o que ainda pode vazar?, qual versão é sustentável?, quem mais está envolvido? – é justamente o que separa uma crise de três dias de uma crise de três meses.
Há uma cena que se repete no meu trabalho. A maioria das pessoas e organizações que chega até um consultor de crise já falou. Já respondeu. Já postou. E o primeiro trabalho, quase sempre, não é gerenciar a crise original, mas sim consertar o estrago que a pressa causou.
Posicionar-se rapidamente é um bom conselho para quem já está preparado antes de a crise começar. Para os demais, é uma receita para piorar a situação.





