O planeta acaba de enviar mais um sinal contundente de que as mudanças climáticas estão acelerando. Segundo o mais recente relatório do Copernicus, programa de monitoramento climático da União Europeia, maio de 2026 foi o segundo maio mais quente já registrado desde o início das medições globais. A temperatura média da superfície terrestre e dos oceanos atingiu 15,81°C, ficando atrás apenas de maio de 2024, o ano mais quente já observado pela ciência.

O que torna esse dado particularmente relevante é que o novo recorde ocorreu antes mesmo da consolidação de um novo episódio de El Niño. O fenômeno climático foi confirmado na quinta-feira (11/06) pela Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês). O El Niño é conhecido por elevar as temperaturas globais e influenciar eventos extremos em diferentes regiões do planeta.
A mensagem implícita nos números é clara: o aquecimento global provocado pelas atividades humanas já está produzindo temperaturas próximas dos recordes históricos sem depender totalmente dos ciclos naturais do planeta. E isso ajuda a explicar por que cientistas enxergam os dados de maio como um dos alertas mais importantes dos últimos anos.
O planeta se aproxima perigosamente do limite de 1,5°C
Além do recorde mensal, o relatório traz um indicador que merece atenção especial. A temperatura média global de maio ficou 1,42°C acima dos níveis pré-industriais, utilizados como referência pelo Acordo de Paris para monitorar o avanço do aquecimento global.

O dado não significa que o limite de 1,5°C já foi oficialmente ultrapassado, pois essa meta considera médias de longo prazo e não meses isolados. Ainda assim, o resultado mostra o quão próximo o planeta está de um patamar considerado crítico pela comunidade científica.
A diferença entre 1,4°C e 1,5°C pode parecer pequena para quem observa apenas os números. Na prática, porém, cada décimo de grau adicional aumenta o risco de ondas de calor mais intensas, secas prolongadas, enchentes, impactos à produção de alimentos e perdas econômicas significativas.
O oceano está enviando sinais que não podem ser ignorados
Grande parte dessa energia extra está sendo armazenada nos oceanos. A temperatura média da superfície dos mares alcançou 20,9°C em maio, o segundo maior valor já registrado para o período. Apenas maio de 2024 apresentou temperatura ligeiramente superior.
Os oceanos absorvem mais de 90% do excesso de calor gerado pelo efeito estufa. Quando permanecem aquecidos por períodos prolongados, tornam-se combustível para extremos climáticos mais intensos.

O relatório chama atenção para outro detalhe importante: temperaturas excepcionalmente elevadas foram observadas no Pacífico tropical, especialmente na região conhecida como Niño 3.4, área utilizada para monitorar o El Niño.
A Europa viveu uma amostra do clima do futuro
Os impactos desse cenário ficaram evidentes na Europa. O continente registrou sua terceira primavera mais quente desde o início das medições. Mas o aspecto mais impressionante não foi apenas o calor. Foi a velocidade da mudança.
Até meados de maio, muitas regiões apresentavam temperaturas abaixo da média. Em poucos dias, uma intensa massa de ar quente transformou completamente o padrão atmosférico e provocou uma das ondas de calor mais severas já observadas tão cedo no ano na Europa Ocidental.

França, Reino Unido, Irlanda e Portugal registraram recordes históricos para o mês. Em diversas localidades, a temperatura percebida pela população atingiu entre 35°C e 40°C, alcançando níveis classificados pelos especialistas como forte e muito forte estresse térmico. O problema não foi apenas a intensidade do calor.
Segundo os pesquisadores do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, a rápida transição reduziu o tempo de adaptação das pessoas, da agricultura e dos ecossistemas, aumentando os impactos sociais e econômicos. Essa aceleração dos extremos é considerada uma das características mais marcantes das mudanças climáticas atuais.
O novo normal climático é marcado por extremos opostos
O mesmo relatório que registrou recordes de calor também identificou eventos extremos de chuva em diferentes partes do mundo. Enquanto regiões da Itália e da Espanha enfrentaram condições mais secas que a média, áreas da Turquia, do Mar Negro e do leste europeu registraram precipitações intensas e episódios de inundação.
Esse contraste ajuda a derrubar uma percepção equivocada frequentemente associada ao aquecimento global.
Mudanças climáticas não significam apenas temperaturas mais altas. Uma atmosfera mais quente consegue armazenar mais vapor d’água. Como consequência, algumas regiões enfrentam secas mais persistentes, enquanto outras registram chuvas mais intensas e concentradas.
O gelo polar continua recuando
Os sinais do aquecimento também permanecem visíveis nas regiões polares. No Ártico, a extensão do gelo marinho ficou cerca de 4% abaixo da média para maio, registrando a quarta menor cobertura já observada para o mês. Na Antártica, a cobertura de gelo permaneceu aproximadamente 9% abaixo da média histórica, alcançando a sétima menor extensão para o período.

Embora pareçam indicadores distantes da realidade brasileira, essas alterações influenciam a circulação atmosférica global, afetam o balanço energético do planeta e contribuem para mudanças que podem repercutir em diferentes continentes.
O que esse cenário significa para o Brasil e para o Sul do país
Embora o relatório tenha alcance global, algumas informações ajudam a conectar essa realidade ao Brasil. O próprio Copernicus identificou áreas do território brasileiro com condições mais úmidas que a média durante maio de 2026, evidenciando que as mudanças climáticas também afetam os padrões de precipitação na América do Sul.
Para o Sul do Brasil, o cenário merece atenção especial. Historicamente, episódios de El Niño costumam aumentar a frequência e o volume das chuvas sobre Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Em determinados anos, isso pode favorecer enchentes, deslizamentos, alagamentos e prejuízos significativos à agricultura e à infraestrutura.

A diferença agora é que esse possível novo episódio ocorrerá sobre um planeta mais quente do que aquele observado nas décadas anteriores. Uma atmosfera mais aquecida consegue armazenar maior quantidade de vapor d’água, ingrediente fundamental para a formação de precipitações intensas.
Os eventos recentes ajudam a ilustrar esse contexto. A enchente histórica que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024 e as secas severas registradas na Amazônia nos últimos anos ocorreram em um cenário de aquecimento global acelerado. Embora nenhum fenômeno extremo possa ser atribuído exclusivamente às mudanças climáticas, a ciência demonstra que elas aumentam a probabilidade e a intensidade desses eventos.
Para estados como Santa Catarina, cuja economia depende fortemente da agricultura, do turismo, da indústria e da logística, compreender essa nova dinâmica climática deixou de ser apenas uma questão ambiental. Passou a ser uma questão econômica, social e de planejamento.
O alerta que os dados deixam para os próximos anos
Os números divulgados pelo Copernicus mostram que os recordes de temperatura deixaram de ser acontecimentos raros. O que antes era exceção está se tornando recorrente.
O segundo maio mais quente da história ocorreu antes da consolidação oficial do El Niño. Isso sugere que a principal força impulsionando o aquecimento atual não é um fenômeno natural temporário, mas a contínua elevação das concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera.
O El Niño chegou em oceanos excepcionalmente aquecidos, uma atmosfera carregada de energia e um planeta cada vez mais próximo dos limites estabelecidos pela ciência climática.
Para o Sul do Brasil, esse não é apenas um dado global. É um sinal de que os desafios relacionados às chuvas extremas, secas, ondas de calor e adaptação das cidades tendem a se tornar cada vez mais presentes.
A pergunta que fica não é se sentiremos os efeitos dessas mudanças. A pergunta é quão preparados estaremos para enfrentá-los.






