12/06/2026

Uma pergunta que Santa Catarina precisa responder. Por Marcelo Werner

Marcelo Werner (Republicanos) foi vereador em Itajaí e é pré-candidato a deputado estadual

Ao longo de quase dois séculos de história da Assembleia Legislativa, não há registro amplamente conhecido de uma pessoa com deficiência exercendo mandato parlamentar estadual. O que essa realidade nos diz sobre representatividade, inclusão e democracia?

Santa Catarina é um estado que se orgulha da sua força, da sua capacidade de inovar e da sua vocação para construir oportunidades. Somos referência em muitos setores e temos uma sociedade cada vez mais consciente da importância da inclusão.

Mas existe uma pergunta que merece uma reflexão profunda:

Quem está ocupando os espaços onde as decisões são tomadas?

As pessoas com deficiência representam uma parcela significativa da população brasileira. Estão nas escolas, nas universidades, no mercado de trabalho, no empreendedorismo, no esporte, na cultura e em todos os setores da sociedade. No entanto, sua presença nos espaços de representação política ainda é muito pequena.

Ao longo da minha vida, aprendi que as maiores barreiras nem sempre são físicas. Muitas vezes, elas estão na forma como a sociedade enxerga as capacidades das pessoas. Aprendi também que, quando uma oportunidade é aberta, o talento, a dedicação e a vontade de contribuir falam mais alto do que qualquer limitação.

Existe ainda uma reflexão que considero importante.

Ao longo de quase dois séculos de história da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, não há registro amplamente conhecido de uma pessoa com deficiência que tenha exercido mandato como deputada ou deputado estadual. Se esse entendimento estiver correto, estamos diante de um fato que merece atenção.

Santa Catarina é um estado reconhecido pela sua capacidade de inovar, empreender e superar desafios. Mas como explicar que uma parcela significativa da população ainda não tenha conseguido ocupar um espaço tão importante de representação política?

Essa reflexão não busca apontar culpados. Pelo contrário. Ela nos convida a pensar sobre quais barreiras ainda existem e o que podemos fazer para que a política seja cada vez mais representativa da diversidade da nossa sociedade.

A representatividade não é um privilégio. É um princípio da democracia.

Não se trata de defender que apenas pessoas com deficiência possam falar sobre inclusão. Trata-se de reconhecer que a experiência vivida agrega conhecimento, sensibilidade e uma compreensão única sobre desafios e soluções que impactam milhões de brasileiros.

Esse entendimento está presente na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro com status constitucional. A Convenção reconhece a importância da participação plena e efetiva das pessoas com deficiência em todos os espaços da sociedade, inclusive nos processos de tomada de decisão.

O movimento internacional das pessoas com deficiência consagrou o lema “Nada sobre nós sem nós”, uma mensagem que se tornou símbolo da luta por participação, cidadania e representatividade. Mais do que uma frase, esse princípio inspirou avanços importantes ao redor do mundo e reforça a necessidade de que as pessoas com deficiência sejam protagonistas nas decisões que impactam suas próprias vidas.

Mais do que um slogan, trata-se de um princípio democrático. As políticas públicas tornam-se mais completas, mais eficientes e mais humanas quando contam com a participação direta daqueles que vivenciam os desafios que elas procuram enfrentar.

Ao longo dos anos, Santa Catarina conquistou avanços importantes na defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Muitas barreiras foram derrubadas. Muitas portas foram abertas. Mas ainda existem desafios que precisam ser enfrentados.

Entre eles, ampliar a participação das pessoas com deficiência nos espaços de liderança e decisão.

Quando uma pessoa com deficiência ocupa um cargo público, ela não representa apenas uma pauta. Ela representa a capacidade humana de superar barreiras, de transformar dificuldades em oportunidades e de mostrar que competência, dedicação e compromisso não dependem de limitações físicas, sensoriais ou intelectuais.

A verdadeira inclusão acontece quando deixamos de enxergar a pessoa com deficiência apenas como alguém que precisa de apoio e passamos a reconhecê-la como alguém que também pode liderar, decidir, propor, construir e transformar.

O futuro que queremos para Santa Catarina precisa ser um futuro onde todas as pessoas tenham a oportunidade de participar plenamente da vida pública.

Um futuro em que crianças e jovens com deficiência possam olhar para os espaços de poder e acreditar que também pertencem a eles.

Um futuro em que a diversidade da sociedade catarinense esteja presente não apenas nas ruas, mas também nos lugares onde as decisões são tomadas.

Tenho convicção de que a inclusão avança quando deixa de ser apenas um discurso e passa a ocupar os espaços de decisão. Não para beneficiar um grupo específico, mas para construir uma sociedade mais justa, mais humana e mais representativa para todos.

Porque uma democracia se torna mais forte quando ninguém fica de fora.

E uma sociedade evolui de verdade quando abre espaço para que todos possam contribuir com seus talentos, suas experiências e seus sonhos.

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