22/06/2026

Inverno inicia congelante em SC, mas El Niño pode mudar o rumo da estação

O inverno de 2026 começou oficialmente às 5h24 deste domingo (21), mas os catarinenses já tiveram uma prévia do que a estação é capaz de entregar. Os últimos dias do outono foram congelantes, Bom Jardim da Serra registrou -7,3°C, a menor temperatura do ano no estado até agora. Em Urubici, os termômetros chegaram a -3,8°C e em Urupema a -2,8°C.

Inverno começa com frio intenso em Santa Catarina, mas El Niño pode mudar o rumo da estação
Primeira semana do inverno 2026 promete temperaturas negativas em Santa Catarina. Foto: Mathias Reding/Pexels

Agora, uma nova e intensa massa de ar polar avança sobre o Sul do Brasil, marcando o início da estação com características clássicas de inverno. O sistema já provocou neve, chuva congelada e formação de gelo em rodovias da província de Córdoba, no centro da Argentina, antes de avançar em direção ao território brasileiro.

A pergunta que surge é inevitável: este será um inverno rigoroso em Santa Catarina? A resposta exige olhar além dos próximos dias.

Os modelos meteorológicos indicam uma semana tipicamente invernal pela frente, mas as projeções climáticas apontam que o restante da estação poderá ter comportamento diferente, influenciado pela consolidação do fenômeno El Niño no Oceano Pacífico.

O inverno astronômico e o inverno meteorológico não são a mesma coisa

Embora o calendário marque o início do inverno em 21 de junho, a meteorologia trabalha com dois conceitos diferentes. O inverno astronômico é definido pelo solstício de inverno, quando o Hemisfério Sul recebe a menor incidência de radiação solar do ano. Em 2026, isso ocorreu às 5h24 de 21 de junho.

 O inverno astronômico é definido pelo solstício de inverno, quando o Hemisfério Sul recebe a menor incidência de radiação solar do ano

Já o inverno meteorológico corresponde ao trimestre formado pelos meses de junho, julho e agosto. Essa divisão facilita análises estatísticas, comparação de dados históricos e estudos climáticos. Na prática, quando os meteorologistas analisam tendências de temperatura e chuva para a estação, utilizam principalmente o conceito meteorológico.

A mesma massa polar que levou neve à Argentina chega ao Sul do Brasil

O começo do inverno está sendo marcado por um evento de escala continental. Durante o fim de semana, a massa de ar polar avançou pela Argentina e provocou neve significativa em áreas serranas da província de Córdoba. Em alguns trechos da rodovia E-34, conhecida como Caminho das Altas Cumbres, a circulação de veículos precisou ser interrompida devido ao acúmulo de gelo na pista.

A primeira neve do ano cobriu de branco a localidade do Vale de Calamuchita durante a madrugada desta segunda-feira (22). Foto: El Diário de Carlos Paz

A neve também foi registrada em localidades turísticas como La Cumbrecita, enquanto a onda de frio provocava temperaturas negativas em diversas regiões da Patagônia e do centro argentino.

Esse detalhe é importante porque ajuda a dimensionar a intensidade do sistema que agora alcança o Sul do Brasil. Não se trata de uma massa de ar frio comum. É uma incursão polar de grande abrangência, capaz de provocar forte queda de temperatura em praticamente todo o Cone Sul.

O que acontece em Santa Catarina nesta semana?

A segunda-feira (22) começou sob influência de uma frente fria que provoca chuva e temporais isolados em diversas regiões catarinenses. Na retaguarda desse sistema avança o núcleo mais frio da massa polar.

Segundo boletins da Defesa Civil de Santa Catarina e da Epagri/Ciram, a queda mais acentuada das temperaturas ocorre entre terça-feira (23) e quinta-feira (25). As mínimas previstas para o amanhecer de terça-feira (23) já ficam entre -3°C e 4°C no Grande Oeste, Meio-Oeste e Planaltos. Na quarta-feira (24), considerada pelos meteorologistas o pico do frio, as temperaturas podem atingir até -6°C nas áreas mais elevadas da Serra catarinense.

A geada deverá ocorrer de forma ampla entre o Extremo Oeste, Oeste, Meio-Oeste e Serra
 Paisagem com formação de geada na Serra Catarinense. Foto Ricardo Wolffenbüttel / Secom

A geada deverá ocorrer de forma ampla entre o Extremo Oeste, Oeste, Meio-Oeste e Serra. Em algumas áreas, o frio intenso também aumenta o risco de congelamento de pistas durante as primeiras horas da manhã. Mesmo durante as tardes, o frio permanecerá presente. Em boa parte do interior catarinense, as máximas não devem ultrapassar os 10°C a 15°C.

Afinal, existe chance de neve?

Essa é a pergunta mais frequente sempre que uma massa polar intensa alcança Santa Catarina. A resposta técnica é sim, existe uma janela atmosférica favorável para precipitação invernal. Mas isso não significa que há uma previsão consolidada de neve para o estado. A própria Defesa Civil catarinense utiliza uma definição mais ampla ao falar em precipitação invernal. O termo engloba neve, chuva congelada e chuva congelante.

Defesa Civil de Santa Catarina observa chance de precipitação invernal entre esta segunda-feira (22) e terça-feira (23).
Defesa Civil de Santa Catarina observa chance de precipitação invernal entre esta segunda-feira (22) e terça-feira (23). Foto: Raquel Elise de Moraes/Pexels

A maior possibilidade está concentrada entre a noite de segunda-feira (22) e a manhã de terça-feira (23), período em que a umidade associada à frente fria ainda estará presente enquanto o ar polar avança sobre as áreas mais elevadas da Serra.

O fator limitante é justamente a disponibilidade de umidade. Os modelos indicam que o frio mais intenso chega quando a atmosfera já começa a secar rapidamente. Por isso, o cenário mais provável é de ocorrências bastante localizadas, caso o fenômeno se confirme.

A neve depende de um encontro preciso entre frio e umidade. Quando um dos dois ingredientes chega atrasado ou enfraquecido, o fenômeno acaba não acontecendo.

Por isso, até o fechamento desta coluna, não havia previsão oficial de um evento amplo de neve em Santa Catarina, mas sim monitoramento para precipitação invernal pontual nas áreas mais altas da Serra.

Como termina junho?

A última semana do mês será dominada pelo frio. Entre quinta-feira (25) e sexta-feira (26), o ar polar continua atuando sobre o estado, mantendo madrugadas geladas, geada ampla e tardes com temperaturas abaixo dos 20°C em praticamente todas as regiões.

O padrão começa a mudar a partir do último fim de semana de junho. A previsão da Epagri/Ciram aponta a passagem de uma nova frente fria entre os dias 27 e 28 de junho, trazendo aumento de nebulosidade e chuva para parte do estado.

Outra frente fria deve atuar entre os dias 1º e 2 de julho. Isso significa que o inverno começa bastante dinâmico, alternando períodos de frio intenso com a passagem de sistemas produtores de chuva.

A última semana do mês será dominada pelo frio. Entre quinta-feira (25) e sexta-feira (26), o ar polar continua atuando sobre o estado, mantendo madrugadas geladas, geada ampla e tardes com temperaturas abaixo dos 20°C em praticamente todas as regiões.

O papel do El Niño no restante da estação

Se a primeira semana do inverno será marcada pelo frio, a tendência para julho e agosto é diferente. O desenvolvimento do El Niño no Pacífico Equatorial começa a influenciar a circulação atmosférica sobre a América do Sul.

Historicamente, anos de El Niño favorecem maior frequência de frentes frias, mais umidade e aumento da chuva na Região Sul. O efeito mais perceptível para a população costuma ser a redução da duração das massas polares. O frio continua ocorrendo, mas tende a durar menos.

Em vez de longos períodos consecutivos com temperaturas muito baixas, o cenário esperado é de entradas de ar polar intercaladas por dias mais amenos e maior ocorrência de chuva.

Segundo a análise sazonal da Epagri/Ciram e da Defesa Civil catarinense, julho e agosto devem apresentar precipitação próxima ou acima da média em Santa Catarina. Isso não significa necessariamente eventos extremos frequentes, mas indica uma atmosfera mais úmida do que normalmente se espera para a estação mais seca do ano.

O inverno começará gelado e terminará chuvoso

A primeira impressão deixada pelo inverno de 2026 será de uma estação rigorosa. Temperaturas negativas, geada ampla, frio persistente e possibilidade de precipitação invernal compõem um cenário típico das paisagens que transformaram a Serra catarinense em referência nacional durante os meses mais frios do ano.

Mas os sinais climáticos apontam que essa poderá ser apenas a fotografia inicial da estação.

Se o comportamento previsto do El Niño se confirmar, o inverno deverá ser lembrado menos pela persistência do frio extremo e mais pela alternância entre massas polares, períodos chuvosos e rápidas oscilações de temperatura.

Em outras palavras, o inverno começa com cara de inverno clássico. A dúvida que os próximos meses responderão é por quanto tempo essa característica conseguirá resistir à influência crescente do Pacífico.

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