Quando se fala em cidades ameaçadas pelo calor extremo, a imagem que vem à mente costuma ser a de capitais do Norte e Nordeste do Brasil. Mas um novo estudo internacional sugere que o Sul do país também precisa entrar nessa discussão. Uma pesquisa liderada pela Universidade de Oxford, publicada na revista científica Sustainable Cities and Society, identificou Curitiba e Porto Alegre entre as cidades brasileiras mais vulneráveis aos impactos das ondas de calor.

O levantamento avaliou 205 municípios com mais de um milhão de habitantes em todo o mundo e analisou não apenas as temperaturas registradas, mas também fatores sociais, urbanos e estruturais que ampliam os riscos para a população. A conclusão desafia uma ideia bastante comum: as cidades mais vulneráveis ao calor extremo nem sempre são as mais quentes.
Cidades mais vulneráveis ao calor extremo estão concentradas no Sul Global
O estudo revela que os maiores níveis de risco estão concentrados principalmente em cidades da África, Oriente Médio, Sul da Ásia e América Latina, regiões que combinam altas temperaturas, rápido crescimento urbano e limitações estruturais para enfrentar eventos extremos.
A cidade considerada mais vulnerável do mundo foi Basra, no Iraque. Na América Latina e Caribe, o destaque ficou para Barranquilla, na Colômbia, que aparece entre as posições mais elevadas do ranking global.
O Brasil teve 11 cidades incluídas no levantamento. Manaus foi a mais vulnerável entre elas, ocupando a 27ª posição global. Na sequência aparecem Goiânia, Belo Horizonte, Fortaleza, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, Salvador, Curitiba e Porto Alegre.
Mas o ranking traz uma mensagem que vai além da classificação das cidades. Os pesquisadores destacam que o risco associado ao calor extremo não é determinado apenas pelos termômetros. Fatores como pobreza, acesso à energia elétrica, cobertura vegetal, presença de idosos e crianças, infraestrutura urbana e capacidade de adaptação têm papel decisivo na forma como cada cidade enfrenta uma onda de calor.
O que torna uma cidade vulnerável ao calor extremo
Para medir esse risco, os pesquisadores utilizaram uma metodologia baseada em três pilares: exposição ao calor, vulnerabilidade social e capacidade de adaptação. Isso significa que a temperatura é apenas parte da equação.
O estudo utilizou o Índice Climático Universal Térmico (UTCI), considerado uma das ferramentas mais avançadas para avaliar o estresse térmico sobre o corpo humano. Diferentemente da temperatura tradicional, o indicador incorpora variáveis como umidade, radiação solar e vento, oferecendo uma visão mais próxima das condições realmente sentidas pelas pessoas.

A partir dessa análise, foram incorporados fatores como renda, acesso à eletricidade, possibilidade de utilização de ventiladores ou ar-condicionado, cobertura vegetal, perfil etário da população e características da infraestrutura urbana. Na prática, cidades submetidas a temperaturas semelhantes podem registrar impactos completamente diferentes dependendo de sua capacidade de proteger os moradores durante eventos extremos.
O alerta para o Sul do Brasil
A presença de Curitiba e Porto Alegre no levantamento chama atenção porque ambas pertencem a uma região historicamente associada a temperaturas mais amenas.
Curitiba aparece na 119ª posição do ranking global e Porto Alegre na 120ª. Embora estejam longe das áreas consideradas mais críticas do planeta, o estudo mostra que nenhuma grande cidade está completamente imune aos impactos do aquecimento global.
Nos últimos anos, o Sul do Brasil registrou uma sequência de ondas de calor históricas. Em diferentes episódios, municípios do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná superaram os 40°C, marcas que até poucas décadas atrás eram consideradas excepcionais para a região.
Ao mesmo tempo, as projeções indicam que as ondas de calor devem se tornar mais frequentes, mais longas e mais intensas na América Latina ao longo das próximas décadas. Um estudo publicado em 2024 na revista Scientific Reports, baseado em simulações climáticas de alta resolução, identificou aumento desses eventos em diferentes cenários de aquecimento global para a região.
O problema não está apenas nos termômetros
Uma das principais conclusões da pesquisa é que o risco climático urbano está diretamente relacionado à forma como as cidades são construídas. A expansão das áreas impermeabilizadas, a redução da cobertura vegetal e a concentração de concreto e asfalto favorecem a formação das chamadas ilhas de calor urbanas. Nessas áreas, as temperaturas podem ser vários graus superiores às registradas em regiões vegetadas do entorno.

O estudo também destaca a importância dos fatores sociais. Crianças, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade econômica apresentam maior risco durante eventos extremos de calor. Esse ponto é especialmente relevante para o Sul do Brasil, região que apresenta um dos mais acelerados processos de envelhecimento populacional do país.
O que as cidades precisam fazer
Os pesquisadores defendem que a adaptação ao calor extremo deve se tornar uma prioridade nas políticas urbanas das próximas décadas. Entre as medidas apontadas estão a ampliação da arborização urbana, criação de corredores verdes, fortalecimento dos sistemas de alerta, melhoria da infraestrutura energética e incentivo a construções capazes de reduzir naturalmente o aquecimento interno dos ambientes.
O estudo também ressalta que soluções desenvolvidas para países ricos nem sempre podem ser replicadas automaticamente em cidades do Sul Global, onde desafios relacionados à desigualdade social e à infraestrutura urbana exigem estratégias específicas.
Um desafio que já começou
Embora Curitiba e Porto Alegre estejam distantes das primeiras posições do ranking global, a presença das duas capitais no levantamento serve como um alerta para toda a região Sul.
O principal recado da pesquisa não é que essas cidades estejam entre as mais quentes do mundo. Pelo contrário. A descoberta mais relevante é que o risco associado ao calor extremo depende de muito mais do que a temperatura registrada nas estações meteorológicas.
À medida que o planeta continua aquecendo, a capacidade das cidades de proteger suas populações mais vulneráveis poderá ser tão importante quanto a intensidade das próximas ondas de calor. E essa é uma discussão que já deixou de pertencer apenas ao futuro.






