10/06/2026

Quem convida para um vinho quer algo mais

Sabe aquele tipo de convite?

“Vamos nos ver? Podemos beber um vinho juntos.”

Um convite desses definitivamente carrega uma expectativa maior que o simples encontro.

E não me refiro necessariamente àquilo que você está pensando. Embora o Dia dos Namorados nos empurre imediatamente para interpretações românticas, esse “algo a mais” pode assumir muitas formas.

Não sei se o vinho é afrodisíaco, como dizem. Acho que essa ideia tem menos a ver com o conteúdo da garrafa e mais com a mágica que acontece ao redor dela.

Depois da primeira taça, as pessoas costumam desacelerar. Depois da segunda, frequentemente abandonam respostas prontas. Contam histórias mais longas, fazem perguntas melhores, compartilham dúvidas, planos, opiniões e desejos sinceros.

Sem querer, você se permite estar mais vulnerável e abre espaço para que a intimidade aconteça. E intimidade, apesar de assustar muita gente, é apenas outro nome para aquilo que buscamos em quase todos os relacionamentos: trocas verdadeiras. Seja com uma amiga que você não vê há meses, com o irmão com quem você precisa colocar a conversa em dia, com o parceiro com quem você divide anos de convivência, ou com alguém que você gostaria de conhecer melhor.

Às vezes a gente convida para um café ou para um almoço rápido, daqueles espremidos entre um compromisso e outro. São encontros que já nascem com hora para terminar.

O vinho funciona de outra forma.

Não faz muito sentido abrir uma garrafa, servir uma taça, olhar o relógio e sair correndo dez minutos depois. Existe um pequeno pacto implícito naquele gesto. Quem convida para beber um vinho está dizendo, ainda que sem perceber: “eu tenho tempo para você”. E, talvez mais importante, “espero que você tenha tempo para mim também”.

O simples ato de abrir uma garrafa cria um intervalo na correria cotidiana. Um espaço para ouvir uma história inteira sem interromper no meio. Para contar uma própria. Para descobrir que alguém é diferente do que parecia nos primeiros cinco minutos de conversa.

No Dia dos Namorados, muita gente vai brindar ao amor. Alguns com entusiasmo genuíno, outros apenas porque a ocasião pede flores, jantar e taças sobre a mesa. Mas o vinho tem muito a oferecer também para quem está fortalecendo uma amizade, reconstruindo um vínculo familiar ou conhecendo alguém sem saber exatamente onde a história vai dar.

Nesse mundo que nos pede tanta correria, barulho, falta de tempo e olho no celular, precisamos lembrar que para que aconteça a mágica da conexão, seja para o romance ou para a amizade, é necessário oferecer tempo e presença.

Assim como os vinhos, os relacionamentos também exigem permanecer à mesa tempo suficiente para que as camadas apareçam e a conversa saia da superfície. Para que as pessoas deixem de ser apenas uma impressão rápida e se tornem reais e complexas. 

É por isso que algumas das melhores histórias da minha vida começaram com a frase simples: “Vamos abrir um vinho?”. 

Neste Dia dos Namorados, desejo que você encontre alguém — um amor, um amigo, um familiar ou até uma boa surpresa — disposto a compartilhar não só uma garrafa, mas algum tempo e o desejo de trocas genuínas. 

Tim, Tim.

Beatriz Cavenaghi é jornalista, doutora em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SC). @beacavenaghi no Instagram

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.