
A semana começa com uma conta bilionária sobre a mesa
Depois de meses de negociações, embates técnicos e pressão política, o Senado deve votar nesta quarta-feira (10) o Projeto de Lei 5.122/2023, que cria um programa especial de renegociação das dívidas rurais. A proposta, considerada prioritária pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), chega ao plenário cercada por uma disputa que envolve produtores, bancos, cooperativas e governo federal.
Enquanto o setor produtivo defende uma solução ampla para um endividamento estimado em cerca de R$ 130 bilhões, instituições financeiras tentam limitar o alcance da medida e alertam para impactos sobre o sistema de crédito rural. No meio da disputa, Brasília busca um texto que evite desgaste político e fiscal. O resultado da votação pode influenciar diretamente o Plano Safra 2026/27 e o acesso ao crédito nos próximos anos.
Renegociação entra na reta decisiva e divide produtores, bancos e governo
O presidente do Senado, senador Davi Alcolumbre, prometeu esforço concentrado para votar o projeto nesta semana. A expectativa é que a matéria seja analisada na sessão de amanhã, dia 10.
A proposta aprovada na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) prevê condições especiais para renegociação de dívidas rurais, com prazos longos e juros reduzidos. O texto se tornou uma das principais bandeiras da bancada ruralista diante da sequência de perdas climáticas registradas nos últimos anos.
Nos bastidores, porém, a negociação continua aberta. O sistema financeiro apresentou sugestões para restringir o alcance da proposta e tenta convencer senadores a promover alterações durante a votação em plenário.
Bancos querem “calibrar” projeto e reduzir impacto fiscal
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e a Confederação Nacional das Instituições Financeiras (Fin) divulgaram nota técnica alertando que o texto aprovado na CAE alcança um número considerado excessivo de produtores, cooperativas e associações rurais.
As entidades defendem mudanças importantes, entre elas:
- limite de R$ 10 milhões por CPF;
- abrangência apenas para dívidas contraídas a partir de 2024;
- suspensão de cobranças por 60 dias, e não seis meses;
- redução do universo de operações elegíveis.
Na avaliação dos bancos, os juros propostos, de até 7,5% ao ano, e os prazos de pagamento de até 13 anos tornariam a renegociação excessivamente atrativa, criando distorções no mercado de crédito rural.
Já produtores argumentam que a crise atual não foi causada por má gestão, mas pela combinação de eventos climáticos extremos, aumento dos custos de produção e queda da renda agrícola.
Frango brasileiro bate recorde e Santa Catarina amplia protagonismo
Enquanto Brasília discute dívidas, o comércio exterior trouxe uma notícia positiva para o setor.
As exportações brasileiras de carne de frango ultrapassaram pela primeira vez a marca de US$ 1 bilhão em um único mês. Em maio, os embarques somaram 509,9 mil toneladas e geraram receita recorde de US$ 1,009 bilhão, segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Santa Catarina voltou a ocupar posição de destaque. O estado exportou 113,9 mil toneladas no período, crescimento de 39,7% em relação ao mesmo mês do ano passado. Ficou atrás apenas do Paraná e reforçou sua condição de potência nacional na produção de proteínas animais.
O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, atribui o resultado à expansão em mercados de maior valor agregado e à manutenção da competitividade brasileira mesmo diante das incertezas logísticas internacionais.
Tarifaço ameaça mel catarinense premiado
Se a carne comemora, o setor de mel acompanha com preocupação a nova rodada de tarifas propostas pelos Estados Unidos.
Caso as medidas sejam confirmadas, o mel brasileiro poderá enfrentar uma carga tarifária superior a 40%, somando a nova tarifa proposta pelo governo americano e as taxas antidumping já existentes.
O impacto é especialmente sensível para Santa Catarina, cuja produção já conquistou reconhecimento internacional e depende fortemente do mercado norte-americano.
Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), Renato Azevedo, o produto brasileiro ocupa uma posição estratégica nos Estados Unidos e não possui substituto com escala semelhante no mercado internacional.
Santa Catarina quer medir com precisão o tamanho do próprio agro
Outra novidade importante da semana vem da Epagri/Cepa.
Pela primeira vez, Santa Catarina iniciou um projeto estruturado para calcular oficialmente o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio catarinense. A iniciativa conta com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc) e pretende criar uma metodologia permanente para mensurar o peso econômico do setor.
O presidente da Epagri, Dirceu Leite, destaca que o estado ainda não possui um indicador próprio e atualizado capaz de medir toda a contribuição do agro para a economia catarinense. O estudo incluirá não apenas a produção dentro da porteira, mas também insumos, agroindústria, transporte, comércio e serviços ligados às cadeias produtivas.
A expectativa é que o levantamento fortaleça o planejamento agrícola e ajude a direcionar políticas públicas com base em dados mais precisos.
Entre a dívida e o crédito
O Senado chega a uma semana decisiva para um dos temas mais sensíveis do agronegócio brasileiro. De um lado, produtores argumentam que a renegociação é condição necessária para manter milhares de propriedades em atividade. Do outro, bancos alertam para riscos fiscais e impactos sobre o mercado de crédito.
A votação desta quarta-feira vai muito além de uma simples renegociação. O que está em jogo é o modelo de financiamento do agro para os próximos anos. E, enquanto Brasília tenta encontrar um ponto de equilíbrio, os números das exportações mostram que o setor continua entregando resultados.
A pergunta que permanece é se o sistema financeiro e o governo conseguirão construir uma solução compatível com a realidade enfrentada hoje dentro da porteira.





