18/05/2026

O silêncio das urnas: o preocupante afastamento da juventude catarinense da democracia. Por Maycon Oliveira

Artigo de Maycon Cassimiro Oliveira, professor de história e ex-vereador de Florianópolis

Por muitos anos, a juventude brasileira foi vista como protagonista dos processos políticos. Do movimento pelas Diretas Já às grandes mobilizações estudantis, votar era quase um rito de passagem para o jovem cidadão. No entanto, um novo cenário começa a se desenhar: para uma parcela significativa da chamada Geração Z, o voto deixou de ser prioridade e, em alguns casos, sequer desperta interesse.

A Geração Z, formada por jovens nascidos entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2010, cresceu em um mundo profundamente conectado, marcado pela tecnologia, pelas redes sociais e por mudanças rápidas no comportamento social. Essa característica moldou uma nova forma de se relacionar com a política: menos institucional, mais digital e, muitas vezes, distante das formas tradicionais de participação.

O chamado “apagão” da Geração Z já não é uma tendência abstrata: ele tem números, rostos e endereço. E Santa Catarina é um retrato claro dessa realidade. No estado, o dado é alarmante: menos de 15% dos jovens entre 15 e 17 anos tiraram o título de eleitor para as Eleições de 2026. Isso significa que, de aproximadamente 289 mil adolescentes aptos, a grande maioria simplesmente optou por não participar ou sequer considerou essa possibilidade.

Em Florianópolis, o cenário não é muito diferente. Em ações realizadas em escolas, a própria Justiça Eleitoral constatou que poucos jovens levantam a mão quando perguntados se já possuem título.  Não é falta de acesso. É falta de conexão.

Estamos diante de uma geração que cresceu hiperconectada, informada, ativa nas redes  mas distante das urnas. Uma juventude que debate política no celular, se posiciona em comentários, compartilha causas… mas que não transforma esse engajamento em participação institucional. E isso precisa ser dito com clareza: não votar também é uma escolha política. Mas é uma escolha que enfraquece a própria voz.

O problema não é apenas estatístico, ele é estrutural. Quando jovens deixam de votar, deixam também de influenciar decisões sobre educação, mercado de trabalho, saúde mental, mobilidade urbana e oportunidades. Ou seja, abrem mão de decidir o próprio futuro.

Há, sim, fatores que explicam esse afastamento. O desencanto com a política tradicional, a sensação de que “nada muda”, a descrença nas instituições e a falta de representatividade são reais. Mas aceitar isso como normal é perigoso. Porque uma democracia sem juventude ativa é uma democracia envelhecida e, inevitavelmente, desconectada do futuro.

Por outro lado, há sinais de esperança. Em ações recentes em Florianópolis, mais de 200 jovens demonstraram interesse em tirar o título após iniciativas dentro das escolas.
Isso mostra que o problema não é desinteresse absoluto é ausência de diálogo.

A juventude não se afastou da política. A política, muitas vezes, é que não soube chegar até ela.

O desafio agora é urgente: transformar linguagem, ocupar os espaços digitais com responsabilidade, aproximar a política da realidade dos jovens e, principalmente, mostrar que votar não é um ato burocrático é um ato de poder.

Se essa geração não acredita no voto, precisamos reconstruir essa confiança.
Porque quando o jovem se cala nas urnas, alguém fala por ele.

E, na democracia, quem não participa… aceita.

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