Artigo de Dr. Vicente Caropreso, Médico Neurologista e Deputado Estadual SC

Os dados mais recentes sobre o Transtorno do Espectro Autista no Brasil revelam uma realidade já conhecida, mas que ainda recebe pouca atenção das políticas públicas. O cuidado tem gênero. A pesquisa Mapa Autismo Brasil mostra que 92% das pessoas responsáveis pelo cuidado de pessoas com autismo são mulheres, são as mães atípicas.
Por trás desse número existe uma realidade dura e silenciosa. São mulheres que colocam a carreira de lado, reorganizam completamente suas vidas e assumem, quase sozinhas, uma rotina permanente de cuidado. Não por escolha, mas por necessidade.
Quando falamos de autismo nível 3 de suporte, o grau mais severo, esse cenário se torna ainda mais exigente. São pessoas que, muitas vezes, não desenvolvem comunicação verbal, apresentam crises sensoriais intensas, dificuldades profundas de interação e dependem de acompanhamento contínuo para atividades básicas. É um cuidado integral, 24 horas por dia.
Não há como ignorar. Nessas condições, trabalhar fora se torna inviável para muitas dessas mães. E sem renda, a vulnerabilidade cresce.
Foi olhando para essa realidade que construímos, em Santa Catarina, uma resposta concreta. A lei que garante uma pensão de um salário mínimo para pessoas com autismo nível 3 em situação de vulnerabilidade. Hoje, cerca de 500 famílias já são beneficiadas.
A pesquisa também escancara outro problema. O acesso às terapias ainda depende, majoritariamente, de planos de saúde ou pagamento particular, enquanto a rede pública atende uma parcela menor da população.
Na prática, isso significa que o desenvolvimento de uma pessoa com autismo ainda está ligado à condição financeira da família. E no autismo, seja nível um, dois ou três de suporte, o tempo faz diferença.
Por isso, seguimos defendendo uma educação de fato inclusiva, o fortalecimento da rede pública, das Apaes e Amas, com diagnóstico precoce e atendimento multidisciplinar em todas as regiões. Santa Catarina é referência, mas precisa avançar.
Também atuamos na informação. Nos últimos quatro anos, realizamos 70 eventos que reuniram mais de 31 mil pessoas, ampliando o conhecimento sobre autismo, inclusão escolar, acesso ao mercado de trabalho, e demais direitos e políticas públicas votadas as pessoas com deficiência e autismo.
O mês de conscientização do autismo não pode ser apenas simbólico. Enquanto o cuidado seguir concentrado nas mães e o acesso depender do bolso, ainda estaremos falhando. A política existe para enfrentar essa realidade e, quando funciona, muda vidas.





