01/04/2026

Unidade na esquerda, com um representante deste campo como nosso candidato. Por Gabriel Angelo

Artigo de Gabriel Angelo, Professor de História e Geografia. Membro da Executiva Estadual do PSOL e Presidente da Federação PSOL/REDE em Criciúma

“A derrota só será uma bebida amarga se concordarmos em tragá-la.”
“Sem a oposição do vento, a pipa não consegue subir.”
– Provérbios populares chineses.

Existe um movimento articulado por Décio Lima – PT– e com apoio em setores da esquerda catarinense, para colocar o nome de Gelson Merisio como candidato a governador deste campo. Esse arco de alianças se movimenta para construir uma candidatura viável para enfrentar o atual governador Jorginho Mello e a extrema direita.Nesse processo, também se comenta que Gelson Merisio está em movimento de aproximação e possível filiação ao PSB, deixando o Solidariedade onde atualmente é filiado, o  que reforça o debate sobre qual projeto político efetivamente estará representado nessa aliança.

Vale ressaltar que qualquer iniciativa de articulação do campo popular é uma tarefa imprescindível. No entanto, não podemos deixar de ter como horizonte uma plataforma de programa comum para essa aliança. A aliança precisa ser alicerçada em objetivos claros, discutidos com todos os setores e representações. Os partidos e suas instâncias, filiados e figuras públicas, precisam participar deste debate.A sociedade, através dos movimentos sociais, os  movimentos populares, sindicatos e organizações sociais devem participar dessa  discussão e construir nosso programa. Precisamos construir a confiança e o acordo necessário para a construção da unidade.

Gelson Merisio é um político oriundo da oligarquia e, até aqui, alinhado a setores do “centrão”. Em 2018, defendeu voto em Jair Bolsonaro, embora tenha apoiado Lula e Décio em 2022. Quando esteve na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, apoiou os interesses da burguesia catarinense, atacando professores e servidores estaduais. O campo democrático está cheio de quadros que podem cumprir o papel de porta-voz dessa frente e ajudar a levar Lula à reeleição. Na última eleição vimos que é possível chegar ao segundo turno. Mas chegamos com alguém que tem trajetória e identificação com os movimentos sociais — alguém que tinha legitimidade para defender um programa comum. Não era um forasteiro. Era alguém com identidade política com o campo popular. Merisio, ao contrário, aparece como um forasteiro, cuja candidatura vem sendo construída como uma alternativa de cima para baixo. Corremos o risco de não chegar ao segundo turno, não por falta de alianças, mas por falta de identidade política.

Não se trata de ser oito ou oitenta, nem de definir que este ou aquele é melhor porque é do meu partido. O nome precisa ser construído conjuntamente; eleição não é corrida de cavalo, é feita com bases sólidas e diálogos com as ruas. Precisamos dos melhores quadros — seja do PSOL, do PT ou do PCdoB — como protagonistas. A proposição da candidatura de Merísio é um equívoco, se o que se pretende é um nome que unifique e represente os setores populares. Inclusive, é discutível se esse é o candidato com melhores condições eleitorais. Até agora, as pesquisas indicam o contrário: a rejeição é alta, e essa pré-campanha está longe de demonstrar capacidade de ganhar força no estado. E sabemos que política também não se faz com o coração, muito menos com o fígado; política se faz com consciência.

O PSOL, por sua vez, também possui quadros e alternativas no campo democrático. No partido aparece como possibilidade a pré-candidatura de Afrânio Boppré, vereador em seu terceiro mandato por Florianópolis e ex-deputado estadual , ao governo do estado. Além disso , também se coloca no debate a pré-candidatura de Tânia Ramos, mulher negra e ligada aos movimentos populares , ao Senado.

Todo aquele que esteja disposto a fortalecer o campo democrático será bem-vindo — até mesmo os arrependidos. Mas é pouco democrático impor um nome de cima para baixo sem que as bases fundamentais do programa estejam colocadas na mesa. Esse tipo de tática controversa enfraquece a confiança das bases na política institucional e, sobretudo, a confiança da militância que se dedica todos os dias a disputar a consciência das massas.

Nesse sentido, é fundamental reafirmar a unidade entre os partidos para enfrentar Jorginho Mello e a extrema direita em Santa Catarina, com coerência e responsabilidade.É urgente organizar caravanas de construção programática entre todas as organizações e movimentos. Além disso, deve-se estabelecer um processo de prévias entre as pré-candidaturas. Esse é o caminho para construir uma unidade verdadeira: uma unidade programática construída e apoiada em pela base.

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