Há uma linha bastante tênue, biologicamente fácil de ser explicada, entre o prazer e a dor. Os neurotransmissores que captam a dor são os mesmos que interpretam sensações de prazer e, portanto, não seria errado dizer que ambos entram pela mesma porta.

Quando eu comecei a correr, tudo o que eu sentia era dor. Depois de um tempo, continuei sentindo dor, mas não parei de correr e, honestamente, o porquê ainda me questiono às vezes.
Incorporar a corrida na minha rotina foi fácil. O trabalho de meio período à época me possibilitava tempo para atividades recreativas e de lazer. As temperaturas amenas, acompanhadas de Sol forte pela manhã, são um convite para estar ao ar livre para mim e, até os dias de hoje, sentir o calorzinho das primeiras horas do dia ainda é uma das coisas que mais me agradam na prática desse esporte.
O fim da paixão
Como em qualquer relacionamento, “no início, tudo são flores”. Com o passar do tempo, começam as crises, as agonias, as dores (físicas e mentais) e a sensação mais cruel que a corrida pode prover: ingratidão.
A pessoa dorme cedo, acorda antes do galo cantar, bebe água, come verduras e fibras, gasta incontáveis dinheiros com roupas, tênis, Ultra Coffee, Jungle, assessoria, fisioterapia, nutrição e, mesmo com tudo certo, tem dia que o treino não encaixa, a passada não rende, a canela dói, a unha fica roxa e o sentimento é de que não nasceu para o esporte.
Sabe o que é mais engraçado? No dia seguinte, a gente vai lá e faz tudo de novo. E a culpa é dela, do tapete em que prazer e dor limpam os pés antes de entrar pela mesma porta: a endorfina.
Sabedoria de Dráuzio Varela
O doutor Dráuzio, maratonista que já fez as provas mais importantes do mundo, disse uma vez que sair para treinar “é todo dia o mesmo sofrimento” e que ele não gosta de correr, o que ele gosta é da sensação de ter corrido. Quando eu ouvi essa frase, um mundo novo se abriu em minha mente e foi como se tudo passasse a fazer sentido a partir de então.
Eu, como uma pessoa produtora/resolvedora de problemas/executora de tarefas, entendi na hora o que ele sentia. Eu nunca acreditei que a endorfina fosse, de fato, capaz de provocar sensações reais. Para mim, isso era só uma outra coisa existente no corpo que ninguém sabe exatamente para serve, tipo lisossomos e mitocôndrias.
Mas a endorfina é real e eu ainda digo mais: o efeito é crônico e pode durar dias. Deixar de correr por um tempo considerável pode até causar uma espécie de abstinência, mas isso é uma coisa que a Mari Krüger pode explicar com mais propriedade.
Endorfina para viver
O tempo me mostrou que tem algo de muito especial na sensação de terminar uma corrida, independentemente da distância que tenha. As cores em tom pastel que pintam o mundo parecem ganhar um efeito vibrante e intenso depois que o treino acaba. Há euforia, sim, satisfação, mas há também um redemoinho de sentimentos que surge bem na base do estômago e vai subindo, crescendo, causando um certo estranhamento e tornando difícil distinguir se a prática do exercício foi boa ou ruim.
Após intermináveis trinta segundos, o corpo começa a relaxar, os batimentos cardíacos vão normalizando e uma excitação começa a surgir do mesmo lugar em que nasce o redemoinho, mas que se dispersa pelo resto do corpo com muito mais facilidade. A agonia de não saber o que se sente começa a dar lugar a uma sensação de regozijo que, muitas vezes, uma transa não é capaz de causar. O prazer ultrapassa a linha tênue e supera a dor até nas piores corridas.
Quando tu se perguntar o porquê de tanta gente estar aderindo à corrida de rua, essa é a resposta.






