Para quem acompanhou Gelson Merisio passar da onipresença no cenário político catarinense entre 2010 e 2018 à discrição das lidas empresariais e de bastidor nos últimos sete anos, era inevitável a expectativa sobre como seria seu retorno ao palco eleitoral na manhã desta quinta-feira. Escolhido pelo presidente Lula (PT) para liderar seu palanque em Santa Catarina, Merisio manteve o silêncio ao longo dos últimos meses.
Diante da imprensa e de diversas lideranças da esquerda catarinense – especialmente do PT e do PSOL – o pré-candidato agora filiado ao PSB confessou que era a primeira vez que empunhava um microfone em muito tempo.
E sorriu.

Foram muitos sorrisos ao longo de quase uma hora de fala, incluindo as respostas às perguntas dos jornalistas – e uma breve interrupção para atender o telefonema do filho. Até mesmo ao falar dos adversários de outubro, o governador Jorginho Mello (PL) e o ex-prefeito chapecoense João Rodrigues, Merisio foi amenos nas palavras e destacou momentos de proximidade com a dupla.
– Eu tenho uma relação muito fraterna com o atual governador, isso é real. Assim como convivi com o João Rodrigues, disputando eleições juntos. Ele foi um grande prefeito de Chapecó em todos os mandatos que exerceu, tenho o maior respeito pela sua biografia, pelo seu trabalho, nenhuma consideração que não seja elogiosa.
As críticas à gestão de Jorginho Mello vieram ainda sem maior contundência. Merisio diz que ainda precisa estudar os números do Estado e formatar um plano de governo consistente, não apenas para atender a formalidade da legislação eleitoral. Em um aceno à história do PT e do PSOL em Santa Catarina, anunciou que a ex-senadora Ideli Salvatti (PT) e o urbanista Elson Pereira (PSOL) serão os responsáveis pela construção do plano de governo, junto com a pré-candidata a vice-governadora Angela Albino (PDT).
Exaltou diversas figuras da esquerda catarinense, mas teve atenção especial à ex-deputada Luci Choinaki (PT) – que recrutou para ser primeira suplente de Afrânio Boppré (PSOL) – ao relatar a visita recente que fez à casa da petista em Bocaina do Sul.
– Lá estava Luci, demonstrando aquilo que existe melhor no ser humano. Uma energia boa, uma alegria, muito embora com muitas dificuldades materiais, mas com muita energia que eu quis ter o prazer de trazer pra fazer aquilo que fez aqui. Ela enche a sala de energia boa, de bons fluidos, que é o que nós queremos passar.
Merisio não fugiu do passado. Diz não se arrepender de ter apoiado a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, quando concorreu ao governo e acabou atropelado pela onda eleitoral que replicou em Carlos Moisés a votação do ex-presidente em Santa Catarina. Relembrou a pandemia, quando discordou da condução de Bolsonaro, e da aproximação que o levou à coordenação da campanha de Décio Lima (PT) ao governo em 2022. Naquele ano, deu seu primeiro voto em Lula. Agora será seu candidato.
– Eu mudei. Por que que eles não podem mudar também? – brincou, em referência ao eleitorado majoritariamente bolsonarista no Estado.

Sobre Lula, reforçou o peso do convite do presidente para assumir a candidatura ao governo e a amizade criada entre eles nos últimos anos. Defendeu a gestão, especialmente na comparação dos índices econômicos nas gestões do petista e de Bolsonaro.
– Vou fazer campanha pro Lula de peito aberto sem nenhuma preocupação que num eventual segundo turno isso possa ser um teto, uma barreira.
Ressaltou que são legítimas as resistências que parte da esquerda possa ter a seu nome, mas garantiu que estará pronto para os debates internos em busca de consensos programáticos. Em uma das principais falas, deu a linha da narrativa com que pretende se reapresentar aos catarinenses, oito anos depois de vencer o primeiro turno e perder o segundo. Seu alvo é a “lacração”, seu argumento é o resgate dos valores de acolhimento e trabalho da formação imigrante do Estado.
– Eu não gosto de ver a imagem que está sendo levada do Estado. Nós não somos um Estado do feminicídio, não somos um Estado nazista, nós não somos um Estado lacrador, de armas de combate, de racismo, de maltrato a imigrante. Quando se permite que esta imagem seja levada, é um erro que nós temos que corrigir.
Merisio está de volta. Sorrindo e à esquerda.





