29/05/2026

Eleições unificadas: um erro para o debate público

Volta e meia ressurge no Brasil a proposta de unificar as eleições municipais, estaduais e nacionais. Os defensores da ideia argumentam que isso reduziria custos, diminuiria o número de campanhas e simplificaria o calendário político. 

No papel, parece uma solução prática. Na realidade, seria um desastre para o debate público brasileiro.

O Brasil já vive hoje um processo de nacionalização excessiva da política. Basta observar o cenário atual. O noticiário está tomado por discussões sobre PCC, Comando Vermelho, escândalos financeiros como o caso dofilme do Bolsonaro, Banco Master, CPI do INSS, disputas ideológicas em Brasília e embates entre figuras nacionais. É um debate importante, sem dúvida, mas que ocupa praticamente todo o espaço político e midiático do país.

Mesmo com eleições separadas, os temas estaduais já encontram enorme dificuldade para chegar ao eleitor. Em Santa Catarina, por exemplo, muitas vezes as discussões sobre infraestrutura, desenvolvimento regional, segurança pública estadual, agricultura ou gestão do governo acabam soterradas pela polarização nacional. O eleitor vota para governador discutindo temas de Brasília. Isso já é um problema evidente.

Agora imagine o que aconteceria com as eleições municipais caso tudo fosse realizado ao mesmo tempo. O debate sobre o bairro, a rua esburacada, a falta de médicos nos postos de saúde, a creche que não funciona, o transporte coletivo precário ou a obra parada simplesmente desapareceria. Prefeitos e vereadores seriam engolidos pela disputa presidencial.

Imaginem uma eleição para escolher os prefeitos de Barra Bonita e Santiago do Sul, os dois municípios com menor população de Santa Catarina. Ao invés dos problemas locais —​que devem existir— a campanha toda seria para saber quem é melhor entre Lula ou alguém da família Bolsonaro. Um verdadeiro prejuízo para as cidades.

A consequência seria grave. As cidades perderiam espaço político justamente no momento em que os problemas reais da população precisam ser discutidos com profundidade. Afinal, é no município que a vida acontece. É na prefeitura que o cidadão busca atendimento médico, vaga na escola, iluminação pública e manutenção das ruas.

Guerra nacional única

Unificar eleições significaria transformar todas as disputas em uma única guerra nacional, dominada por temas ideológicos e grandes escândalos. O eleitor teria dificuldade para separar responsabilidades e avaliar quem realmente pode resolver cada problema.

A democracia exige debates distintos para realidades diferentes. A eleição municipal deve discutir cidade. A estadual deve discutir Estado. E a nacional deve discutir os rumos do país. Misturar tudo pode até parecer econômico, mas custaria caro para a qualidade da democracia brasileira.

Por isso, manter as eleições separadas não é apenas uma questão administrativa. É uma necessidade para preservar o debate local, fortalecer os municípios e permitir que o eleitor consiga enxergar, com clareza, os problemas e as soluções de cada esfera de poder.

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