Artigo de Gedeão Locks, economista.

Procura-se com certa urgência, entre os agora cento e oito desembargadores do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, algum que nos dê a honra de ser chamado vizinho. Procura-se nos corredores e nos gabinetes, procura-se nos estacionamentos e nas salas, procura-se com insistência e melancolia, com respeito e desespero, e de todos os modos e “com muitos outros advérbios de modo”. Procura-se um desembargador para entrada imediata em imóvel na região da Praça XV de Novembro, no Centro de Florianópolis.
Deixamos claro que não será cobrada nem reputação ilibada tampouco notório saber jurídico. Ademais, como sabemos que vai longe o tempo que o ordenado dos juízes não aumenta, ficará o nobre Desembargador dispensado do pagamento de aluguel, a ser arcado pelo coletivo de moradores, a fim de não trazer mais transtornos a Vossa Senhoria. Tamanha seria a nossa alegria de contar com um, apenas um, tão somente um desembargador entre asfileiras de moradores do Centro Histórico.
Saiba, prezado Desembargador, que a região foi outrora habitada por gente de sua qualidade. Hoje, no entanto, o bairro é simples. Por aqui, vivem simpáticos professores, contadores, sapateiros, despachantes e livreiros. Tamanha simplicidade, aliás, revela-se até nos nomes das ruas: Tiradentes, dentista; Victor Meirelles, pintor; Nunes Machado, militar; Saldanha Marinho, jornalista. Gente digna, sem dúvida, porém todos de profissões e carreirasdesimportantes. Ninguém com a excelsa desembargadoria. É por isso, suspeitamos, que nossas reclamações ficam sem resposta e nossos pedidos são ignorados.

Vós sabeis que a nobreza dos pobres está em não esconder sua pobreza, e esta nobreza nós temos. Portanto, devemos mencionar alguns dos pequenos problemas que afligem o nosso bairro. Conheceis que este é um entorno festeiro. Como aplicador da lei, também sabeis que ela manda que a partir das vinte e duas horas os sons, ruídos e estrondos devem se fazer menores, para que o povo possa descansar e retomar a labuta na manhã seguinte. Pois eis que,do Edifício Topázio ao Edifício Meridional, são poucos os que conseguem encontrar os braços de Morfeu e dormir uma noite tranquila. A noite de sexta, que deveria ser do merecido descanso, torna-se amiúde um longo e involuntário sarau.
Há também um problema menos conhecido, mas não menos grave, relativo a um aparelho destinado à limpeza pública. Trata-se de um pequeno motor que vai acoplado às costas de seu utilizador, do qual parte um tubo metálico em preto fosco que, amarrado ao antebraço, funciona como extensão do braço. Desse detestável instrumento saem jatos de ar que empurram as folhas de um lado para o outro, enquanto do motor irrompem ruídos altíssimos, qual uma turbina de avião. Há quem diga que o soprador de folhas é o maior inimigo da sanidade do homem comum. Nós, que o ouvimos pontualmente às 6 horas todas as manhãs, concordamos. Nos arredores há também viajantes, flâneurs, e forasteiros que acampam nas ruas. Estes vêm e vão, mas o assoprador é de uma constância irritante. Ele é, talvez, a única certeza que o morador do centro possui.
Finalmente, estamos confiantes de que a presença de um desembargador entre nós ajudará a elevar o moral do bairro. Mais: atrairá inversões e melhorias, dado que agora o bairro abrigará uma reconhecida autoridade. Pois é sabido que onde mora um desembargador, a rua é tranquila; onde dorme um desembargador, o silêncio é respeitado; e por onde passeia um desembargador, até as folhas se recolhem sozinhas, dispensando o maldito soprador. Procura-se, portanto, um desembargador.





