19/04/2026

Vitória de Dória na prévia coloca na estaca zero projeto estadual do Psdb em 2022

Não deve ter sido de propósito, embora também não seja de se duvidar. Depois da frustração – e zombarias dos adversários – causada pela pane no aplicativo que impediu a realização das prévias no sábado anterior, o Psdb anunciou oficialmente o fim das prévias presidenciais com a vitória do governador paulista João Dória sobre o governador gaúcho Eduardo Leite e o ex-senador amazonense Arthur Virgílio quando quase todos os olhos estavam voltados para a final da Libertadores entre Palmeiras e Flamengo. Não deixa de ser um final simbólico para uma iniciativa que gerou tantas atenções durante meses e que terminou sem a apoteose esperada pelos tucanos, como mera obrigação a cumprir.

Desse episódio, importante por ser a primeira prévia presidencial feita para valer em um grande partido brasileiro, fica a confirmação de Dória como o pré-candidato tucano e a observação de que  o resultado foi muito mais apertado do que esperavam seus apoiadores. Como Arthur Virgílio era apenas um observador – atingiu 1,35% dos votos -, a disputa com Leite ficou em 53,99% a 44,66%. Uma diferença de cerca de 9 pontos percentuais que se reduz à metade se for considerado o caráter quase plebiscitário do confronto – um voto conquistado pelo paulista era subtraído do gaúcho e vice-versa.

A prévia tucana dividiu os filiados em quatro grupos, que receberam pesos de 25% no resultado final. Como esperado, Dória venceu com longa margem entre os filiados sem mandato, grupo um, fruto da organização e do engajamento do diretório paulista – mais da metade dos inscritos para votar. Também esperado, foi voto a voto a disputa no grupo dois, o dos prefeitos e vice-prefeitos, com pequena e fundamental vantagem para Dória: 393 a 363. Por sua vez, Leite venceu com pequena vantagem no grupo três, o que reunia vereadores e deputados estaduais/distritais. A decisão se deu, no fim das contas, no grupo quatro, o dos caciques – deputados federais, senadores, governadores, presidente e ex-presidentes do partido. Foi aí que o leite azedou – me perdoe o trocadilho, leitor, fiquei esses meses todos de prévia evitando.

Dória venceu nesse grupo com 27 votos, contra 24 de Leite e um de Virgílio. O peso dos caciques era explicitado pela matemática: cada voto valia quase 0,5% do total em disputa. Um prefeito ou vice valia 0,032%, enquanto um filiado sem mandato equivalia a 0,00098% do resultado da disputa tucana. Por isso, é possível dizer que faltou para Leite virar os votos de 145 prefeitos/vices, 4.735 filiados ou, hipótese mais plausível, 10 caciques. A vitória de Dória no grupo quatro mostrou que talvez o deputado federal mineiro Aécio Neves, desafeto do paulista, não esteja tão forte na bancada federal quanto se propaga, e praticamente inviabilizou a vitória do governador gaúcho.

A forma como Psdb montou o grupo três, reservando 12,5% para os vereadores e 12,5% para deputados estaduais/distritais, mas divulgando um resultado único para o bloco inteiro, dificulta o detalhamento do peso de cada cargo na votação final. Mas para ilustração, o detalhamento dos três outros grupos é suficiente.

O que os números mostram é que Dória vai ter que consertar a casa antes de construir uma necessária aliança externa. Pego emprestada a frase do ex-governador catarinense Paulo Afonso Vieira (Mdb) sobre prévias: quando um partido tem um candidato natural e inventa uma prévia que enfraquece esse candidato, algum problema existe. Dória não pode minimizar essa constatação e nem se escudar apenas em uma apertada vitória interna. O governador paulista precisa atrair setores que trabalharam contra sua candidatura, pacificar a sigla e mostrar viabilidade eleitoral. É o cenário que enfrentou quando venceu as prévias tucanas para candidaturas a prefeito e governador de São Paulo em 2016 e 2018. Ao seu estilo, venceu ambas as eleições. O desafio agora tem o tamanho do país. E naquelas duas disputas ele era um dos polos, não o candidato a alternativa à polarização entre figuras como o presidente Jair Bolsonaro (ex-Psl) e o ex-presidente Lula (Pt).

Em Santa Catarina, o Psdb volta praticamente à estaca zero da construção política para as eleições de 2022. A maior parte dos caciques fez uma aposta primeira em Eduardo Leite, com mais engajamento e barulho no começo e alguma discrição na reta final, quando Dória avançou algumas posições. O Psdb não divulgou os resultados por Estado porque comprometeria o sigilo do voto, o que dificulta o mapeamento da fidelidade da adesão prevista ao gaúcho e o avanço do paulista na reta final. Certo é que o pré-candidato oficial do partido ao governo do Estado, o ex-deputado estadual Gelson Merisio, deve abandonar o projeto. Estava engajado por Eduardo Leite e mais do que distante de Dória. Não é de se duvidar que deixe o ninho tucano.

A leitura rápida é de que isso traz de volta ao jogo os maiores apoiadores de Dória entre os catarinenses – o ex-senador Paulo Bauer e o ex-ministro Vinicius Lummertz, hoje integrante do secretariado paulista. Eu mesmo já disse isso, mas essa é uma constatação meramente formal. Hoje (e provavelmente também em 2022), nem Bauer e nem Lummertz têm condições de liderar uma candidatura ao governo do Estado pelo Psdb – são, no máximo, nomes de composição. Dória terá que olhar para o fragmentado cenário de pré-candidaturas ao governo catarinense para encontrar nomes que possam se tornar seu palanque. A primeira vista, o bloco em construção que envolve o União Brasil de Gean Loureiro, o Psd de Raimundo Colombo e o Podemos de Paulo Bornhausen/Fabrício de Oliveira pode ser uma opção, especialmente se isso garantir a adesão dos tucanos estaduais.

Ou então, Dória poderia trabalhar para trazer o único nome de densidade eleitoral e liderança regional que o Psdb tem hoje para disputar o governo estadual: o prefeito criciumense Clésio Salvaro, eleitor declarado de Leite na prévia, mas simpático ao paulista, que o recebeu no Palácio dos Bandeirantes. Um cenário difícil de se concretizar porque Clésio não pretende deixar a prefeitura de Criciúma por uma aventura, especialmente com o cenário estadual majoritariamente bolsonarista.


Sobre a foto em destaque:

Após a prévia, os tucanos Arthur Virgílio, João Dória, Eduardo Leite e Bruno Araújo, presidente nacional do Psdb, deram declarações prometendo unidade. Os tucanos sempre prometem unidade. Foto: Flickr da campanha de Arthur Virgílio, Divulgação.

COMPARTILHE
Facebook
Twitter
LinkedIn
Reddit