
Uma cidade pode ser planejada para crescer, atrair investimentos, melhorar a mobilidade e ampliar os serviços públicos. Mas o que faz, de fato, uma cidade existir como comunidade?
Para o filósofo Mário Sérgio Cortella, a resposta passa pela cultura.
Ao responder à Ponte Cultural sobre o papel da cultura na construção das cidades, Cortella lembrou que a própria origem dos centros urbanos está ligada aos espaços de encontro. “A grande vantagem das cidades na história foi exatamente elas se organizarem em torno das feiras”, afirmou, relacionando o conceito de feira ao encontro, à convivência e à celebração coletiva.
Segundo ele, viver em comunidade significa, antes de tudo, reunir pessoas. “Nós somos seres de agregação”, explicou. “A cidade é o lugar que junta.”
É justamente nesse processo que a cultura ganha protagonismo. Para Cortella, ela cria conexões entre as pessoas sem que exista uma obrigação produtiva. Música, literatura, teatro, cinema, poesia e tantas outras manifestações cumprem um papel que vai além do entretenimento.
“A cultura é exatamente o que permite que a gente esteja conectado sem que haja algo produtivo obrigatório. Tudo aquilo que faz com que a gente se alegre por estarmos juntas e juntos.”
Na visão do filósofo, essa experiência coletiva também ajuda a combater uma lógica cada vez mais presente de confronto e polarização. Em vez da disputa permanente, a cultura estimula a convivência.
Para explicar essa ideia, ele recorreu a uma metáfora.
“Uma orquestra é a reflexão máxima da diversidade. Os instrumentos são diferentes, o tipo de som que eles emitem é diverso, mas produzem, na harmonia, o que é bom para a vida. Por isso encanta e dá beleza.”
A comparação resume, segundo Cortella, aquilo que uma cidade deveria buscar: pessoas diferentes convivendo, preservando suas singularidades e construindo algo em comum.
O filósofo também lembrou que foi justamente nos momentos mais difíceis da pandemia de Covid-19 que a importância da cultura ficou ainda mais evidente. Enquanto a economia e a política buscavam respostas para a crise, foram os livros, os filmes, a música, o teatro e as diversas expressões artísticas que ajudaram milhões de pessoas a atravessar o período de isolamento.
“Quando nós sofremos bastante, de 2020 até 2022, foi a cultura que permitiu que a gente fosse adiante. A economia é decisiva, o mundo da política é expressivo, mas é a cultura que faz com que a gente siga.”
As reflexões foram feitas durante entrevista concedida por Mário Sérgio Cortella antes de sua participação no Summit Cidades 2026, realizado em Florianópolis. O evento reuniu lideranças políticas, gestores públicos, especialistas e representantes da sociedade civil para discutir soluções e caminhos para o futuro das cidades brasileiras.





