18/06/2026

Maria Bethânia aos 80: quando a música encontra o sagrado

Maria Bethânia completa 80 anos nesta quinta-feira, 18 de junho.

Chega a uma idade que, nos últimos anos, também passou a reunir nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Paulinho da Viola. Artistas que atravessaram décadas, movimentos culturais, governos, modas e transformações do país sem perder a capacidade de emocionar.

Mas existe algo em Maria Bethânia que sempre me pareceu diferente.

Números nunca foram a melhor forma de explicá-la. Nem mesmo sua importância para a música brasileira.

A primeira vez que vi Maria Bethânia ao vivo fui por causa de Caetano.

Já conhecia sua relevância, algumas músicas e a dimensão de seu nome. Mas fui ao teatro muito porque era impossível ser apaixonado por Caetano Veloso e não sentir curiosidade por aquela irmã que ocupava um lugar tão especial em sua vida e em sua obra.

Eu tinha pouco mais de 20 anos.

E saí daquele teatro transformado.

Maria Bethânia não canta apenas.

Maria Bethânia interpreta.

Existe uma diferença enorme entre as duas coisas.

Uma cantora pode ter uma voz bonita. Uma intérprete transforma cada palavra em acontecimento. Em Bethânia, cada respiração tem intenção. Cada pausa carrega significado.

Ela não atravessa a música.

Ela habita a música.

Naquela noite, vi uma mulher capaz de transformar canções em oração, poesia em corpo e palco em território sagrado.

E a experiência não terminou quando o espetáculo acabou.

Na saída, percebi uma pequena movimentação próxima ao local por onde ela deixaria o teatro. Fiquei esperando.

Então ela apareceu.

Parou. Cumprimentou quem estava à espera. Pegou na minha mão.

Olhando nos meus olhos, agradeceu:

“Obrigado, senhores.”

Guardo aquele instante como uma experiência quase sobrenatural.

Porque algumas pessoas ocupam um lugar tão grande na cultura brasileira que parecem existir acima da realidade comum.

Bethânia é uma delas.

Aos 80 anos, continua sendo uma força difícil de explicar.

Talvez porque sua arte nunca tenha se limitado à música.

Ela canta o amor, o desejo, a ausência e a paixão. Mas também canta os mistérios.

Sua obra conversa com a fé, com a ancestralidade, com o catolicismo e com as religiões de matriz africana que ajudaram a moldar sua visão de mundo. Conversa com os orixás, com os santos, com o mar, com o vento, com a terra e com o fogo.

Há artistas que interpretam personagens.

Bethânia parece interpretar os elementos.

E talvez seja por isso que a poesia tenha encontrado nela uma de suas maiores intérpretes.

Poucos artistas fizeram tanto para aproximar a literatura do grande público. Ao longo de décadas, ela transformou poemas em canções, canções em poemas e mostrou que a palavra pode ser tão poderosa quanto a melodia.

A música, em suas mãos, nunca caminhou sozinha.

Sempre esteve acompanhada da poesia, da reflexão e da palavra dita com intenção.

Para quem quiser se aproximar um pouco mais desse universo e mergulhar nos mistérios e belezas dessa artista única, deixo três documentários como recomendações: Pedrinha de Aruanda, Fevereiros e Maria – Ninguém Sabe Quem Sou Eu.

Nenhum deles consegue explicar completamente Maria Bethânia.

Talvez porque algumas artistas não tenham vindo ao mundo para ser explicadas.

Vieram para ser sentidas.

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