23/06/2026

O custo da distância: agro perde bilhões com logística travada, armazenagem insuficiente e dependência de rodovias

Produzir já não é o maior desafio: escoar virou o problema

O agronegócio brasileiro continua batendo recordes de produção e exportação. O problema é que a infraestrutura não acompanha o mesmo ritmo.

Um relatório divulgado pelo adido do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) em Brasília calcula que os gargalos logísticos custaram cerca de US$ 14 bilhões ao agro brasileiro apenas em 2025.

O documento aponta deficiência de armazenagem, excesso de dependência das rodovias, dificuldades para ampliar portos, atrasos em licenciamentos e limitações em ferrovias e hidrovias como os principais obstáculos ao crescimento do setor até 2034.

O alerta chega num momento em que o Brasil exporta mais do que nunca, mas ainda transporta boa parte dessa riqueza por estradas saturadas, estruturas insuficientes e corredores logísticos que operam próximos do limite.

USDA alerta para déficit de armazenagem e excesso de caminhões

O relatório destaca que a agricultura brasileira avançou para novas fronteiras produtivas em ritmo superior ao crescimento da infraestrutura.

Hoje, a capacidade nacional de armazenagem cobre apenas entre 60% e 70% da produção agrícola. Nos Estados Unidos, esse índice supera 150%. O déficit brasileiro já alcança 134 milhões de toneladas e exigiria investimentos próximos de R$ 140 bilhões para ser eliminado.

Outro problema está no transporte. Mais de 95% dos armazéns dependem prioritariamente de rodovias e menos de 20% da capacidade de armazenagem está localizada dentro das propriedades rurais. Durante os períodos de pico da safra, a necessidade de caminhões salta de 130 mil para mais de 200 mil veículos, pressionando fretes e aumentando custos.

Segundo o USDA, as ineficiências logísticas já representam aproximadamente 30% dos custos de produção agrícola no país.

Santa Catarina quer ferrovia para sustentar crescimento do agro

Se o relatório do USDA parece distante da realidade catarinense, basta olhar para a BR-282.

Principal corredor logístico do Oeste catarinense, a rodovia é responsável por ligar uma das regiões mais produtivas do país aos portos do litoral. Por ela passam grãos, aves, suínos, leite, insumos e praticamente toda a riqueza gerada pelo agro da região.

O problema é que a infraestrutura não acompanhou o crescimento da produção. Trechos sem duplicação, aumento do fluxo de cargas e gargalos operacionais já são apontados como entraves para a competitividade do setor.

Para Marcelo Bassani, gerente regional da Epagri em Xanxerê, a discussão deixou de ser opcional.

“Incentivos em logística e em armazenagem devem ser estudados para que a região possa ter sustentabilidade na agricultura e para os produtores de um modo geral.”

Projeto ferroviário promete reduzir custos em até 50%

A principal aposta do setor produtivo é a implantação de uma ferrovia ligando o Oeste catarinense à Malha Sul.

O projeto prevê aproximadamente 320 quilômetros de trilhos entre Chapecó e Correia Pinto, conectando Santa Catarina aos grandes corredores ferroviários nacionais. O investimento estimado é de quase R$ 11 bilhões.

A proposta nasceu dentro do Movimento Pró-Ferrovias, lançado em 2021 por entidades ligadas ao agronegócio.

Segundo estudos do setor, a diferença de custo entre transporte ferroviário e rodoviário pode chegar a 50%.

O vice-presidente executivo da FAESC, Clemerson Pedrozo, resume a lógica do projeto:

“Logística e infraestrutura é um tema que a gente debate constantemente. Precisamos conectar os portos e trazer milho mais barato para Santa Catarina.”

Hoje, o custo anual com fretes na região gira em torno de R$ 6 bilhões. Além do ganho econômico, a ferrovia permitiria reduzir a dependência do transporte rodoviário e aumentar a competitividade das cadeias de aves, suínos e leite.

Comissão aprova participação do setor rural na gestão do ITR

A Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 955/2026, que inclui entidades representativas da produção rural, agricultura familiar e cooperativismo na gestão do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR).

A participação será consultiva, permitindo que as entidades opinem sobre procedimentos de fiscalização, lançamento e cobrança do tributo.

O parecer favorável foi apresentado pelo deputado federal Alceu Moreira (MDB-RS).

“A consulta regular das entidades representativas contribui para a formulação de normas mais adequadas à realidade do campo.”

Câmara avança em política nacional para ovinocaprinocultura

Outra pauta de interesse do agro avançou na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

Os deputados aprovaram proposta que estabelece parâmetros para políticas públicas voltadas à ovinocaprinocultura. O texto teve relatoria da deputada federal Caroline de Toni (PL-SC) e retorna agora para análise do Senado.

Entre os principais pontos estão a criação de ações específicas dentro do Plano Agrícola e Pecuário, linhas de crédito e seguro rural voltadas ao setor e mecanismos de garantia de preços mínimos para produtos como carne, leite, lã e derivados.

Para Caroline de Toni, trata-se de uma cadeia produtiva com forte impacto social.

“É um setor produtivo com forte presença na agricultura familiar e expressiva importância para a economia de diversas regiões do país.”

Mapa cria campanha nacional contra a brucelose

O Ministério da Agricultura e Pecuária publicou a Portaria nº 1.633, que institui oficialmente a Campanha Nacional de Vacinação contra a Brucelose.

A vacinação de bezerras bovinas e bubalinas entre três e oito meses passará a ocorrer em dois períodos anuais, com regras unificadas para todo o país. A medida fortalece o Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e da Tuberculose Animal, considerado um dos principais instrumentos de defesa sanitária da pecuária brasileira.

O custo da distância

O agro brasileiro aprendeu a produzir em escala mundial e o desafio agora é transportar essa produção com eficiência.

Enquanto a safra cresce, os gargalos logísticos também crescem. E Santa Catarina sabe disso talvez melhor do que ninguém.

Porque, no fim das contas, não adianta produzir mais se a infraestrutura continua andando mais devagar que o campo.

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