11/05/2026

Encontro de comadres entre Lula e Trump não define futuro do agro; produtor ainda espera crédito, previsibilidade e resposta real

O agro brasileiro já sabe que terá uma safra atravessada por pressão climática, custo alto, crédito difícil e margem apertada. O produtor já entendeu que vai precisar lidar com El Niño, risco de quebra, atraso no plantio, juros elevados e um mercado cada vez mais exigente. O que ainda falta é o ambiente político e comercial colaborar.

O encontro entre Lula e Trump teve gesto diplomático, almoço oficial, elogio público e promessa de continuidade no diálogo. Mas, para quem produz, aceno não paga custeio, não reduz tarifa, não destrava crédito e não garante previsibilidade.

Carne, café, frutas, alimentos processados, propriedade intelectual, tarifas, barreiras e investigações americanas continuam sem definição. O que produtor brasileiro vai fazer com a foto diplomática se não tiver previsibilidade para planejar a próxima safra?

O agro precisa de mais previsibilidade de mercado e menos foto diplomática

O encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump terminou com sinalização positiva e muitas perguntas em aberto.

Foram três horas de reunião, almoço oficial e uma mensagem pública de “diálogo e respeito”. Trump chegou a classificar Lula como “muito dinâmico” e afirmou que novas conversas já estão previstas.

Mas, no campo, o que importa não é o tom, mas sim o que ficou sem resposta.

Os temas centrais anunciados pelos dois governos passam por comércio, minerais críticos e segurança econômica. Só que o agro, como sempre, está no meio de tudo isso.

E, hoje, ainda existem pelo menos cinco pontos sensíveis que seguem sem solução definitiva.

Seção 301: investigação americana continua aberta e preocupa exportadores

O principal foco de tensão continua sendo a investigação baseada na chamada Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.

O mecanismo permite que o governo americano aplique sanções comerciais unilaterais caso entenda que outro país adota práticas consideradas desleais.

No caso do Brasil, a investigação envolve o comércio digital, a propriedade intelectual, as tarifas preferenciais e questões ambientais ligadas ao comércio.
O processo segue aberto e isso, por si só, já é um problema. Porque uma eventual decisão pode extrapolar o setor analisado e atingir cadeias inteiras do agro como efeito colateral.

Tarifas e barreiras seguem no radar e travam previsibilidade

Mesmo com avanço diplomático, exportadores brasileiros seguem sem clareza sobre tarifas e restrições comerciais. Proteína animal, café, frutas e alimentos processados continuam no radar.

O receio do setor é direto: que a investigação vire base para novas sobretaxas ou cotas.

Hoje, o que falta não é mercado, é previsibilidade.

Aço e alumínio seguem pressionando custos dentro da porteira

Outro ponto que permanece sem solução envolve as tarifas americanas sobre aço e alumínio.

O impacto não é direto no agro, mas chega via indústria como máquinas agrícolas, implementos e equipamentos.  

Num cenário de juros altos e margens apertadas, qualquer aumento de custo industrial volta para dentro da porteira, e o produtor sente.

Propriedade intelectual mantém Brasil sob vigilância

O Brasil segue na chamada Watch List dos Estados Unidos em temas de propriedade intelectual. Para o agro, isso significa pressão em áreas sensíveis como biotecnologia, sementes e defensivos agrícolas.

Não há sanção automática, mas há pressão permanente, e isso pesa em qualquer negociação comercial.

Acordos comerciais e tarifas preferenciais ainda são ponto de tensão

A investigação americana também analisa acordos comerciais firmados pelo Brasil com outros parceiros.

O governo brasileiro defende que tudo está dentro das regras da OMC.

Já o setor produtivo teme o efeito prático: que disputas comerciais acabem atingindo cadeias produtivas que não têm relação direta com o conflito.

O que o agro espera: menos ruído e mais previsibilidade

Para o setor, o melhor resultado possível neste momento não seria um anúncio imediato, seria estabilidade. Mesmo sem encerrar a investigação, um compromisso político de continuidade do diálogo já é e será visto como avanço.

Porque, hoje, o maior custo não é tarifa, mas sim, a incerteza.

A sombra da proteína: JBS entrou no radar e adicionou pressão ao encontro

Nos bastidores, um fator adicional chamou atenção.

A investigação antitruste aberta nos Estados Unidos contra grandes frigoríficos colocou empresas brasileiras no centro da discussão, incluindo a JBS. O tema ganhou ainda mais peso com a proximidade de Joesley Batista com o entorno político de Trump.

A leitura é clara: a pauta da carne deixou de ser apenas comercial e passou a ser também política e eleitoral, adicionando um nível de imprevisibilidade difícil de ignorar.

Balança comercial reforça peso do agro na relação Brasil-EUA

Em 2025, o Brasil registrou déficit de US$ 7,5 bilhões na balança com os Estados Unidos.

Mas o agro segue como peça-chave:

  • US$ 7,1 bilhões em exportações
  • 18,8% da pauta total

Mesmo com tarifas e investigações, setores como carne e café cresceram. Ou seja, o agro continua competitivo, mesmo sob pressão.

Santa Catarina entra em alerta climático e antecipa resposta ao El Niño

Enquanto Brasília negocia no exterior, Santa Catarina se prepara para o que vem de dentro e do céu.

O estado trabalha na decretação de um alerta climático para enfrentar os efeitos de um possível “super El Niño” no segundo semestre.

A medida deve acelerar o acesso a recursos, ações emergenciais e resposta dos municípios. Os investimentos já mostram a dimensão da preocupação: mais de R$ 485 milhões em obras no Alto Vale do Itajaí, R$ 324 milhões em barragens, R$ 133 milhões em desassoreamento de rios.

O cenário projetado é de eventos extremos como enchentes, deslizamentos, vendavais e até tornados.

Frio, seca e atraso ampliam risco na segunda safra

No campo, o problema é imediato. A segunda safra já enfrenta déficit hídrico, atraso no plantio e queda de temperatura.

Milho e feijão entram em fase crítica, com risco de geadas, falhas na polinização e redução de produtividade. Em algumas regiões do Sul, até 95% das lavouras estão em estágio sensível. Este é o ponto mais delicado: quando o clima encurta a margem de erro, crédito e previsibilidade deixam de ser discurso e viram condição de sobrevivência.

Monitoramento climático ganha reforço e muda padrão de previsibilidade

Em paralelo, o governo federal ampliou a rede de monitoramento com novas estações meteorológicas no Sul do país.

O ministro da Agricultura e Pecuária, André Carlos Alves de Paula Filho, inaugurou em Porto Alegre, novas estações meteorológicas automáticas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) no Rio Grande do Sul. Com a iniciativa, o estado passa a contar com 98 estações automáticas que ampliam a capacidade de monitoramento climático, fortalecem as ações de prevenção a eventos extremos e reforçam o suporte à agricultura gaúcha.

“Essas novas estações automáticas vão ser muito importantes tanto do ponto de vista do apoio à segurança civil e às comunidades, quanto, sobretudo, no apoio aos nossos agricultores”, afirmou o ministro.

Segundo André de Paula, a ampliação da rede vai aprimorar a previsão meteorológica e auxiliar o planejamento agrícola. “Os agricultores terão agora dados que permitirão um melhor planejamento das suas safras e a previsão de qualquer incidente climático com antecedência, mitigando os efeitos sobre a agricultura”, ressaltou.

Porque, hoje, clima não é mais variável externa. É fator central de decisão.

Uma ótima semana para nós, Agroamigos!

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