26/05/2026

Quem responde pela morte de Gabriel Ganley?

O início dos anos 2000 nos brindou com a busca incansável pela magreza excessiva e inatingível, enquanto os anos 2010 normalizaram o sobrepeso disfarçado de autoaceitação. Os anos 2020, por sua vez, parecem seguir a mesma busca extremista e irreal, mas, agora, por corpos sarados, definidos e desumanamente musculosos. A morte precoce do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, é sintoma disso.

Influenciador gabriel ganley
Gabriel Ganley morreu no sábado (23), aos 22 anos – Foto: Reprodução/Instagram

O garoto tinha mais de 1,5 milhão de seguidores nas redes sociais e compartilhava, diariamente, a rotina de alta perfomance nos treinamentos para desenvolver a musculatura. Gabriel “cresceu” vinte anos em menos cinco, saindo de um corpo “normal” em 2023 para uma estrutura com mais de 100kg em 2026. Isso, claro, não se deu de forma natural, segura ou saudável.

Em entrevista a um podcast, Gabriel Ganley contou que engordou cerca de 20 kg em dois dias após um episódio de compulsão alimentar. Em outro trecho, falou que sofria com momentos de paranóia e oscilação de humor, e que tinha consciência de que “a busca pelo corpo perfeito lhe causava a perda de dez anos de vida”.

A gravação foi ao ar três meses antes do fisiculturista ter uma morte súbita por cardiomiopatia hipertrófica no sábado (23). A suspeita é de que o uso de anabolizantes tenha provocado isso.

A obsessão por alto rendimento nas redes sociais

O algoritmo me entregou, nessa semana, o relato de um influenciador que fez uma ultramaratona de 68 quilômetros e subiu no pódio da prova, enquanto estava doente e ainda sob efeito de dexametasona (medicação corticóide, de uso proibido no esporte e que configura dopping). Ele teve febre, dores, chegou a ir para o hospital e, mesmo assim, fez a prova, compartilhando o relato e resultado como exemplo de “superação”.

No meu entendimento, uma mulher, mãe, que trabalha seis dias na semana e, mesmo assim, decide ser atleta amadora, é um exemplo de superação. Alguém que faz o contrário de tudo aquilo que as boas práticas e regulamentos esportivos orientam, não. Um atleta que se recupera de lesão e decide voltar ao esporte após seis meses de tratamento é um exemplo a ser seguido. Agora, quem “sugere” o uso de anti-inflamatórios durante provas de endurance, não.

Esse tipo de comportamento sempre me leva a pensar no que motiva esses maus atletas, que sabem (sim, eles sabem) dos riscos provocados por atitudes irresponsáveis, a compartilhar conteúdos como esse. É a imprudência que provoca engajamento, ou o engajamento que é provocado pela imprudência? Essas pessoas são naturalmente inconsequentes e, por isso, fazem sucesso na internet, ou elas se tornam inconsequentes na tentativa de chamar (e conseguir) atenção on-line?

Para uma parcela dos internautas, a prática esportiva deixou de ser um aliado da saúde e da qualidade de vida, sendo substituída por números e objetivos que atletas profissionais passam a vida inteira buscando atingir. Tem quem comece a correr já pensando em maratona e há quem se inscreva na academia querendo atingir o “shape” do Schwarzenegger em seis meses. As pessoas só esquecem que para atingir a excelência é preciso tempo, dedicação e paciência. Para ganhar na loteira, é preciso comprar um bilhete.

A quem se quer impressionar?

Quando casos como o de Gabriel Ganley vem à tona, eu sempre me questiono: a quem a gente quer impressionar? Por que compartilhamos conteúdo na internet? O que postar o resultado de um treno vai mudar na minha vida, ou na vida de quem me acompanha?

É claro que a sensação de bem-estar, de atingir um objetivo e perceber a endorfina agindo no corpo é excelente, não há nada tão prazeroso quanto estar satisfeita comigo mesma. Às vezes, me pego refletindo sobre a sorte que eu tenho de poder olhar no espelho e admirar as coisas incríveis que meu corpo é capaz de fazer.

Eu não preciso de um abdômen trincado, um “bumbum na nuca” e um pace abaixo de 4′ para correr longas distâncias, nadar, ir à academia, trabalhar oito horas por dia, cursar uma pós-graduação, produzir conteúdo de qualidade para a internet e incentivar outras pessoas a terem uma vida saudável.

O mundo lá fora (e a internet intensifica isso de uma forma voraz, muitas vezes) faz questão de nos lembrar que a sociedade tem padrões estéticos e tendências que podem, ou não, serem seguidos. Há ainda o desejo por ser desejado, objetivos pessoais para conquistar e sonhos a serem realizados, mas tudo isso tem limite e é preciso reconhecê-lo.

Respeitar os próprios limites não é evitar o progresso, mas evoluir de acordo com andamento do processo e de forma saudável. Pegar atalhos pode ter um preço mais alto do que se imagina e, na minha modesta e consciente opinião, não há resultado que justifique colocar em risco a própria vida.

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