23/06/2026

Aquecimento global pode transformar ciclones em “esponjas de carbono”

Estudo mostra que tempestades tropicais podem passar a favorecer a absorção de CO₂ pelos oceanos, mas cientistas alertam para riscos à vida marinha.

Os ciclones tropicais estão entre os fenômenos meteorológicos mais poderosos da Terra. Capazes de provocar ventos devastadores, ressacas intensas e chuvas extremas, eles também exercem uma influência pouco conhecida sobre o clima global: ajudam a regular a troca de carbono entre os oceanos e a atmosfera.

Pesquisa internacional aponta que ciclones tropicais estão mudando de comportamento e podem influenciar diretamente a química dos oceanos.
Pesquisa internacional aponta que ciclones tropicais estão mudando de comportamento e podem influenciar diretamente a química dos oceanos.

Agora, uma nova pesquisa publicada na revista científica Nature Geoscience revela que esse papel está mudando. O estudo mostra que os ciclones ainda contribuem para a liberação de dióxido de carbono (CO₂) dos oceanos para a atmosfera, mas essa influência vem diminuindo rapidamente nas últimas décadas.

Se as emissões globais de gases de efeito estufa permanecerem elevadas, os pesquisadores estimam que esses sistemas poderão inverter seu comportamento por volta de 2035, passando a favorecer a absorção líquida de carbono pelos oceanos.

A descoberta ajuda a compreender como o aquecimento global está alterando processos naturais fundamentais do planeta e levanta um novo alerta para a saúde dos ambientes marinhos.

O que os ciclones têm a ver com o carbono?

Os oceanos são um dos maiores reguladores climáticos da Terra. Atualmente, absorvem entre 20% e 30% de todo o dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas. Essa capacidade ajuda a desacelerar o avanço do aquecimento global, mas também torna os oceanos extremamente sensíveis às mudanças na dinâmica climática.

Os ciclones tropicais fazem parte dessa equação. Quando se deslocam sobre águas quentes, seus ventos intensos revolvem as camadas superiores do oceano, promovendo uma grande mistura entre águas superficiais e profundas. Esse processo interfere diretamente na troca de gases entre o mar e a atmosfera.

Durante décadas, cientistas tentaram responder uma pergunta aparentemente simples: os ciclones ajudam os oceanos a absorver carbono ou favorecem sua liberação para a atmosfera? A resposta nunca foi clara porque medições diretas durante a passagem desses sistemas são extremamente difíceis.

Os oceanos são um dos maiores reguladores climáticos da Terra. Atualmente, absorvem entre 20% e 30% de todo o dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas.
Os oceanos são um dos maiores reguladores climáticos da Terra. Atualmente, absorvem entre 20% e 30% de todo o dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas.

A resposta que os cientistas procuravam

Para superar essa limitação, pesquisadores da China, Estados Unidos e Alemanha reuniram diferentes bases de observação e construíram um conjunto global de dados diários sobre o fluxo de carbono entre oceano e atmosfera. Os resultados indicam que os ciclones tropicais ainda provocam uma emissão líquida de carbono.

Na prática, os ventos intensos aumentam a transferência de CO₂ do mar para a atmosfera durante a passagem da tempestade. Embora exista uma absorção posterior, ela ainda não é suficiente para compensar totalmente a emissão inicial.

Desde 1993, os ciclones tropicais responderam por algo entre 9% e 23% da liberação líquida de carbono dos oceanos nas principais bacias oceânicas do planeta. Porém, o estudo identificou uma mudança importante: essa contribuição está diminuindo.

Uma queda expressiva em apenas três décadas

Na segunda metade da década de 1990, os ciclones eram responsáveis por cerca de 16% do fluxo anual global de carbono relacionado à troca entre oceano e atmosfera.

Entre 2016 e 2020, esse percentual caiu para aproximadamente 4,5%. Segundo os pesquisadores, trata-se de uma redução significativa que não pode ser explicada apenas pela variabilidade natural do clima. O principal responsável é justamente o aquecimento global.

À medida que a temperatura média do planeta aumenta, a superfície dos oceanos aquece mais rapidamente do que as águas localizadas em profundidades maiores. Isso intensifica a diferença térmica entre as camadas oceânicas e altera a forma como os ciclones interagem com o mar.

Entre 2016 e 2020, esse fluxo de carbono caiu para aproximadamente 4,5%. Segundo os pesquisadores, trata-se de uma redução significativa que não pode ser explicada apenas pela variabilidade natural do clima.
Entre 2016 e 2020, esse fluxo de carbono caiu para aproximadamente 4,5%. Segundo os pesquisadores, trata-se de uma redução significativa que não pode ser explicada apenas pela variabilidade natural do clima.

As “esteiras frias” deixadas pelos ciclones

Um dos aspectos mais interessantes do estudo envolve um fenômeno conhecido como “cold wake”, ou esteira fria. Quando um ciclone passa sobre o oceano, seus ventos promovem uma intensa mistura vertical da água. Esse processo traz águas mais frias das camadas profundas para a superfície.

Como consequência, forma-se uma extensa faixa de resfriamento atrás da trajetória da tempestade. Essas áreas podem permanecer por várias semanas e, em alguns casos, por mais de um mês após a passagem do ciclone.

Esquema da contribuição dos ciclones tropicais para o balanço de carbono oceânico durante eventos 
de ciclones tropicais e após suas passagens apresentado no estudo publicado na Revista Nature.
Esquema da contribuição dos ciclones tropicais para o balanço de carbono oceânico durante eventos
de ciclones tropicais e após suas passagens apresentado no estudo publicado na Revista Nature.

Com o aquecimento global, o contraste entre as águas superficiais e profundas está aumentando. Isso faz com que ciclones de intensidade semelhante produzam resfriamentos mais intensos do que no passado.

O resultado é um aumento da absorção de carbono pelos oceanos após a passagem dessas tempestades. É justamente esse mecanismo que está reduzindo gradualmente o saldo líquido de carbono emitido pelos ciclones.

Por que isso não representa necessariamente uma boa notícia

À primeira vista, a ideia de uma maior absorção de carbono pelos oceanos pode parecer positiva.

Mas existe um problema. Quando o CO₂ é absorvido pela água do mar, ele desencadeia reações químicas que aumentam a acidez dos oceanos. Esse processo é conhecido como acidificação oceânica.

A acidificação reduz a disponibilidade de compostos fundamentais para a formação de conchas, esqueletos e estruturas calcárias de diversos organismos marinhos, incluindo corais, moluscos e parte do plâncton. Os impactos podem atingir ecossistemas inteiros e provocar alterações nas cadeias alimentares marinhas.

Por isso, os cientistas alertam que uma eventual transformação dos ciclones em promotores de absorção líquida de carbono não deve ser interpretada como uma solução climática. Ela pode representar apenas uma transferência do problema para os oceanos.

O futuro ainda depende das escolhas humanas

Uma das conclusões mais importantes do estudo é que esse cenário não está definido. Os pesquisadores destacam que o comportamento futuro dos ciclones dependerá diretamente da trajetória das emissões globais de gases de efeito estufa.

Caso haja uma redução rápida e consistente das emissões, a tendência atual dificilmente seria revertida antes da década de 2040. Mesmo assim, seriam necessárias várias décadas para que os níveis de absorção retornassem aos patamares observados atualmente.

A mensagem deixada pela pesquisa é clara. As mudanças climáticas não estão apenas tornando eventos extremos mais frequentes ou intensos. Elas também estão modificando processos naturais que ajudam a regular o funcionamento do planeta.

E agora os cientistas descobriram que até mesmo o papel dos ciclones no ciclo global do carbono pode estar sendo reescrito pelo aquecimento global.

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