28/05/2026

Califórnia, a Hollywood do vinho, continua encorpada

Poucas regiões produtoras de vinho construíram uma imagem tão poderosa quanto a Califórnia. Mais especificamente Napa Valley, que desde o histórico “Julgamento de Paris”, em 1976, passou a ocupar um lugar quase mítico no imaginário do vinho mundial.

No Julgamento de Paris (retratado inclusive em livro e filme) dois vinhos californianos derrotaram grandes rótulos franceses em uma degustação às cegas organizada em Paris. Consegue imaginar o tamanho de uma vitória como essa no contexto tradicional do vinho? Foi um choque simbólico que ajudou a mudar para sempre a percepção sobre os chamados “vinhos do novo mundo”.

Desde então, a Califórnia consolidou uma assinatura muito própria: vinhos intensos, encorpados, alcoólicos e marcados pela madeira. Um estilo que conquistou críticos, consumidores e ajudou a transformar Napa Valley em uma espécie de Hollywood do vinho.

Há poucos dias, conversei com Anne Marye Lopez, representante para a América Latina da vinícola californiana 689 Cellars, que esteve em Florianópolis observando o mercado brasileiro e acompanhando degustações da marca no estado.

E provar os vinhos da vinícola acabou sendo, para mim, uma oportunidade interessante para revisitar justamente essa identidade tão característica da Califórnia.

O tamanho de uma potência

Os Estados Unidos são hoje o quarto maior produtor de vinho do mundo, atrás apenas da Itália, da França e da Espanha. Por lá, a Califórnia domina com folga: cerca de 85% de todo o vinho americano vem desse estado.

Napa Valley, a região mais emblemática, ajuda a dimensionar esse universo. São cerca de 475 vinícolas distribuídas em 18 mil hectares de vinhedos.

Em termos de uvas, a Cabernet Sauvignon lidera com folga, acompanhada por Chardonnay, Merlot e Pinot Noir. Também aparece com frequência a Zinfandel, mesma uva encorpada que é chamada de Primitivo na Itália. É uma das mais tradicionais da região – hoje com pouco volume de produção.

Um exemplo prático – 689 Cellars

Experimentei quatro rótulos da vinícola e todos eles parecem ser bons exemplos para quem quer conhecer o que caracteriza o estilo californiano. 

A linha Submission traz três varietais: Pinot Noir, Cabernet Sauvignon (o único que não experimentei) e Chardonnay (em média, R$200 cada), mais alinhados ao estilo clássico da Califórnia — são estruturados, com presença de madeira e intensidade. 

O Submission Chardonnay, aliás, é diferente de qualquer chardonnay que você tenha provado, bem encorpado, com aroma intenso de baunilha. Um vinho que, se não estiver inserido em uma boa harmonização, corre o risco de ter seu brilho apagado, parecendo enjoativo. Já o Pinot Noir Submission está na minha lista de preferidos entre os americanos e faz sucesso sempre que levo em eventos com amigos. 

Provei também rótulos de outras linhas: o Killer Drop (em média, R$ 450), um blend de Grenache, Syrah e Petite Syrah, com uvas da região de Paso Robles e o Master & Servant (em média, R$ 750), com 95% de cabernet sauvignon e 5% de merlot. Em ambos, apesar da combinação de diferentes uvas, segue o destaque para as notas ligadas à madeira: couro, tostados e especiarias. 

Entre o preço e o aprendizado

O acesso aos vinhos da Califórnia no Brasil enfrenta algumas barreiras bem concretas.

Durante a conversa, Anne Marye Lopez chamou atenção para a diferença de preços entre mercados: “o mesmo Cabernet Sauvignon que pode custar entre 16 e 20 dólares na República Dominicana, que hoje é um dos nossos principais mercados, será vendido no Brasil na faixa de 35 a 38 dólares em lojas especializadas, devido aos impostos e custos de importação”, exemplifica.

O resultado é quase óbvio: os vinhos americanos aparecem menos nas prateleiras (quando comparados a rótulos dos nossos vizinhos Chile e Argentina ou dos tradicionais europeus) e acabam associados a uma ideia de consumo premium, quase sempre ligada a ocasiões especiais.

Ao mesmo tempo, existe outro fator importante que vai além do preço. O consumidor médio brasileiro ainda está nos primeiros passos da jornada no vinho. E isso influencia diretamente o repertório de escolhas. Rótulos americanos são menos familiares para grande parte do público, que muitas vezes começa por países mais próximos ou já consolidados no mercado.

Curiosamente, Anne Marye não vê isso como um obstáculo. Para ela, até mesmo o crescimento da produção de vinhos brasileiros é um sinal positivo. “Quando o consumidor passa a beber mais vinho, independentemente da origem, ele começa a se interessar mais pelo universo como um todo”, comentou.

Em outras palavras: quanto mais gente entra nesse mundo, maior a chance de, em algum momento, chegar também aos vinhos californianos.

Beatriz Cavenaghi é jornalista, doutora em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SC). @beacavenaghi no Instagram

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