22/05/2026

O sul de Santa Catarina e o novo ciclo do morar. Por Luiza David Maria Mendes

Artigo de Luiza David Maria Mendes, diretora de Projetos e Incorporações da Lumma Construtora

Durante muito tempo, o mapa do mercado imobiliário catarinense parecia seguir uma lógica previsível. Florianópolis, Balneário Camboriú e, mais recentemente, as demais cidades do litoral norte concentravam os grandes investimentos, os lançamentos de maior visibilidade e a atenção dos principais players do setor. Enquanto isso, o sul de Santa Catarina seguia um ritmo próprio, com crescimento mais discreto e, muitas vezes, fora do radar nacional.

Esse cenário começou a mudar, e não por acaso. O que vemos hoje não é apenas a expansão geográfica do mercado, mas também uma mudança profunda na forma como as pessoas escolhem onde viver, investir e construir suas rotinas. O trabalho remoto reduziu a dependência dos grandes centros. A consolidação da locação de curta duração transformou a segunda moradia em um ativo gerador de renda. E a busca por qualidade de vida, segurança e conexão com a natureza passou a influenciar decisões que antes eram guiadas quase exclusivamente pela proximidade dos polos econômicos.

Nesse novo contexto, o sul de Santa Catarina reúne atributos cada vez mais valorizados. Cidades como Laguna, Imbituba e Tubarão combinam identidade própria, escala urbana mais equilibrada, infraestrutura em evolução e uma relação genuína com o território. São cidades que preservam história, cultura e paisagem, mas que começam a dialogar com as demandas contemporâneas de moradia, mobilidade e permanência.

Os números ajudam a explicar esse movimento. Santa Catarina liderou a atração de novos moradores no Brasil entre 2017 e 2022, com cerca de 354 mil pessoas migrando para o estado nesse período. Parte importante desse fluxo já começa a olhar para municípios litorâneos que ainda possuem capacidade de crescimento, menor saturação e maior possibilidade de planejamento de longo prazo.
Laguna é um exemplo emblemático desse novo momento. Com cerca de 42 mil habitantes, forte relevância histórica e localização estratégica no litoral sul, a cidade reúne características que dificilmente podem ser replicadas: patrimônio cultural preservado, praias com forte vocação turística e um território que ainda permite expansão estruturada.

E é justamente aqui que está uma das principais lições que o mercado vem aprendendo: crescimento sem planejamento gera ocupação. Planejamento, por outro lado, produz cidade. A diferença é profunda. Quando um território passa a ser pensado a partir do uso misto, da mobilidade orientada ao pedestre, de espaços públicos qualificados e de infraestrutura própria, o impacto vai muito além do empreendimento. O que se transforma não é apenas o produto imobiliário, mas também a dinâmica urbana, a experiência cotidiana e a forma como as pessoas se relacionam com aquele lugar.

Para quem atua no setor, o Sul catarinense representa hoje uma das janelas mais consistentes de desenvolvimento do estado. Não pela euforia de um ciclo passageiro, mas pela convergência de fatores que sustentam crescimento real: demanda qualificada, identidade territorial, infraestrutura em expansão e um consumidor cada vez mais criterioso.

No fim das contas, o mercado pode continuar vendendo imóveis. Mas o comprador de hoje, cada vez mais, está em busca de algo maior: um lugar onde faça sentido viver.

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.

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