Artigo de Cryslan de Moraes, vereador de São José (NOVO)

Estive em Chicago participando do MPSA, um dos mais relevantes eventos de ciência política do mundo, onde apresentei um estudo desenvolvido no meu doutorado na Udesc-Esag. Mas, além da agenda acadêmica, a viagem também serviu para observarcomo as cidades ricas aproveitam seus espaços mais valiosos para gerar desenvolvimento, atrair pessoas, movimentar a economia e melhorar a experiência urbana.
Ao visitar o Navy Pier, em Chicago, o que mais me chamou atenção não foi apenas a estrutura ou o fluxo de turistas. O principal foi perceber como aquele espaço foi transformado em um verdadeiro ativo urbano. Ali há circulação permanente de pessoas, comércio, gastronomia, lazer e um uso econômico inteligente de uma área privilegiada da cidade.
Esse tema me fez lembrar imediatamente de algo mais próximo da nossa realidade: o Píer Oporto, em Itapema. Evidentemente, as escalas são diferentes, assim como o contexto urbano. Itapema percebeu que um espaço estratégico da cidade poderia ser tratado não apenas como paisagem, mas como vetor de atividade econômica, turismo, serviços e convivência. E isso foi possível por meio de um modelo que ainda gera muita incompreensão no Brasil: a concessão e a parceria com a iniciativa privada.

Quando eu comentei que São José poderia pensar em um píer turístico e gastronômico, muita gente gostou da ideia. Mas também apareceram comentários dizendo: “a cidade precisa investir em saúde” ou “não tem dinheiro para isso”. Mas esse raciocínio parte, muitas vezes, de uma premissa errada. Projetos dessa natureza não precisam, necessariamente, ser bancados com dinheiro público. Em muitos casos, o papel do poder
público é outro. Cabe ao município estruturar a modelagem, definir regras, estabelecer parâmetros, dar segurança jurídica, autorizar, fiscalizar e garantir que o interesse coletivo seja preservado. Já o investimento, a execução e a operação podem ficar a cargo da iniciativa privada. Ou seja, não se trata de abandonar o papel do Estado, mas de fazê-lo atuar com mais inteligência, planejamento e capacidade de induzir desenvolvimento.
É justamente por isso que esse debate faz tanto sentido para São José. A cidade tem uma localização privilegiada na Grande Florianópolis, tem densidade urbana, tem bairros economicamente fortes no entorno e tem uma beira-mar que ainda está muito aquém do que poderia representar para a cidade.
Por que não pensar em um píer turístico e gastronômico em São José? Seja com a futura Beira-Mar de Barreiros/Estreito, seja com a requalificação da atual Beira-Mar de São José, existe ali um potencial urbano que está longe de ser plenamente aproveitado. Estamos falando de uma área bem localizada, próxima de bairros densos, vivos e economicamente fortes como Kobrasol e Campinas. Um píer bem concebido poderia devolver centralidade a esse espaço, atrair moradores de toda a região e criar um novo polo de lazer, turismo e
serviços.
Está na hora de começar esse debate com seriedade. De estudar modelos, ouvir investidores, analisar viabilidade e pensar um projeto que una desenvolvimento urbano, turismo, gastronomia e iniciativa privada. Porque, quando uma cidade cria um lugar onde as pessoas querem estar, ela também cria um lugar onde a economia quer investir.





