21/05/2026

O impacto social tangível: estudo inédito revela o poder da transformação do microcrédito. Por Stefano Mattei

Artigo de Stefano Mattei, coordenador de ESG da Credisol Microcrédito Brasil e responsável por iniciativas de mensuração de impacto na instituição

Em um cenário em que cada vez mais organizações falam em “impacto social”, uma pergunta essencial costuma ficar em segundo plano: como medir, de fato, esse impacto?

No campo do microcrédito, essa questão se faz ainda mais relevante. O fomento a pequenos empreendedores, por princípio, cumpre um papel nobre e importante para o segmento mais frágil da cadeia produtiva, mas não suficiente. O desafio maior nas está em compreender “se”, “como”, e “quanto” esse crédito melhora a vida das pessoas, fortalece seus negócios e contribui para o desenvolvimento das comunidades.

Essa inquietação há anos se faz presente na Credisol, uma OSCIP de microcrédito catarinense com atuação em 18 estados do Brasil, e dela nasceu a ideia de desenvolver um estudo próprio de comparação socioeconômica, acompanhando a evolução de seus clientes ao longo do tempo. As OSCIPs são organizações da sociedade civil de interesse público, instituições sem fins lucrativos com a finalidade de fomentar crédito a microempreendedores, formalizados ou não.

O estudo observa uma amostra de clientes em dois momentos distintos de sua trajetória de crédito, no intervalo de 15 meses, comparando variáveis como faturamento, renda, endividamento, patrimônio e geração de empregos. A amostra mais recente reúne 446 clientes de diferentes regiões do país e ramos de atuação (varejo, serviços e manufatura). Os tomadores de crédito analisados são pequenos empreendedores, formais e informais, que acessaram a empréstimos de, em média, R$ 8 mil.

Mais do que um retrato pontual, esse levantamento busca entender o movimento. E isso, no universo das microfinanças, em geral, e do microcrédito orientado e produtivo, em particular, e ainda é relativamente raro.

Os resultados indicam uma tendência consistente de melhoria para a maior parte dos clientes analisados. Há aumento de faturamento, crescimento do resultado das atividades, redução do endividamento e avanço da renda per capita. Mas o ponto mais importante talvez não esteja nos números em si, e sim na forma como eles são lidos.

Em geral, análises desse tipo se apoiam na média. Na avaliação da Credisol, no entanto, essa referência pode gerar distorções: poucos casos muito bem-sucedidos são suficientes para elevar o resultado geral e criar uma impressão que não corresponde à realidade da maioria. Por isso, o estudo recorre também a indicadores como a mediana e o terceiro quartil, que ajudam a observar o que acontece com o cliente típico e com a base.

A pergunta principal, no fundo, é simples: a melhora ficou concentrada em poucos ou se espalhou?

Os dados sugerem que ela se espalhou. Em grande parte das variáveis analisadas, os avanços aparecem justamente nos indicadores que representam a maior parte dos clientes, o que indica um movimento mais distribuído, menos dependente de exceções.

Isso não significa afirmar causalidade direta. Seria simplista dizer que o crédito, por si só, explica todas as melhorias observadas. Mas há uma correlação consistente entre o acesso ao microcrédito orientado e a evolução das condições econômicas dos clientes.

Outro aspecto importante é a forma como esses dados são produzidos. No microcrédito produtivo e orientado, a concessão do crédito na metodologia das OSCIPS, como a Credisol, não é um processo distante ou automatizado. Ela passa pela visita do agente de crédito, pelo olhar sobre o negócio, pela conversa, pela tentativa de entender a realidade concreta do empreendedor. É nesse contato que os dados são coletados e, em alguma medida, interpretados.

Isso traz ganhos e também limites.

O próprio estudo reconhece inconsistências e pontos para melhoria. Além disso, há fatores externos que influenciam os resultados, como mudanças na composição familiar e oscilações conjunturais da economia. Assumir essas limitações é parte do processo. Medir impacto, na prática, pressupõe lidar com imperfeições.

Ainda assim, o esforço de mensuração em si já é um diferencial. No Brasil, poucas instituições de microcrédito se dedicam a construir análises desse tipo com alguma profundidade. Em geral, o foco permanece nos indicadores operacionais, que dizem pouco sobre o que realmente importa: se a vida do cliente melhorou.

Ao investir em um estudo como esse, a Credisol não resolve o problema da mensuração. Mas dá um passo relevante. Mostra que impacto não pode ser apenas uma palavra conveniente, repetida em relatórios e apresentações, mas algo que precisa ser observado com cuidado, questionado e, sempre que possível, demonstrado.

No fim, nenhum indicador substitui as histórias individuais. Mas sem algum tipo de medida, as histórias correm o risco de virar apenas narrativa. Medir não resolve tudo. Mas, em alguns casos, ajuda a evitar o autoengano. E talvez esse já seja um bom começo.

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.

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