Mesmo antes da chegada do período historicamente mais chuvoso do ano, o El Niño já a mobiliza autoridades em Santa Catarina. Nesta terça-feira (23), a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) instalou uma comissão mista para acompanhar os possíveis impactos do fenômeno climático.

A movimentação ocorre em um momento de atenção crescente dos meteorologistas. Declarado oficialmente pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) em 11 de junho, o El Niño tende a influenciar o clima global nos próximos meses. No Sul do Brasil, o fenômeno costuma estar associado ao aumento da frequência e da intensidade das chuvas, elevando o risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos.
Sinal de alerta já chegou aos municípios
A preocupação ficou evidente na segunda-feira (22), quando prefeitos de 12 municípios participaram de uma reunião promovida pela Bancada da Grande Florianópolis da Alesc.
O encontro foi convocado justamente para discutir a preparação das cidades diante dos possíveis efeitos do fenômeno. Entre as principais demandas apresentadas estiveram recursos para desassoreamento de rios, manutenção de drenagens e agilização de processos ambientais para execução de obras preventivas.

A avaliação dos gestores é que o tempo para preparação está se tornando cada vez mais curto. O deputado Alex Brasil (PL), proponente da reunião, sugeriu a criação de um fundo específico para atender as demandas dos municípios. Ele também propôs um convite ao secretário de Estado da Proteção e Defesa Civil, Fabiano de Souza, para pedir celeridade na liberação dos recursos.
Além da preocupação com a chegada do período de chuvas, os municípios alertam para as limitações impostas pelo calendário eleitoral, que podem dificultar novos repasses estaduais destinados a obras de prevenção.
“Quase não temos mais tempo hábil para que esses recursos sejam repassados às prefeituras”, afirmou a prefeita de Paulo Lopes, Fernanda Leite, que é presidente da associação que reúne os municípios da região, a Granfpolis.
O que está por trás da preocupação com o El Niño
Embora o El Niño seja um fenômeno natural, seus efeitos sobre Santa Catarina são bem conhecidos. O fenômeno ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial apresentam aquecimento persistente acima da média. Essa alteração modifica a circulação atmosférica e influencia o comportamento das chuvas em diversas partes do mundo.

No caso do Sul do Brasil, o padrão mais comum é o aumento das precipitações, especialmente entre a primavera e o início do verão.
Os registros históricos reforçam o alerta. Episódios intensos de El Niño estiveram associados a algumas das maiores enchentes já registradas em Santa Catarina, incluindo os eventos de 1983 e 1997/1998. Mais recentemente, o ciclo de 2015/2016 também provocou episódios de chuva excessiva em diferentes regiões do estado, conforme dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), da Epagri/Ciram e do próprio CPTEC.
Comissão busca antecipar respostas
Foi diante desse cenário que a Assembleia instalou a Comissão Mista sobre os impactos do El Niño. O grupo reúne parlamentares das comissões de Assuntos Municipais, Defesa Civil e Desastres Naturais, além de Transportes, Desenvolvimento Urbano e Infraestrutura. A proposta é acompanhar as previsões, ouvir especialistas e discutir medidas capazes de reduzir vulnerabilidades antes que os efeitos do fenômeno se intensifiquem.

A iniciativa também pretende debater alternativas para garantir recursos permanentes destinados à prevenção de desastres, uma demanda recorrente dos municípios catarinenses. O presidente da Comissão Mista, o deputado Alex Brasil (PL), propôs que a primeira ação do grupo seja ouvir o Secretário de Defesa Civil de Santa Catarina, coronel Fabiano de Souza, sobre o que está sendo feito para prevenção de desastres no Estado neste momento. O encontro será na quinta-feira (02).
Prevenir custa menos que reconstruir
A discussão vai muito além da meteorologia. O que está em jogo é a capacidade de transformar informação climática em planejamento.
A previsão de um El Niño não significa que enchentes serão inevitáveis nem que todas as regiões serão impactadas da mesma forma. Mas a experiência acumulada ao longo das últimas décadas mostra que cidades mais preparadas tendem a responder melhor aos eventos extremos.
É justamente essa lógica que une meteorologia, Defesa Civil e gestão pública. Quanto mais cedo as ações preventivas saem do papel, menores costumam ser os prejuízos para a população quando a chuva chega.






