
O inverno começou oficialmente no domingo, 21, trazendo duas notícias para o agro brasileiro: uma boa e uma preocupante.
A boa vem das lavouras de inverno do Sul do país. As chuvas recentes melhoraram a umidade do solo, favoreceram a implantação do trigo e da aveia e criaram um cenário positivo para o desenvolvimento inicial das culturas. Em Santa Catarina, as temperaturas mais baixas e a regularidade das precipitações ajudam a consolidar uma safra que começa sob boas perspectivas.
A preocupação vem do Oceano Pacífico. A confirmação do El Niño pelo Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos acendeu um alerta para a safra 2026/27. Com alta probabilidade de atingir intensidade forte ou muito forte, o fenômeno pode provocar excesso de chuvas no Sul e períodos de seca e irregularidade hídrica em outras regiões produtoras do país. O resultado é um aumento da volatilidade climática justamente num momento em que os estoques globais de grãos operam com menor margem de segurança.
Mais do que prever perdas, o desafio agora é se preparar para um cenário de maior imprevisibilidade.
El Niño entra no radar do agro para a safra 2026/27
O Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos (NOAA/CPC) estima 82% de probabilidade de formação do El Niño já neste inverno e 96% de chance de permanência do fenômeno até o verão de 2027. A avaliação é de que o Brasil poderá enfrentar uma das temporadas agrícolas mais desafiadoras dos últimos anos.
Para a pecuária, o principal risco está no aumento da volatilidade climática. O excesso de chuvas pode comprometer manejo, sanidade e qualidade das forragens no Sul. Já no Centro-Oeste, Sudeste, Norte e Nordeste, a preocupação está ligada à irregularidade das chuvas, à recuperação das pastagens e ao custo da alimentação animal.
Especialistas alertam que o desafio não será apenas produzir, mas produzir com custos maiores e menor previsibilidade.
Sul começa o inverno com cenário positivo para trigo e aveia
Se o verão preocupa, o inverno começa trazendo boas notícias para os produtores da Região Sul.
As condições climáticas registradas nas últimas semanas favoreceram o desenvolvimento das culturas de inverno, especialmente trigo e aveia. As chuvas contribuíram para recompor a umidade do solo e garantir melhores condições para emergência, enraizamento e crescimento vegetativo das lavouras.
Em Santa Catarina, o avanço da semeadura ocorre dentro da normalidade e a expectativa é positiva para o estabelecimento inicial das lavouras. O frio previsto para os próximos dias tende a favorecer o perfilhamento das plantas em fase vegetativa, etapa importante para o potencial produtivo das áreas cultivadas.
Governo mobiliza 20 ministérios para enfrentar efeitos do El Niño
O avanço do fenômeno também colocou o governo federal em estado de atenção.
Segundo o ministro da Integração e Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, uma sala de situação permanente já foi montada para monitorar os impactos climáticos e coordenar ações preventivas em todo o país. A estrutura reúne 20 ministérios, além da Defesa Civil Nacional, Cemaden, Inmet e Inpe.
“O Brasil está mais preparado. A vigilância está permanente, os órgãos mobilizados e os planos de contingência já estão em curso”, afirmou o ministro.
A expectativa é que os maiores impactos ocorram no Sul, com aumento das chuvas, e nas regiões Norte e Nordeste, com maior risco de estiagem.
Câmara aprova benefício para produtores atingidos por calamidades
A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 3.083/2012, que altera as regras para concessão de desconto no Imposto Territorial Rural (ITR) em propriedades atingidas por calamidades públicas.
Hoje, a Receita Federal considera o benefício apenas a partir da publicação oficial do decreto de calamidade. A proposta permite que o desconto alcance períodos anteriores ao reconhecimento formal da emergência.
Na prática, a mudança pode beneficiar produtores que enfrentam perdas causadas por secas, enchentes, geadas ou outros eventos extremos antes da formalização dos decretos pelos governos.
Novo decreto amplia incentivos para conservação ambiental
Outra medida com impacto direto no campo foi a regulamentação da Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais.
O Decreto nº 13.018/2026 amplia o reconhecimento de práticas sustentáveis que poderão receber remuneração, incluindo sistemas agroflorestais, integração lavoura-pecuária-floresta e plantio direto.
Apesar do avanço, o setor produtivo ainda aguarda definições sobre critérios de adesão, formas de pagamento e regulamentações complementares que permitam a implementação efetiva dos programas.
Entre o frio e a incerteza
O inverno começa favorecendo trigo, aveia e outras culturas típicas do Sul. Mas o olhar do produtor já está voltado para o próximo verão.
Se as previsões se confirmarem, o El Niño deverá influenciar praticamente todas as cadeias produtivas brasileiras, da pecuária de corte à produção de leite, da avicultura aos grãos.
Mais do que uma previsão meteorológica, o fenômeno entra no radar como uma variável econômica. Porque, no agro, o clima continua sendo o único custo que ninguém consegue controlar, apenas se preparar para ele.





