
Um reconhecimento que vai além da economia
O cooperativismo brasileiro ganhou nesta semana um reconhecimento que vai muito além dos números. O presidente da República em exercício, Geraldo Alckmin, sancionou ontem, 17, a Lei nº 15.433, que reconhece oficialmente o cooperativismo como manifestação da cultura nacional.
No mesmo dia, também foi sancionada a Lei Complementar nº 231, permitindo que cooperativas tenham acesso aos recursos do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE), do Fundo de Desenvolvimento da Amazônia (FDA) e do Fundo de Desenvolvimento do Centro-Oeste (FDCO).
As duas medidas atendem reivindicações históricas do setor e chegam em um momento emblemático para Santa Catarina, onde o cooperativismo agropecuário se consolidou como um dos principais motores da economia estadual.
Mais do que um modelo de negócios, o cooperativismo conecta milhares de produtores, agrega valor à produção, gera emprego e leva produtos catarinenses aos mercados mais exigentes do mundo.
Nova legislação amplia acesso a investimentos
O reconhecimento como manifestação da cultura nacional fortalece institucionalmente o setor e reforça seu papel histórico no desenvolvimento das comunidades rurais brasileiras.
Já a Lei Complementar nº 231 tem efeitos práticos imediatos. A partir dela, as cooperativas passam a poder acessar recursos dos fundos constitucionais de desenvolvimento regional, ampliando possibilidades de financiamento para projetos de infraestrutura, armazenagem, industrialização e inovação tecnológica.
A expectativa das lideranças do setor é que a medida fortaleça ainda mais a competitividade das cooperativas brasileiras e amplie sua capacidade de investimento.
Cooperativas catarinenses exportam mais de US$ 2,18 bilhões
Os números divulgados pela Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (OCESC) ajudam a explicar a relevância econômica do setor.
Em 2025, as cooperativas agropecuárias catarinenses responderam por 27,45% de todo o valor exportado pelo estado. A receita obtida com as vendas externas ultrapassou US$ 2,18 bilhões. Em volume, as cooperativas foram responsáveis por 17,9% de tudo o que Santa Catarina embarcou para o mercado internacional.
A proteína animal lidera a pauta exportadora, representando mais de 76% do valor comercializado pelas cooperativas. Na sequência aparecem os cereais, sementes, fertilizantes e outros produtos que chegam aos mercados da Ásia, Oriente Médio, África, Europa e América do Norte.
A FECOAGRO integra esse sistema que conecta o campo ao mundo, fortalecendo produtores, ampliando escala, promovendo assistência técnica e contribuindo para a competitividade do agro catarinense.
Para o presidente do Sistema OCESC, Vanir Zanatta, o desempenho reflete a capacidade do modelo cooperativista de unir eficiência econômica e desenvolvimento regional.
“Os resultados das exportações são reflexo da capacidade do cooperativismo de gerar desenvolvimento econômico aliado à organização produtiva e à competitividade global. Levamos qualidade, eficiência e confiança aos mercados mais exigentes do mundo sem perder nossa essência colaborativa.”
Brasil e União Europeia criam canal direto para evitar restrições às carnes
Enquanto o cooperativismo celebra avanços, outro tema continua mobilizando o setor produtivo brasileiro.
Durante encontro realizado à margem da reunião do G7, na França, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, concordaram com a criação de um mecanismo bilateral para tratar dos impasses envolvendo produtos de origem animal e produtos siderúrgicos.
A iniciativa surge após a decisão da União Europeia de impor novas restrições às exportações brasileiras de carne a partir de setembro. O objetivo é construir uma solução técnica que permita atender às exigências sanitárias do bloco sem comprometer a competitividade dos exportadores brasileiros.
Segundo o secretário-executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária, Cleber Soares, o governo trabalha com a perspectiva de estabelecer um protocolo de transição. A adaptação é considerada mais simples para a cadeia de aves, cujo ciclo produtivo é curto, mas exige mais tempo na bovinocultura, onde o ciclo produtivo pode superar 18 meses.
Apesar das restrições anunciadas, o Ministério da Agricultura mantém uma visão otimista sobre as negociações e acredita que será possível construir um entendimento antes do prazo final estabelecido pelos europeus.
Plano Safra deve ter crescimento de 10%
A contagem regressiva para o Plano Safra 2026/2027 também ganhou novos capítulos nesta semana.
Durante o Veja Fórum Agro, o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Cleber Soares, afirmou que a pasta trabalha com a expectativa de anunciar entre R$ 568 bilhões e R$ 570 bilhões em recursos para o próximo ciclo agrícola. A projeção representa crescimento próximo de 10% em relação à temporada anterior.
Além do aumento dos recursos, o Ministério da Agricultura tenta negociar com a equipe econômica uma redução de até dois pontos percentuais nas taxas de juros. A expectativa é que as linhas destinadas à agricultura empresarial fiquem entre 6% e 11% ao ano.
O desafio continua sendo equilibrar o aumento dos custos fiscais com a necessidade de garantir crédito para um setor que enfrenta dificuldades relacionadas ao endividamento, aos eventos climáticos extremos e à volatilidade dos mercados internacionais.
Governo tira urgência da pauta e adia disputa sobre a escala 6×1
A discussão sobre a redução da jornada de trabalho ganhou um novo capítulo em Brasília. O líder do governo na Câmara dos Deputados, Paulo Pimenta (PT-RS), confirmou a apresentação do requerimento que retira a urgência constitucional do Projeto de Lei 1.838/2026, proposta do Poder Executivo que trata da jornada e da escala de trabalho.
Com a decisão, o governo reduz a pressão sobre a pauta da Câmara dos Deputados e abre espaço para que o tema seja discutido de forma mais ampla antes de avançar nas votações. Segundo Pimenta, a estratégia agora será trabalhar a regulamentação da proposta e ampliar o diálogo com os setores produtivos e com os trabalhadores.
A retirada da urgência também ajuda a destravar outras matérias que aguardavam deliberação no plenário da Câmara, incluindo projetos considerados prioritários por diferentes bancadas.
O movimento ocorre em meio às discussões sobre os impactos da chamada escala 6×1 sobre a economia brasileira. O tema tem mobilizado representantes do setor produtivo, especialmente do agronegócio, da indústria e do comércio, que alertam para possíveis aumentos de custos e dificuldades operacionais em atividades que dependem de jornadas contínuas.
Nos bastidores, parlamentares avaliam que a decisão do governo reduz a tensão política em torno do assunto, mas não encerra o debate. A expectativa é que a discussão avance ao longo do segundo semestre, especialmente após a conclusão das negociações envolvendo o Plano Safra e a pauta econômica do Congresso.
Chiodini vê preocupação com a escala 6×1 e alerta para falta de mão de obra
Em entrevista exclusiva ao Política & Agro, já disponível no canal do YouTube, o deputado federal Carlos Chiodini (MDB-SC) demonstrou preocupação com os impactos da proposta de redução da jornada de trabalho sobre o setor produtivo, especialmente no agronegócio.
Para o parlamentar, a discussão precisa considerar as diferentes realidades econômicas do país e as características específicas das atividades rurais.
“O agricultor trabalha sete por zero. O sol não tem escala. A vaca não vai entender que vai produzir leite apenas seis dias por semana”, afirmou.
Chiodini argumenta que muitas regiões já enfrentam escassez de mão de obra e que a redução da jornada, sem medidas compensatórias, pode ampliar dificuldades para produtores, indústrias e transportadores.
O parlamentar também voltou a defender soluções para o endividamento rural, afirmando que o aumento dos juros, a queda dos preços agrícolas e os problemas climáticos colocaram milhares de produtores em situação delicada.
“Estamos vendo produtores perderem patrimônio. Precisamos encontrar uma solução que alivie a vida do produtor e de toda a cadeia produtiva”, afirmou.
A entrevista completa já está disponível no canal do Política & Agro no YouTube.
Cooperar para crescer
Num momento em que o agronegócio discute crédito, endividamento, competitividade internacional e mão de obra, a sanção das leis voltadas ao cooperativismo traz uma mensagem importante.
Poucos modelos conseguiram combinar produção, escala, distribuição de renda e desenvolvimento regional como as cooperativas brasileiras. Santa Catarina é um exemplo disso.
Os números mostram que o cooperativismo não é apenas parte da história do agro catarinense. É também uma das principais ferramentas para construir seu futuro.





