Artigo de Paulo Bornhausen, Secretário de Articulação Internacional do Governo de Santa Catarina e Conselheiro da Associação Comercial de São Paulo

O acordo Mercosul-União Europeia representa muito mais do que uma redução de tarifas: é um acordo civilizacional, que reconecta o Brasil ao ocidente e abre uma janela de competitividade que não podemos desperdiçar. Num cenário em que o país seguirá enfrentando instabilidades diante de políticas de taxação externas, diversificar e aprofundar relações comerciais com blocos que operam sob regras estáveis não é opção — é necessidade estratégica.
A Associação Comercial de São Paulo deu o primeiro passo concreto nessa direção ao sediar o II Fórum de Integração Mercosul-União Europeia, reunindo governo federal, agências de promoção, entidades setoriais e especialistas em certificação internacional para transformar oportunidades em plano. É um movimento que começa em São Paulo e Santa Catarina, mas que precisa chegar a todos os estados brasileiros. Os dois largam na frente, e outros precisam se juntar.
São Paulo e Santa Catarina ocupam papel central, e não por acaso. São Paulo é a capital do acordo: o maior hub de negócios do Mercosul, com PIB superior ao de sete países da União Europeia, ela concentra as sedes corporativas, os escritórios jurídicos e as certificadoras que sustentarão toda a estrutura que o acordo exigirá. Santa Catarina é o estado exportador por excelência, o estado premium do empreendedorismo brasileiro, com cultura consolidada e experiência real em levar pequenas e médias empresas ao mercado internacional.
O primeiro avanço diz respeito à certificação. A tarifa zero não basta para entrar na Europa. Marcação CE, rastreabilidade, boas práticas de fabricação e conformidade ambiental são condições de entrada, não diferenciais competitivos. Para quem ainda não tem certificação, o horizonte é de três anos de processo, e precisamos começar agora. Certificadoras internacionais já oferecem diagnósticos e trilhas de adequação acessíveis também às pequenas empresas, e o sistema de emissão do Certificado de Origem para a União Europeia já está operacional no Brasil.
O segundo avanço é a busca ativa de exportadores. Não será um portal de chamamento que vai transformar empresas brasileiras em exportadoras europeias. Precisamos ser caçadores de líderes, identificar ativamente empresas com potencial, convencer seus donos a assumir o desafio e acompanhá-los na jornada. Esse trabalho exige seleção criteriosa e acompanhamento de longo prazo. É exatamente o que Santa Catarina já está estruturando: o governador Jorginho Mello liberou recursos para um programa que responde diretamente às prioridades debatidas: financiar certificações, ampliar o atendimento às médias empresas e garantir presença em feiras e missões internacionais. O modelo tem precedente: selecionamos 50 empresas catarinenses para um programa nos Estados Unidos entre 2012 e 2014. Das 50, 22 permaneceram no mercado americano e todas exportaram. Uma delas foi vendida por 100 milhões de dólares quatro anos depois.
O terceiro avanço é a coordenação. Agências estaduais, associações empresariais e diplomacia comercial passam a atuar de forma integrada, compartilhando informação sobre abertura de mercados, alinhando missões internacionais e personalizando a capacitação exportadora por setor. Saímos com grupos de trabalho formados por eixo temático e já com previsão de um terceiro encontro, desta vez com participação ampliada de outros estados brasileiros.
Esta é uma jornada para uma década. Não há atalho. Mas há, pela primeira vez, um plano articulado entre setor privado, estados e governo federal para que o Brasil chegue à União Europeia com conformidade, competitividade e estratégia. São Paulo puxa. Santa Catarina acompanha. E o Brasil precisa seguir.





