08/06/2026

Agro em Campo: Copa turbina o churrasco, tarifas no radar e sanidade em alerta mas o agro joga uma partida muito maior

O jogo começou antes da bola rolar

A Copa do Mundo de 2026 ainda nem começou, mas já movimenta frigoríficos, supermercados, exportadores e toda a cadeia de proteínas do país.

A expectativa do varejo é de crescimento superior a 10% na demanda por carnes durante os jogos da Seleção Brasileira, impulsionando churrascos, confraternizações e o consumo de produtos tradicionalmente associados ao futebol.

Ao mesmo tempo, o agro brasileiro acompanha com atenção temas que vão muito além dos gramados: novas tarifas propostas pelos Estados Unidos, exigências sanitárias da União Europeia, um novo surto de febre aftosa na Ásia e até uma disputa regulatória envolvendo um dos produtos mais tradicionais da gastronomia catarinense, a Linguiça Blumenau.

Copa deve impulsionar consumo de proteínas e aquecer mercado interno

O agronegócio brasileiro deve ganhar um reforço inesperado nas próximas semanas: a Seleção Brasileira.

Levantamento da Scanntech aponta que a Copa do Mundo de 2026 pode elevar em mais de 10% a demanda por proteínas durante os dias de jogos do Brasil. O estudo mostra que grandes eventos esportivos alteram significativamente o comportamento de compra dos consumidores, especialmente em produtos ligados ao churrasco e ao consumo coletivo.

Segundo Felipe Queiroz, economista-chefe da Associação Paulista de Supermercados (APAS), o setor já trabalha com reforço de estoques e negociações antecipadas com a indústria.

“Os grandes eventos esportivos influenciam diretamente o comportamento de compra do consumidor brasileiro. Existe um aumento muito forte nas confraternizações e isso se traduz em maior demanda por proteínas, principalmente carne bovina”, afirmou.

A categoria churrasco lidera as projeções de crescimento, com aumento de até 227% nos dias de jogos. Espetinho bovino, frango inteiro, maminha, salames, tábuas de frios e picanha aparecem entre os produtos com maior expectativa de alta nas vendas.

Frigoríficos apostam na Copa para ampliar vendas

As gigantes da proteína já entraram em campo.

A MBRF, controladora das marcas Sadia e Perdigão, projeta crescimento de até 50% nas vendas durante o Mundial em comparação à Copa de 2022. A empresa lançou produtos temáticos e reforçou sua estratégia de associação entre futebol e alimentação.

Já a Seara, da JBS, trabalha com expectativa de crescimento de 40% nas vendas e aposta no conceito do “primeiro tempo do churrasco”, com foco em linguiças, cortes suínos e produtos para grelha.

Na carne bovina, a Friboi estima aumento de 10% nas vendas durante o torneio e acredita que a competição pode marcar uma nova expansão do consumo per capita de carne bovina no mercado interno.

Tarifaço americano assusta, mas deixa boa parte do agro fora da mira

A Ainda repercute a proposta do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) de aplicar tarifas adicionais sobre produtos brasileiros.

Apesar da preocupação inicial, parte importante do agro ficou fora da lista. Carnes bovinas, café verde, café torrado, suco de laranja, manga, cacau, açaí e água de coco aparecem entre os produtos preservados da nova rodada tarifária.

A explicação é econômica. Os próprios Estados Unidos dependem de muitos desses produtos para abastecer seu mercado interno. No caso da carne bovina, por exemplo, o rebanho americano está no menor nível em décadas. Já no café, o país importa praticamente tudo o que consome.

Ainda assim, segmentos como etanol, açúcar, pescados, produtos florestais e café solúvel seguem em alerta enquanto o processo continua em consulta pública.

Novo surto de febre aftosa reforça importância da vigilância sanitária

A confirmação de novos focos de febre aftosa na Mongólia voltou a colocar a sanidade animal no centro das atenções globais.

Mais de 600 animais foram abatidos pelas autoridades locais após a identificação da doença em diferentes regiões do país asiático. Embora o episódio não represente ameaça direta ao Brasil, ele reforça a importância dos sistemas de vigilância sanitária, justamente no momento em que a China reconheceu oficialmente todo o território brasileiro como livre de febre aftosa.

Para um país que lidera as exportações mundiais de carne bovina, a manutenção desse status sanitário tornou-se um dos ativos mais valiosos do agronegócio nacional.

Como lembra a Organização Mundial de Saúde Animal (WOAH), um único foco da doença pode provocar embargos imediatos e comprometer mercados construídos ao longo de décadas.

Linguiça Blumenau mobiliza Santa Catarina

Nem só de grandes temas internacionais vive o agro.

A polêmica envolvendo a nova regulamentação da Linguiça Blumenau ganhou força política. A mudança reduz de 42% para 30% o limite de gordura permitido na composição do produto, característica considerada essencial para manter sua identidade histórica e cultural.

O senador Hermes Klann levou o assunto à tribuna do Senado e criticou a medida.

“Não estamos discutindo flexibilização sanitária. Estamos discutindo o direito de uma região preservar sua história e sua forma tradicional de produção”, afirmou. Hermes Klann.

Na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, o deputado estadual Napoleão Bernardes apresentou proposta para sustar os efeitos da norma.

“A Linguiça Blumenau é história, cultura e identidade do nosso povo. Não dá pra deixar passar”, declarou o parlamentar.

Quando o consumo encontra a geopolítica

A Copa do Mundo costuma ser sinônimo de festa, churrasco e aumento do consumo. Os números mostram que o setor de proteínas tem motivos para comemorar e já se prepara para aproveitar um dos períodos mais aquecidos do varejo brasileiro. Mas a semana também lembrou que, no agro moderno, o jogo não é disputado apenas dentro do campo ou da porteira.

Tarifas internacionais, sanidade animal, exigências regulatórias e disputas comerciais seguem influenciando diretamente o desempenho do setor. E, enquanto o Brasil se prepara para torcer pela Seleção, o agro continua jogando uma partida muito maior: a de manter mercados, preservar sua competitividade e proteger ativos que levaram décadas para serem construídos.

Vai, Brasil! Excelente semana, Agroamigos!

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