05/06/2026

Enquadramento de PCC e CV como terroristas pode respingar de forma indireta no agronegócio

Segurança virou pauta do campo

O agronegócio brasileiro está acostumado a lidar com clima, câmbio, juros e mercado internacional. Agora, um novo fator entra definitivamente na equação: segurança institucional.

A decisão dos Estados Unidos de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas abre uma frente inédita de preocupação para empresas brasileiras, especialmente aquelas ligadas às cadeias exportadoras.

Ao mesmo tempo em que cresce o escrutínio internacional sobre fornecedores, transportadoras e estruturas financeiras ligadas ao setor produtivo, os indicadores mostram deterioração das condições de crédito no campo.

A inadimplência rural voltou a subir e reforça a pressão sobre Brasília para encontrar uma solução ao endividamento dos produtores. Em paralelo, o governo trabalha para fechar um Plano Safra mais robusto e ampliar o acesso à inovação tecnológica no meio rural.

Enquadramento de PCC e CV como terroristas pode respingar no agro

A decisão do Departamento de Estado norte-americano de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras não tem como alvo o agronegócio brasileiro. Ainda assim, especialistas avaliam que os efeitos indiretos podem alcançar cadeias produtivas ligadas à exportação, logística, combustíveis, armazenagem e financiamento.

A preocupação está no aumento do rigor dos mecanismos de controle e rastreabilidade adotados por bancos, seguradoras, tradings e compradores internacionais.

Nos últimos anos, investigações da Polícia Federal, Receita Federal e Polícia Rodoviária Federal apontaram a presença crescente de organizações criminosas em atividades econômicas formais e semiformais, incluindo operações ligadas a transporte de cargas, combustíveis e comercialização de insumos agrícolas.

Dados citados no levantamento mostram que os agrotóxicos contrabandeados ou falsificados podem representar até 20% do mercado nacional. Somente em 2025 foram apreendidas 127 toneladas de defensivos irregulares nas rodovias federais brasileiras, mais que o dobro do registrado no ano anterior.

Para o agro exportador, a principal preocupação está na possibilidade de aumento das exigências de compliance. Empresas poderão ser submetidas a verificações mais rigorosas para demonstrar que não mantêm relações comerciais, diretas ou indiretas, com estruturas vinculadas ao crime organizado.

Inadimplência cresce e reforça urgência da renegociação rural

Enquanto o Congresso discute soluções para o endividamento rural, os indicadores seguem mostrando deterioração da capacidade financeira dos produtores.

Levantamento da Serasa Experian aponta que a inadimplência da população rural encerrou 2025 em 8,2%, acima dos 7,2% registrados um ano antes. O avanço ajuda a explicar a pressão crescente pela aprovação do Projeto de Lei 5.122/2023, que trata da renegociação das dívidas do setor.

Os números mostram que os arrendatários apresentam a situação mais delicada, com inadimplência de 9,9%, seguidos pelos grandes produtores, com 9,8%. Entre os médios produtores o índice chega a 8,3%, enquanto os pequenos registram 7,8%.

Também chama atenção a situação do crédito rural com recursos direcionados. Segundo o Banco Central, a inadimplência chegou a 7,4% em abril deste ano, o segundo maior patamar da série histórica iniciada em 2011.

O governo segue tentando construir uma alternativa mais restritiva ao texto aprovado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), mas a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) mantém a defesa do projeto aprovado.

“Não aceitaremos que essa proposta seja desmontada. Vamos trabalhar pela votação do texto aprovado para dar uma solução ao endividamento dos produtores”, afirmou o presidente da FPA, deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR).

Plano Safra pode chegar a R$ 550 bilhões

Durante evento realizado em São Paulo, o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, confirmou que o governo trabalha para anunciar, em 1º de julho, um Plano Safra de aproximadamente R$ 550 bilhões. O valor representaria crescimento próximo de 10% em relação ao ciclo atual, que soma R$ 516 bilhões.

O ministro destacou que o desafio não é apenas ampliar recursos, mas garantir condições de financiamento compatíveis com a realidade enfrentada pelos produtores.

André de Paula também comemorou o reconhecimento da China ao status sanitário brasileiro de país livre de febre aftosa e minimizou os recentes embates comerciais com a União Europeia, afirmando que o Brasil possui uma das estruturas de defesa agropecuária mais robustas do mundo.

Tecnologia ganha reforço para chegar à porteira

O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou a ampliação do acesso de produtores rurais pessoas físicas às linhas de financiamento voltadas à inovação tecnológica e digitalização no campo.

A medida permite que produtores tenham acesso a recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), operados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para investimentos em conectividade rural, agricultura de precisão, inteligência artificial, drones, softwares de gestão e automação de processos produtivos.

A expectativa do governo é acelerar a modernização tecnológica das propriedades e ampliar a competitividade do agro brasileiro nos próximos anos.

Habitação rural pode incluir técnicos agrícolas

A Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara aprovou o Projeto de Lei 2.782/2019, de autoria do deputado federal Giovani Cherini (PL-RS), que inclui técnicos agrícolas entre os beneficiários do Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR), modalidade vinculada ao Minha Casa, Minha Vida.

O relator, deputado federal Hildo Rocha (MDB-MA), argumentou que a medida representa reconhecimento ao papel desses profissionais na assistência técnica, extensão rural e desenvolvimento das comunidades agrícolas.

O projeto segue agora para análise da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ).

O Política e Agro está no AgroCapital que projeta R$ 6 bilhões em negócios e reúne lideranças em Goiás

A segunda edição da AgroCapital começou na segunda e termina hoje, 5, em Goiânia, com expectativa de movimentar cerca de R$ 6 bilhões em negócios e receber até 15 mil visitantes por dia.

Aproximadamente 250 expositores participam da feira, que reúne produtores, cooperativas, empresas de tecnologia, instituições financeiras e lideranças do agronegócio nacional.

Entre os temas centrais estão agricultura de precisão, inteligência de dados, sustentabilidade, rastreabilidade e inovação tecnológica.

A jornalista Ketrin Raitz acompanha de perto o evento e traz, diretamente de Goiás, a cobertura especial para os leitores do Política e Agro.

Quando o risco muda de endereço

Durante muito tempo, os maiores riscos do agronegócio estavam concentrados dentro da porteira: clima, pragas, produtividade e mercado. Hoje, eles começam a surgir também fora dela.

A classificação das facções brasileiras como organizações terroristas pelos Estados Unidos mostra que segurança, rastreabilidade, compliance e governança passaram a integrar definitivamente a agenda do setor produtivo. Ao mesmo tempo, os números da inadimplência revelam que o desafio financeiro continua longe de ser resolvido.

Entre o combate ao crime organizado, a busca por crédito, a construção do novo Plano Safra e a modernização tecnológica, junho começa mostrando que produzir alimentos exige cada vez mais do que apenas produzir bem. É preciso navegar num ambiente regulatório, financeiro e geopolítico cada vez mais complexo.

Bom fim de semana, Agroamigos!

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