Enquanto o Senado travou, a Câmara avançou. O chamado “Dia do Agro” destravou projetos importantes, incluindo o dos safristas.

Panorama da Semana
O agro acelerou na Câmara, travou no Senado e entrou no modo sobrevivência
A semana começou com Santa Catarina mostrando que o campo virou ativo cada vez mais disputado. O mercado de terras agrícolas disparou em 2025, puxado pela força do agro, pela pressão urbana, pela soja, pelo arroz e pela valorização de áreas estratégicas. Ao mesmo tempo, o milho deixou de ser apenas commodity e passou a ser tratado como energia, ração, indústria e segurança alimentar. Em Santa Catarina, essa conta é ainda mais sensível: o estado é potência em proteína animal, mas continua dependente de milho de fora.
Na terça-feira, o foco foi soberania científica. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) colocou na mesa a ideia de um fundo patrimonial que pode chegar a R$ 1 bilhão para financiar pesquisa agropecuária de longo prazo. Depois de anos de contingenciamento, a discussão ficou clara: não existe potência agropecuária sem ciência, e ciência não pode depender apenas do humor do orçamento público.
A partir de quarta, Brasília tomou conta da pauta. O Projeto de Lei 5.122/2023, que trata da renegociação das dívidas rurais e do uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal, virou a principal novela do agro no Senado. A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) deveria votar, adiou, retomou a negociação e deixou o setor esperando mais uma rodada de acordo com a Fazenda.
Enquanto o Senado travou, a Câmara avançou. O chamado “Dia do Agro” destravou projetos importantes, incluindo o dos safristas, o acesso de cooperativas a fundos regionais, propostas sobre crédito, seguro rural, fertilizantes, embargos ambientais por satélite e gestão de risco. Foi uma ofensiva coordenada pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) com o presidente da Câmara, Hugo Motta.
A semana terminou com leite novamente no centro da política. A Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara aprovou o PL 5.557/2025, que regula a importação de leite, leite em pó, muçarela e derivados, mirando inclusive a suspeita de triangulação comercial via Mercosul. Para Santa Catarina, que vive a crise do leite na ponta, o projeto tem peso econômico, social e político.
Agro em Alerta
Endividamento rural segue sem desfecho
A renegociação das dívidas virou a pauta mais urgente do agro. O PL 5.122/2023 segue travado na busca de acordo entre Senado, FPA e Ministério da Fazenda. O governo aceitou discutir prazo maior, fundo garantidor e critérios de acesso, mas ainda há disputa sobre impacto fiscal, alcance da medida e volume de recursos.
Leite entrou na disputa comercial do Congresso
O PL 5.557/2025 cria uma trava para importações de leite e derivados quando a produção nacional não atingir ao menos 70% do consumo interno. A cláusula contra triangulação comercial pelo Mercosul é central, porque responde a uma suspeita antiga da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) sobre produtos de fora do bloco entrando com selo regional e isenção tarifária.
Seguro rural segue como pendência estratégica
O projeto de modernização do seguro rural ficou entre as prioridades do Dia do Agro. A expectativa é que volte à pauta, porque a FPA quer aprovar mudanças antes do próximo Plano Safra. Sem seguro mais robusto, a renegociação de dívidas vira remédio depois da crise, não prevenção.
Fertilizantes e diesel continuam pressionando a safra
A guerra no Oriente Médio e a instabilidade no Estreito de Ormuz colocaram fertilizantes e combustíveis no centro do custo de produção. A ureia subiu 63%, o sulfato de amônio avançou cerca de 30% e o nitrato de amônio acumulou alta próxima de 60%. O governo tentou conter combustíveis com pacote de R$ 3 bilhões, mas o custo segue rondando a porteira.
Clima virou variável de crédito e segurança alimentar
O alerta da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) sobre o El Niño mostrou que o tema já não é apenas previsão do tempo. Excesso de chuva no Sul, seca no Nordeste e aumento de custos podem afetar produção e segurança alimentar.
Indicadores da Semana
• Terras agrícolas em SC: até R$ 169 mil por hectare em Campos Novos e R$ 164 mil por hectare em várzeas sistematizadas de Turvo.
• Valor da Produção Agropecuária de SC: R$ 74,9 bilhões em 2025, alta de 15,4%.
• Milho em SC: demanda de cerca de 8,5 milhões de toneladas por ano, com produção estadual próxima de 2,5 milhões.
• Embrapa: fundo patrimonial em discussão pode chegar a R$ 1 bilhão.
• Tecnologias da Embrapa: impacto econômico estimado em R$ 124 bilhões em 2025; retorno médio de R$ 27 para cada R$ 1 investido.
• Fertilizantes: ureia +63%, sulfato de amônio +30% e nitrato de amônio +60% desde o início do conflito no Oriente Médio.
• Renegociação rural: relatório chegou a projetar limite potencial de até R$ 130 bilhões; impacto fiscal segue em discussão com a Fazenda.
• Leite: PL 5.557/2025 prevê importação condicionada à produção nacional equivalente a pelo menos 70% do consumo interno.
• Pinhalzinho: Núcleo de Ciência, Tecnologia e Inovação do Leite terá investimento estimado em R$ 30 milhões.
• Frescal de São Joaquim: Santa Catarina chegou à 11ª Indicação Geográfica.
Oagro continua forte em produção, ciência e mercado, mas a semana mostrou que competitividade agora depende de quatro frentes ao mesmo tempo: crédito, custo, logística e proteção contra distorções comerciais.
Radar do Agro — Semana de 25 a 29 de maio
A última semana de maio deve ser decisiva para pautas que ficaram represadas ao longo dos últimos dias e que o agro acompanha praticamente em tempo real, porque mexem diretamente com crédito, custo de produção, segurança jurídica, relações de trabalho e clima.
Segunda-feira, 25 de maio
A pressão continua concentrada sobre o Senado Federal. Depois de mais um adiamento na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), o setor espera a retomada da negociação do PL 5.122/2023, que trata da renegociação das dívidas rurais com uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal. A expectativa é que Fazenda, Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e relatoria tentem fechar um texto definitivo antes da construção final do Plano Safra 2026/2027.
Nos bastidores, o agro mantém pressão para que o governo aceite ampliar prazo, carência e alcance da proposta. A leitura da bancada ruralista é que o problema do endividamento já deixou de ser regional e se tornou estrutural.
Terça-feira, 26 de maio
A reunião-almoço da FPA volta a ser um dos principais termômetros políticos do setor em Brasília. A bancada deve alinhar a estratégia para a votação das dívidas rurais, seguro rural, fertilizantes, crédito e também para a pauta trabalhista, especialmente o debate sobre o fim da escala 6×1.
O tema ganhou força nesta semana após o presidente da Câmara, Hugo Motta, sinalizar que pretende levar a proposta ao plenário nessa semana.
No agro, a preocupação aumentou depois que a deputada catarinense Daniela Reinehr conseguiu aprovar na Comissão de Agricultura o requerimento para realização de audiência pública sobre os impactos da medida no setor agropecuário. A avaliação da bancada é que atividades contínuas, safras, agroindústrias e cadeias de proteína animal podem sofrer forte impacto operacional caso a mudança avance sem adaptação específica para o campo.
Quarta-feira, 27 de maio
A expectativa segue concentrada na CAE. Se houver acordo político com a Fazenda, o Senado pode finalmente votar a proposta de renegociação das dívidas rurais. Caso contrário, o desgaste político tende a aumentar sobre o governo federal, especialmente em estados do Sul e Centro-Oeste.
Também seguem no radar projetos ligados:
- ao seguro rural;
- à modernização do crédito rural;
- ao fundo garantidor do agro;
- e às propostas aprovadas durante o “Dia do Agro”, que agora começam a avançar entre Câmara e Senado.
Quinta-feira, 28 de maio
Santa Catarina deve continuar monitorando os efeitos do decreto estadual de alerta climático publicado nesta semana pelo governador Jorginho Mello. O estado entrou oficialmente em alerta pelos próximos 180 dias diante da possibilidade de formação de um El Niño de forte intensidade no segundo semestre.
A medida mobiliza Defesa Civil, monitoramento meteorológico e preparação preventiva para enchentes, deslizamentos e impactos sobre lavouras, especialmente milho, feijão e arroz.
Ao mesmo tempo, o agro acompanha os desdobramentos do novo Cadastro Ambiental Rural Digital (CAR Digital), lançado por Santa Catarina com promessa de reduzir em até 90% o tempo de análise dos processos ambientais rurais. A expectativa é que a medida ajude a destravar regularização fundiária, segurança jurídica e acesso ao crédito rural.
Sexta-feira, 29 de maio
A semana deve terminar com foco total na construção política do próximo Plano Safra. O agro quer entrar em junho com algum grau de previsibilidade sobre:
- renegociação das dívidas;
- seguro rural;
- crédito subsidiado;
- e regras ambientais ligadas ao financiamento.
No Executivo, continuam no radar:
- os efeitos da guerra sobre fertilizantes e diesel;
- as negociações envolvendo importação de leite;
- a pressão da União Europeia sobre proteína animal;
- e os impactos do clima sobre a próxima safra.
A leitura do setor é que maio termina deixando um recado claro para Brasília: o agro ainda segura boa parte da economia brasileira, mas entrou numa fase em que crédito, clima, logística e segurança jurídica pesam tanto quanto produtividade e exportação.
Visão da Semana
O agro saiu da pauta setorial e virou disputa de Estado
A semana de 18 a 22 de maio mostrou que o agro já não cabe mais apenas na gaveta da produção. O setor entrou de vez na disputa por orçamento, política comercial, ciência, logística, clima e segurança jurídica.
Quando a Embrapa fala em independência financeira para não pesquisar no improviso, o debate é soberania. Quando o Senado discute usar o Fundo Social do Pré-Sal para renegociar dívidas rurais, o debate é fiscal, mas também produtivo. Quando a Câmara regula a importação de leite, o debate é comércio exterior, mas também permanência do produtor na atividade. Quando Santa Catarina valoriza terras, amplia indicações geográficas e depende de milho de fora para sustentar a proteína animal, o debate é competitividade regional.
A Câmara entregou movimento. O Senado, por enquanto, entregou espera. E essa diferença marcou a semana.
A última semana de maio será decisiva porque antecede junho, mês em que o Plano Safra começa a ganhar forma. O agro chega a esse momento pedindo três coisas: crédito possível, seguro rural funcional e regras que não punam quem produz dentro da lei.
No fim, a mensagem da semana é direta: o campo continua produzindo, mas Brasília precisa decidir se vai tratar o agro como vitrine de exportação ou como estrutura estratégica do país. Porque, sem crédito, ciência, logística e segurança jurídica, nem o melhor produtor consegue carregar sozinho a conta de alimentar o Brasil e competir com o mundo.





