O pragmático diabo loiro, está de volta. E gostando. Depois de anos afastado dos holofotes da política catarinense, o pré-candidato ao governo de Santa Catarina pelo PSB, Gelson Merísio, voltou ao debate público disposto a defender uma nova versão política de si mesmo. Em entrevista à coluna, ele falou sobre a derrota de 2018, a aproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a mudança de posicionamento político e o cenário eleitoral de 2026. Merísio também fala sobre o fato não ter o ’13’ na urna, já que ele está filiado ao PSB que, na urna. é o ’40’.
Ao longo da conversa, o ex-deputado estadual e ex-presidente da Alesc afirmou que “mudou”, criticou o ambiente político de Santa Catarina, disse que o estado vive há oito anos “de costas para o governo federal” e defendeu um campo mais amplo de diálogo no estado. Ao seu estilo, projetou que pretende estar no segundo turno contra o governador Jorginho Mello e afirmou estar “mais manso” do que o político conhecido nos bastidores como “diabo loiro”. Sua última disputa eleitoral foi em 2018 quando foi candidato a governador e perdeu a eleição para Carlos Moisés, eleito pela “Onda Bolsonaro”.
Confira os principais trechos da entrevista:
Maga: A gente nunca deixou de falar de Gelson Merísio, né? Como é que tá esse sendo esse momento da volta?
Merísio: Olha, primeiro que de fato eu saí de cena. De 2018 para cá, essa deve ser a terceira entrevista que eu dou. E foi proposital, eu encerrei um ciclo. Não saí frustrado com a derrota de 2018, pelo contrário, cumpri a minha missão, fiz uma boa eleição no primeiro turno e no segundo turno foi uma verticalização praticamente de um número.
E isso não diminui quem ganhou, pelo contrário, ele estava no lugar certo, no momento certo, eu respeitei, entendi e fui cuidando a minha vida, fui trabalhando na iniciativa privada, procurando abrir novos horizontes, compreender as coisas de fora para dentro e volto com muita alegria.
Eu não tinha programado para minha vida essa eleição agora, ela surgiu há pouco mais de 60 dias por um convite do presidente Lula, que eu fiquei muito feliz por ter recebido e assumir uma missão de onde parei, procurando agora me reinserir no estado, entender os números, compreender a máquina como é hoje, poder me posicionar nos temas com profundidade.”
Maga: O que que aquela derrota te ensinou em 2018?
Merísio: Me ensinou que muitas vezes o que você quer não está associado ao que a natureza quer. Se você olhar todo o horizonte programado, olho para trás e não vejo grande erro cometido na condução do processo. O que houve foi que a natureza entendeu que era melhor que fosse de outra forma e a gente tem que respeitar isso. E respeitar também agora. Nós tínhamos uma vitória muito provável em 2018. Essa aqui é muito menos provável. Qualquer governador na reeleição é favorito.
Maga: O senhor disse que a sua pré-candidatura ao governo do estado, pelo campo da esquerda, nasceu há 60 dias. Como é que aconteceu?
Merísio: o presidente Lula me chamou. A partir de 2022… hoje, quem vai votar no Lula parece um palavrão em Santa Catarina. Mas se você olhar para trás, muitos votaram nele em 2002, em 2006, em outras eleições. Eu nunca tinha votado nele e nunca tinha falado com ele. Falei com ele em março de 2022 e passei a ser um admirador da pessoa, do ser humano.
Maga: Por quê?
Merísio: Porque ele é muito humano, muito próximo, muito respeitoso no diálogo, ouve com atenção, argumenta. E eu me identifiquei, sinceramente me identifiquei.
A política é para cuidar dos mais pobres. Em Santa Catarina, nesses 8 anos, não se fez uma duplicação de 1 km da rodovia. Então, a infraestrutura também não foi cuidada. Na minha visão, as decisões políticas estão impactando muito Santa Catarina. Nós estamos há 8 anos de Costa para o Governo Federal. É muita lacração de rede, é muita preocupação com a bolha bolsonarista, sem preocupação com a imagem do estado. Isso tem que mudar. Até porque não acho que seja proposital. Acho que são equívocos reiterados que você comete que acabam construindo uma imagem que não é a nossa.
Maga: Lula deve ir à reeleição tendo um novo embate com uma linha sucessória do bolsonarismo, que é o Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente pelo PL. Como é que o senhor avalia esse cenário no Brasil nesse Lula 3?
Merísio: Eu acho que tem uma situação muito clara. Você tem 45% de rejeição de um lado, 45% de rejeição do outro. Sobram 10% do eleitorado que analisam de uma forma mais profunda e acabam decidindo a eleição. E eu entendo que esses 10% vão avaliar experiência, conhecimento e bom senso. O Lula, com três mandatos, tem interlocução global, e isso é útil para o Brasil. Eu acredito que esses 10% no final vão entender dessa forma e vão dar ao Lula o quarto mandato para que ele faça uma transição de ciclo.
Essa geração que vai estar saindo em 2030 é que iniciou em 89, são 40 anos. O Lula vai ser o final de um ciclo Antônio Carlos Magalhães, Fernando Henrique, do Ulisses Guimarães, enfim, uma geração inteira que vem lá de 89 na redemocratização e encerra agora. 2030 inicia um ciclo novo. No meu caso, é o finzinho de um ciclo, eu ainda tenho 60 anos, mas já é também final do ciclo político.
Maga: Final do ciclo?
Merísio: Eu acredito que sim, acho que 2030 inicia uma nova fase da política brasileira, não melhor nem pior, nova, com as vantagens de estar oxigenada com as desvantagens de ter pouca experiência, mas é um ciclo que vai gostem ou não e reiniciar a partir na minha visão a partir de 2030.
Maga: O senhor votou no Bolsonaro em 2018 e hoje está nesse outro campo.
Merísio: Eu votei para o Bolsonaro em 2018 e tenho dito: eu mudei. E por que as pessoas também não podem mudar? Em 2022, quando eu apoiei o Lula, o favorito era o Bolsonaro para a reeleição. O Lula estava saindo da prisão, tinha sido descondensado, como dizem por aí. E eu fui porque acreditei de fato nele, achei que ele poderia ser um grande presidente. Eu lembro ainda em 2022, quando falavam que o Brasil ia virar uma Venezuela, que a economia ia explodir, que empresário tinha que mandar dinheiro para o exterior. Quatro anos depois, nós temos inflação controlada, crescimento econômico maior do que nos quatro anos do Bolsonaro. Isso gera estabilidade política, que reflete na economia.
Maga: Em Santa Catarina, como é que o senhor avalia o cenário atual tendo o seu nome como pré-candidato ao governo, Jorginho Mello à reeleição, João Rodrigues pelo PSD e outros nomes?
Merísio: São duas eleições: primeiro turno e segundo turno. No primeiro turno, nós vamos procurar dialogar com aquelas pessoas que estão receptivas a ampliar o campo democrático da esquerda. Eu imagino um horizonte de 35%, 37% no primeiro turno. Há um grande número de imigrantes no estado com uma capacidade de olhar sem preconceito essa eleição.
Maga: Então, o senhor tá projetando um segundo turno entre o senhor e…?
Merísio: O governador que vai para reeleição. Isso é pragmático. Eu acho muito difícil uma outra candidatura de direita ou extrema direita, porque vai disputar diretamente com a máquina do governo do estado.
Maga: qual a diferença entre o Gelson Merísio de 2018 para o Gelson Merísio de 2026.
Merísio: São quase 10 anos. É uma eternidade. Hoje eu tô um pouco mais experiente, um pouco mais manso, consciente da minha missão. Não vou ter nenhuma frustração se não for eleito. Vou ter frustração se não puder fazer um debate consistente.”
Maga: Dentro disso, então podemos dizer que o “diabo loiro” tá mais manso?
Merísio: Isso aí virou uma lenda. Mas na brincadeira vale tudo. E eu estou mais manso, sim.
Assista a entrevista completa aqui.






