
O caso do leite em pó importado chega à reta final de fôlego do produtor justamente em uma semana em que o endividamento rural volta ao centro do debate. A pressão sobre o produtor não vem de um lado só: vem da concorrência externa, do custo de produção, da queda de margem, dos juros altos e da dificuldade de renegociar dívidas.
É por isso que o tema da live de hoje do Plenário Agro conversa diretamente com esta coluna. Às 20h, no perfil Política e Agro, a advogada especialista em agronegócio Fernanda Rubia, participa da conversa sobre renegociação de dívidas no campo, em um momento em que quase 2 mil pedidos de recuperação judicial no agro, aumento da inadimplência e quebra de safra mostram que a crise deixou de ser pontual e virou estrutural. Enquanto a Camex decide se haverá reação contra o dumping no leite, o produtor tenta decidir como atravessar a próxima conta.
Leite do Mercosul derruba preço no Brasil e produtor cobra reação
O caso do leite em pó importado chega à reta final justamente quando o produtor já opera no limite do fôlego. Depois de anos de discussão, o processo chega à fase em que os dados técnicos deixam de ser apenas argumento e passam a exigir uma resposta institucional clara.
A partir deste momento, o debate deixa de ser técnico e se torna essencialmente político: trata-se de definir qual nível de proteção o país está disposto a garantir a uma atividade estratégica, altamente capilarizada e fundamental para a renda de milhares de produtores, especialmente no Sul.
Nesse contexto, a decisão sobre o leite não será isolada. Ela tende a sinalizar como o Brasil pretende lidar, daqui para frente, com cadeias produtivas expostas a choques externos e práticas comerciais agressivas. E, mais do que isso, indicará se o tempo da política será capaz de acompanhar o tempo da produção – que, no campo, costuma ser menos tolerante a atrasos.
CNA reforça denúncia de dumping contra leite em pó do Mercosul e aguarda decisão final da Camex
O caso do leite em pó importado do Mercosul chegou ao ponto em que o discurso já não basta.
A investigação conduzida pelo governo federal entrou na fase final, e o setor produtivo quer mais do que reconhecimento técnico: quer decisão.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil protocolou nesta semana a manifestação final sobre a investigação de dumping envolvendo importações de leite em pó oriundas de países do Mercosul.
O documento integra a etapa decisiva do processo conduzido pelo Departamento de Defesa Comercial, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, e reforça os argumentos apresentados pelo setor produtivo desde o início da investigação, em 2022.
A conclusão do caso está prevista para o final de maio e poderá resultar na aplicação de medidas antidumping contra importações de leite em pó da Argentina e do Uruguai.
Agora, segue para avaliação da Câmara de Comércio Exterior, a Camex, que terá a palavra final sobre a aplicação, ou não, de medidas antidumping.
O que está em jogo não é apenas preço.
É a sobrevivência de uma das cadeias mais sensíveis do agro brasileiro.
Investigação confirma indícios de dumping e reforça pressão por medidas
A CNA apresentou sua manifestação final no processo e consolidou os principais pontos que sustentam a denúncia do setor.
Entre eles:
- o reconhecimento da similaridade entre o leite em pó importado e o leite in natura
- a identificação de práticas de dumping por exportadores da Argentina e do Uruguai
- e a indicação de que essas importações estão diretamente associadas aos prejuízos da cadeia produtiva nacional
Segundo cálculos do próprio governo, as margens de dumping identificadas ultrapassam, em alguns casos, 60%.
O dado, embora ainda em fase técnica, reforça um argumento que o setor vem repetindo há anos: a concorrência não está acontecendo em condições equivalentes.
Setor reage e cobra tarifa compensatória e política nacional para o leite
A resposta do setor produtivo já começou a ganhar forma dentro do Congresso.
Em audiência realizada na Comissão de Agricultura da Câmara, representantes defenderam a criação de um fundo nacional para o leite, financiado com recursos do imposto de importação de lácteos.
A proposta, prevista no Projeto de Lei 431/26, busca garantir estabilidade ao setor em momentos de crise e estruturar uma política permanente de apoio.
Durante o debate, o tom foi direto.
A avaliação predominante é de que a importação de leite em pó, nos moldes atuais, não responde apenas à lógica de mercado, mas a uma política de preços que distorce a concorrência.
A cadeia reage e pede instrumento.
Projeto de Daniela Reinehr avança e mira prática de reidratação no mercado interno
Outro movimento importante veio da própria Câmara.
A Comissão de Constituição e Justiça aprovou o projeto da deputada Daniela Reinehr que proíbe a reconstituição de leite em pó importado para venda como leite fluido no Brasil.
A proposta não impede a importação, mas altera o uso do produto no mercado interno, tentando equilibrar a concorrência entre o leite nacional e o produto reidratado.
O texto prevê penalidades que incluem multa de até R$ 1 milhão e suspensão do alvará de funcionamento para empresas que descumprirem a regra.
Agora, o projeto segue para o Senado. Para Santa Catarina, um dos estados mais impactados pela crise do leite, o avanço tem leitura clara: tentativa de reequilibrar o jogo.
Bioinsumos avançam e já disputam espaço no centro da produção
Enquanto uma cadeia pressiona por proteção, outra acelera transformação.
No BioSummit 2026, realizado em Campinas, a projeção é de que o controle biológico possa representar até 50% do mercado de proteção de cultivos no Brasil até 2050.
Em 2025, o segmento cresceu 12%, e grandes grupos do agronegócio já utilizam bioinsumos em 100% das áreas de plantio.
O BNDES também entrou no jogo, com R$ 40 milhões destinados à produção de insumos biológicos por cooperativas da agricultura familiar.
A tecnologia deixou de ser tendência, virou estratégia.
Exportações batem recorde histórico e reforçam força do agro
Mesmo sob pressão interna, o Brasil segue competitivo no mercado global.
O país registrou US$ 34,1 bilhões em exportações em abril de 2026, o maior valor da série histórica para qualquer mês.
O crescimento foi impulsionado tanto por preços quanto por volume, com alta de 6,9% em ambos os indicadores.
O dado mostra uma contradição que marca o momento atual: o agro cresce para fora, enquanto enfrenta ajuste dentro da porteira.
Hoje é dia de LIVE Plenário Agro e o tema é o que mais preocupa o setor
O endividamento rural, que atravessou praticamente todas as colunas da semana, volta ao centro do debate. Nesta terça-feira, às 20h, o Plenário Agro recebe a advogada Fernanda Rubia para discutir renegociação de dívidas no campo. A conversa será conduzida por Ketrin Raitz e Pedro Etchepare, ao vivo no perfil Política e Agro, no Instagram.
O contexto explica a urgência:
- quase 2 mil pedidos de recuperação judicial no agro em 2025
- aumento da inadimplência no crédito rural
- produtores pressionados por custo, juros e quebra de safra





